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Model crossing the walkway using a volumous black dress.
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Original photo by Beatriz Demarque
Casper Libero | Style > Fashion

Entre o glamour e a instabilidade: Quais os desafios para a carreira de modelo?

Gabriela Tortora Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A indústria da moda é uma das mais competitivas e idealizadas do cenário contemporâneo. Constantemente associada à beleza e ao reconhecimento público, essa área esconde, em suas entrelinhas, uma série de desafios que impactam não apenas o desenvolvimento profissional, mas também o psicológico de quem nela ingressa. Em um contexto marcado por padrões rígidos e pela busca incessante por destaque, a trajetória de jovens modelos revela as contradições entre aparência e realidade.

É nesse cenário que se insere a história de Sophia Rodrigues, modelo de 17 anos, residente em Guarulhos (SP), que se prepara para participar do Chile Fashion Week, nos dias 29 e 30 de novembro. Ao relatar sua vivência para a Her Campus Cásper Líbero, a jovem oferece um olhar sensível sobre o processo de inserção no mercado da moda, evidenciando as dificuldades, aprendizados e expectativas que acompanham o início de sua carreira. Sua experiência reflete não apenas um caso individual, mas um retrato das dinâmicas e pressões enfrentadas por jovens que buscam consolidar-se profissionalmente nesse campo.

O INÍCIO DE UMA TRAJETÓRIA E OS DESAFIOS DO INGRESSO NO MERCADO

Começar uma carreira como modelo ainda na adolescência é um processo que envolve mais do que talento e interesse pela moda. Em um mercado amplamente competitivo, a entrada é marcada por incertezas e, muitas vezes, pela falta de informações adequadas sobre as agências e seus processos seletivos. 

Sophia relata que sua introdução ao universo da moda aconteceu de maneira inesperada — após um episódio de golpe que, paradoxalmente, despertou seu desejo de compreender melhor o setor.

“Foi esse golpe que me levou para o ramo da moda até hoje”, conta. “A gente começou a pesquisar mais sobre outras agências, fizemos muitas entrevistas, e só depois encontramos uma mais confiável que me dá suporte até hoje.”

A lembrança da jovem evidencia um dos principais riscos enfrentados por iniciantes: a ausência de regulação no agenciamento e a vulnerabilidade de jovens aspirantes diante de promessas de sucesso rápido. Segundo dados da Associação Brasileira de Agências de Modelos (ABAM), mais de 60% dos novos cadastros realizados em plataformas independentes não possuem vínculos com agências certificadas, o que aumenta o risco de fraudes e cobranças indevidas.

PRESSÕES ESTÉTICAS E O PESO DOS PADRÕES

Apesar de avanços recentes em pautas sobre diversidade, o mercado ainda impõe expectativas rígidas de imagem. Para Sophia, que ingressou aos 17 anos, a cobrança estética é constante, mesmo em agências que afirmam valorizar a pluralidade corporal.

“Nunca achei que me encaixava no padrão. Achava que a modelo tinha que ser alta, loira e muito magra. Só depois que entrei nesse ramo, comecei a me identificar mais e ver modelos com o mesmo perfil que o meu.”

Esse sentimento de inadequação é recorrente entre jovens modelos. Pesquisas do Senac Moda Informação (2023) apontam que 72% das profissionais iniciantes relatam insegurança corporal nos primeiros anos de carreira. Para além da aparência, há também uma pressão para manter uma rotina intensa de treinos, autocuidado e disciplina emocional, que pode impactar diretamente a saúde mental.

Sophia cita um episódio em que teve de mudar a forma de usar o cabelo para se adequar às exigências do mercado: “Falaram: ‘você tem que armar seu cabelo, seu cabelo tem que chegar primeiro que você nos lugares’. No começo, estranhei, mas depois percebi que isso me deu mais confiança.”

Essas adaptações revelam como o corpo da modelo torna-se também um espaço de negociação entre identidade pessoal e expectativa profissional — um dos temas mais discutidos atualmente nas ciências da moda e na comunicação estética.

ENTRE O SONHO E A INSTABILIDADE DA PROFISSÃO

Por trás do brilho dos desfiles, existe uma rotina marcada por incertezas. A carreira de modelo, especialmente no início, é instável e financeiramente imprevisível. Não há garantias de trabalhos fixos, e a ausência de um vínculo empregatício torna comum a dependência de cachês esporádicos. Sophia, que ainda concilia a escola com a profissão, revela como essa instabilidade exige preparo emocional e planejamento:

“Tem meses que eu recebo trabalho e tem meses que eu não recebo nada. É um pouco difícil lidar com isso, então eu penso em ter uma segunda opção. Quero fazer curso de aeromoça, porque se acontecer algum deslize na carreira, eu posso seguir outro caminho”.

Essa realidade é compartilhada por grande parte dos profissionais da área. De acordo com o Observatório Nacional da Indústria Criativa (2022), cerca de 68% das modelos autônomas afirmam ter passado por períodos sem qualquer rendimento ao longo do ano. A oscilação financeira, somada à falta de garantias trabalhistas, leva muitas delas a buscar alternativas paralelas, como o marketing pessoal em redes sociais — estratégia que, para Sophia, tornou-se essencial para manter sua visibilidade.

“Nem sempre a agência me divulga, então eu uso o Instagram e o TikTok para me divulgar. É onde as pessoas começam a me conhecer, e muitas vezes surgem trabalhos por lá”, explica a modelo.

A digitalização do mercado transformou profundamente a maneira de ser modelo. Se antes a ascensão dependia quase exclusivamente de agências e editoriais, hoje, o engajamento online se tornou uma vitrine indispensável. Entretanto, essa exposição também potencializa as comparações e a autocrítica — fatores que impactam diretamente o bem-estar psicológico dessas profissionais.

O APOIO FAMILIAR COMO SUSTENTAÇÃO EMOCIONAL

Em um ambiente que valoriza a imagem e a competitividade, cuidar da saúde mental é um dos maiores desafios. Rodrigues reconhece que o apoio emocional da família tem sido determinante para que ela se mantenha firme na profissão.

“Meus pais sempre me apoiaram. Minha mãe foi atleta e meu pai, jogador de futebol, então eles entendem o que é viver num meio competitivo. Quando fico insegura ou cansada, eles me lembram de que preciso me manter forte”

Conforme um estudo do Instituto de Psicologia da USP (2023), em torno de 74% das jovens modelos relatam sintomas de ansiedade relacionados à aparência e ao medo de rejeição. A pressão para estar sempre disponível e perfeita diante das câmeras reforça a necessidade de suporte psicológico e rede de apoio.

A fala de Sophia também revela como o equilíbrio entre a vida pessoal, escolar e profissional é constantemente testado, especialmente entre  jovens que ingressam precocemente no mercado da moda: “Tem dias que eu acordo às três da manhã para ir a desfiles e volto só de noite, tendo prova no outro dia. É cansativo, mas eu tento manter as notas e não faltar às aulas”.

DIVERSIDADE, INFLUÊNCIA DIGITAL E OS NOVOS RUMOS DA MODA

Embora o discurso de diversidade tenha ganhado espaço nas últimas temporadas de moda, a prática ainda enfrenta resistência. A inclusão de diferentes corpos, etnias e estilos caminha lentamente diante de padrões tradicionais que persistem nas passarelas. Sophia reconhece avanços, mas vê contradições.

“O mundo da moda está mudando, mas não vai ser uma mudança rápida. Tem muitos desfiles que ainda mantêm padrões. Todo mundo fala que quer diversidade, mas quando muda, muita gente critica.”

O caso recente da brasileira Gabi Moura desfilando para a Victoria’s Secret exemplifica esse cenário: ao mesmo tempo em que simboliza representatividade, também gerou críticas por substituir modelos profissionais por influenciadoras. Essa tensão reflete uma transição cultural na moda contemporânea — entre o tradicionalismo das passarelas e o protagonismo das redes sociais.

@primevideobr

é BR no victoria’s secret fashion show 2025! vc pode assistir ao desfile completo no meu streaming💙 #gabimoura #victoriassecretfashionshow #vsfs

♬ som original – primevideobr

Ainda assim, a presença de novas vozes e narrativas, como a de Sophia, representa uma renovação gradual de perspectivas. Jovens modelos têm reivindicado mais transparência, equidade e reconhecimento profissional.

“Tem muita gente com potencial que acaba não recebendo oportunidade. Eu mudaria isso na moda: abrir mais portas e acelerar o processo de quebrar padrões”, defende a jovem.

CHILE FASHION WEEK

A segunda edição do Chile Fashion Week, marcada para os dias 29 e 30 de novembro no Centro de Eventos Hilaria, em Huechuraba (Santiago), se configura como um momento estratégico de projeção internacional para modelos e designers latino-americanos. O evento foi concebido como uma vitrine que reúne não apenas criadores de prestígio, mas também talentos emergentes, com o objetivo de conectar o mercado chileno ao circuito global da moda. Entre os pontos de destaque estão, por exemplo, plataformas similares realizadas em Santiago, nas quais participaram nomes como Benito Fernández (Argentina) e Lupe Gajardo (Chile). 

Para a jovem Sophia, que fará sua estreia internacional no evento, esta convocação representa mais do que um desfile — “é a oportunidade da vida dela de se tornar potência internacional”, como ela afirma com entusiasmo. A presença da brasileira no Chile Fashion Week mostra como o evento funciona também como porta de entrada para carreiras além-fronteiras, permitindo que novos rostos da moda latino-americana sejam visibilizados numa escala maior.

Além das passarelas, o evento inclui — conforme o anúncio oficial — “pop-up store, café-bar e espaços de convivência criativa”, ampliando o escopo da moda para além do simples desfile e fomentando networking entre marcas, modelos, agências e imprensa. Para novatas como Sophia, esse ambiente representa uma chance de aprendizado, exposição e construção de rede profissional, ingredientes essenciais para quem está no início de uma carreira global.

O APRENDIZADO POR TRÁS DAS PASSARELAS

Entre ensaios, castings e longas viagens, Sophia aprendeu que a persistência é a principal aliada de quem sonha em seguir carreira. Sua trajetória reflete o esforço de uma geração que busca se afirmar em meio a um mercado que ainda equilibra glamour e precariedade.

“O que mais me orgulha é ter superado as dificuldades. Se você realmente quer alguma coisa, todas as barreiras vão valer a pena.”

Mais do que uma história pessoal, sua experiência evidencia  que a carreira de modelo, muitas vezes idealizada, se revela como um campo de desafios constantes — em que a beleza divide espaço com a disciplina, a resiliência e o autoconhecimento. 

E agora, às vésperas do Chile Fashion Week, fica a expectativa de que Sophia Rodrigues leve consigo não apenas o brilho das passarelas, mas também a força e a determinação de tantas jovens brasileiras que sonham em conquistar o mundo da moda. Que ela represente o Brasil com o mesmo talento, coragem e autenticidade que marcaram o início de sua trajetória.

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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.

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I’m Gabriela Tortora, a 19-year-old Journalism student at Cásper Líbero. I’m passionate about books and sports, and I truly believe that words have the power to transform, inspire and connect people. As Victoria Schwab writes in The Invisible Life of Addie LaRue, I believe in living countless lives through stories — and in sharing those stories with the world. ♡