Nos últimos cinco anos, uma revolução silenciosa, mas barulhenta nas redes, vem redefinindo o que significa ler, desejar e se expressar enquanto mulher. Os chamados “livros hots”, romances com cenas eróticas explícitas, ganharam espaço nos rankings de vendas, nas listas de mais lidos no Kindle e, sobretudo, no coração (e no imaginário) de milhares de jovens brasileiras. Mais do que modismo, o gênero vem se consolidando como fenômeno cultural.
Sob hashtags como #BookTok e #SpicyBooks, as redes sociais, especialmente o TikTok, impulsionaram títulos antes restritos a nichos. Entre cenas tórridas e frases de efeito, as recomendações não só viralizam, como também funcionam como uma espécie de sex education alternativa: divertida, acessível e protagonizada por mulheres.
Mas, afinal, esses livros representam uma forma de liberdade feminina ou apenas reproduzem padrões mascarados de empoderamento?
PRAZER E PROTAGONISMO: UM NOVO TIPO DE LEITURA?
A resposta começa com uma virada de chave. Em 2011, Cinquenta Tons de Cinza inaugurou o que alguns críticos chamaram de “pornografia de dona de casa”. Apesar das críticas sobre a romantização do abuso, o livro abriu espaço para que o erotismo fosse abordado com a mulher como protagonista. Desde então, o gênero se expandiu, e hoje, o Kindle Store brasileiro é majoritariamente dominado por romances eróticos autopublicados, com autoras que faturam e constroem comunidades leais em torno de suas obras.
Para a estudante de letras, Marina Cruz, 24 anos, o impacto foi pessoal — e profundo: “Li meu primeiro hot escondida no ensino médio. Achava que tinha algo de errado em sentir curiosidade sobre sexo. Hoje, falo abertamente com amigas sobre o que desejo, o que aceito e o que não. Os livros me ajudaram a nomear coisas que eu nem sabia que existiam em mim.”
Mais do que histórias picantes, os livros se tornam espaços de elaboração emocional, auto imagem e descoberta. “A gente não aprende sobre prazer feminino na escola. E nas conversas entre mulheres, às vezes há vergonha. Nos livros, encontrei um lugar seguro para explorar isso”, completa Marina.
Já para a psicóloga Patrícia Oliveira, 37 anos, a leitura surgiu como um reencontro consigo mesma depois da maternidade: “Voltei a ler por causa dos livros hots. É um momento só meu, sem culpa, sem cobrança. Algumas histórias ainda têm clichês ultrapassados, mas quando encontro uma autora que escreve com responsabilidade emocional, me sinto vista.” Patrícia destaca também o poder da troca:
“Faço parte de um grupo de WhatsApp só de leitoras de hot. Discutimos personagens, temas, cenas e, mais do que isso, falamos sobre a vida real a partir da ficção. É mais do que sexo, é conversa entre mulheres.”
UM GÊNERO AINDA EM DISPUTA
Apesar do aparente empoderamento, nem tudo é revolução. Críticas feministas apontam que, muitas vezes, o que se apresenta como liberdade é, na verdade, a replicação de estereótipos masculinos do desejo, com roupagem moderna. CEOs possessivos, atletas dominadores, trilogias em que a “cura” vem pelo amor da mocinha — todos elementos frequentes nas narrativas mais vendidas.
A escritora e crítica Eliane Robert Moraes alerta para o risco da repetição: “Quando o erotismo feminino se limita à fantasia heteronormativa e à subjugação romantizada, corremos o risco de inverter o discurso sem mudar a estrutura.”
Ainda assim, autoras contemporâneas como Babi A. Sette, Penelope Douglas e Nana Pauvolih vêm renovando o gênero, apostando em histórias com consentimento explícito, representatividade corporal e afetiva, além de protagonistas mais complexas e conscientes.
É o que confirma a pesquisa da Bookwire Brasil: mais de 70% dos livros autopublicados no país em 2023 foram escritos por mulheres, com destaque para o gênero erótico. Um dado que mostra como, ao mesmo tempo em que consomem, as mulheres também produzem suas próprias narrativas com desejo, voz e lucro.
EDUCAÇÃO SEXUAL DISFARÇADA DE ENTRETENIMENTO?
Se há uma brecha de liberdade nesses livros, ela talvez esteja no acesso. Em um país onde educação sexual ainda é tabu, especialmente para meninas, os romances hot funcionam, para muitas, como manual emocional e corporal. Descobre-se que prazer tem nome, que o “não” é um direito e que respeito não é detalhe, é pré-requisito.
“Esses livros, mesmo com falhas, oferecem um ponto de partida”, diz a sexóloga Gabriela Canalli. “Muitas mulheres chegam no consultório com referências apenas da pornografia masculina. Os hots, quando bem escritos, propõem outra lógica: a do afeto, da conversa, da reciprocidade.”
E isso faz diferença. A escritora Júlia Braga, autora independente no Wattpad, comenta que muitas leitoras mandam mensagens dizendo que só passaram a buscar o próprio prazer depois de ler suas histórias: “A ficção tem poder de formar ou transformar repertórios.”
LIBERDADE QUE ARDE, MAS NÃO QUEIMA
Não há resposta única sobre o que os livros hots representam. Para umas, são porta de entrada para o autoconhecimento. Para outras, uma fantasia escapista que reproduz padrões patriarcais. Mas o fato é que estão aí — sendo lidos, debatidos, recomendados, criticados. E, mais importante, protagonizados por mulheres.
Entre o fetiche e a revolução, entre a capa pastel e o conteúdo inflamado, o hot ocupa hoje um espaço que outras formas literárias contemporâneas não ousaram reivindicar com tanta intensidade: o da mulher que deseja, sente, cria e compartilha sem pedir desculpas. Se liberdade é poder escolher, inclusive o que se lê sob as cobertas, talvez já estejamos diante de uma forma legítima de liberdade feminina.
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O artigo acima foi editado por Juliana Santos.
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