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Casper Libero | Culture

Entre jogos e lesões: o calendário brasileiro de futebol cobra caro dos atletas

Lari Menegatti Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A temporada de 2026 é marcada por uma mudança de paradigma na organização das datas. O início do Campeonato Brasileiro Série A foi antecipado para 28 de janeiro, pela primeira vez em décadas, e ocorre junto aos campeonatos estaduais. 

Apesar da medida diluir as 38 rodadas do Brasileiro ao longo do ano, ela impõe um começo intenso. Os clubes precisam decidir entre girar o elenco ou submeter os titulares a uma carga competitiva imediata, sem terem tido tempo de preparação adequado. O encerramento do campeonato está previsto para 2 de dezembro, totalizando quase 11 meses de atividade, interrompidos apenas na pausa estratégica da Copa do Mundo e durante as Datas Fifa.

ADAPTAÇÃO PARA 2026

Com duração aproximada de 50 dias, entre 1 de junho e 20 de julho, a paralisação para a Copa do Mundo impacta diretamente o calendário brasileiro de futebol. A pausa no ritmo competitivo força a compactação de datas no segundo semestre para que competições nacionais e continentais sejam concluídas a tempo. 

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também implementou um novo torneio regional, a Copa Sul-Sudeste. Com a novidade, o número de partidas no primeiro semestre para clubes das regiões Sul e Sudeste aumenta. Por um lado, equipes menores ganham receita e visibilidade extra. Enquanto isso, a agenda é ainda mais pressionada, exigindo maior rodízio de elenco e altos investimentos em logística.

A estrutura do calendário estabelece marcos rígidos: a temporada abre com a Supercopa Betano Rei em 24 de janeiro. O Brasileirão Série A ocorre de 28 de janeiro a 2 de dezembro, enquanto a Série B vai de 21 de março a 28 de novembro. Os estaduais foram reduzidos a 11 datas, distribuídas entre 11 de janeiro e 8 de março. A Copa do Brasil se estenderá de 11 de março até a final, em jogo único, no dia 6 de dezembro, encerrando oficialmente o calendário nacional.

Para entender o peso do ano de 2026, é preciso olhar para os dados acumulados em 2025. O balanço da última temporada revelou uma crise de saúde nos clubes. O Botafogo liderou o ranking de lesões na Série A, com 55 baixas médicas, um aumento superior a 50% em relação ao ano anterior. Outros clubes também sofreram, como o Fortaleza, que fechou o ano com 53 lesões, Internacional e Vitória, que registraram 50 casos cada. Já o Cruzeiro teve a melhor gestão de saúde, com apenas 22 lesões em 62 jogos disputados.

A gravidade das lesões colocou o foco na ruptura do Ligamento Cruzado Anterior (LCA), cuja recuperação leva de 9 a 12 meses. No Vasco, por exemplo, foram oito lesões desse tipo em cinco temporadas, o que aponta para o risco acumulado por gramados ruins e fadiga extrema. Estima-se que cerca de 15% dos atletas não retornem ao nível de elite após essa lesão.

INSATISFAÇÃO De TREINADORES REPERCUTE

O Corinthians disputou a final da Copa do Brasil no dia 21 de dezembro e voltou a competir nos estaduais em 11 de janeiro, se tornando o time com a pré-temporada mais curta, com duração de apenas 20 dias. O técnico Dorival Júnior expressou sua insatisfação quanto ao calendário. “Não tivemos tempo de preparação, então temos que ter todo o cuidado possível. […] Nos preocupamos muito com tudo isso.”, explicou o técnico em entrevista coletiva.

Dorival não é o único insatisfeito. Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, também chegou a fazer reclamações durante toda a última temporada. Vale lembrar que o time alviverde chegou a final do Paulistão 2025, disputou a Copa do Brasil, esteve na parte de cima da tabela do Brasileirão e foi finalista da Libertadores. 

Abel criticou o pouco tempo de descanso que seus atletas tinham, junto a deslocamentos e viagens, ressaltando também a importância do rendimento do clube. Abaixo, a resposta completa:

OS TIMES PAGAM O PREÇO

O volume de ocorrências do São Paulo no último ano ficou marcado na história do clube, mais de 70 jogadores sofreram lesões ao longo da temporada. A crise se agravou com um problema dentro do departamento médico, ligado à prescrição controversa do medicamento Mounjaro para alguns atletas sem consenso do setor de fisiologia. O fato levou a demissões e a uma reformulação do departamento para 2026.

No Botafogo, a liderança negativa em lesões (55 casos) trouxe críticas à preparação física. Relatos apontam que a comissão técnica ignorou dados do Núcleo de Saúde e Performance e manteve cargas de treinamento excessivas, com uma média de um jogador lesionado a cada quatro dias de trabalho. Em um período específico, dos 37 problemas registrados, 20 foram lesões musculares.

A sobrecarga de jogos no Brasil atingiu níveis inéditos em 2025. O Bahia foi o único clube do mundo a disputar 80 partidas oficiais no ano, superando gigantes como o Flamengo (78 jogos) e o Fluminense (79 jogos). Mesmo com o volume recorde, o Bahia se manteve no meio da tabela de lesões com 36 casos, atribuindo o resultado a uma logística eficiente de voos fretados e gestão de elenco.

Para efeito de comparação, o volume brasileiro é muito superior ao europeu. A recomendação da FIFPRO, sindicato mundial dos jogadores de futebol profissionais, aponta um limite de 55 a 60 jogos anuais para preservar a carreira dos atletas. Clubes de elite da UEFA raramente passam de 65 jogos por ano, com intervalos de 5 a 6 dias entre partidas. No Brasil, a média de intervalo para times que jogam em várias competições é de 3 a 4 dias.

A geografia continental brasileira também pesa: clubes das principais ligas europeias viajam, em média, cerca de 12 mil quilômetros por temporada, enquanto equipes da Série A brasileira podem superar 59 mil quilômetros em um único ano. 

Há registros extremos como o do Náutico em 2013, que ultrapassou 97 mil quilômetros percorridos. Esse vai e volta tira tempo de fisioterapia, sono reparador e recuperação ativa. O atleta chega ao jogo seguinte não só cansado, mas com déficit energético e neuromuscular acumulado.

VOLUME OU LONGEVIDADE?

Apesar de o calendário deste ano ser uma tentativa de conciliação entre Copa do Mundo e a manutenção de receitas, as evidências de 2025 apontam para um sistema operado no limite. 

Enquanto o Bahia provou que logística e gestão de elenco podem mitigar o desgaste mesmo com 80 jogos, o Botafogo e o São Paulo mostraram que falhas na gestão de saúde e na carga de trabalho podem ser devastadoras. Além disso, a inclusão da Copa Sul-Sudeste cria mais janelas de competição que podem beneficiar financeiramente clubes menores e dar mais oportunidades de rodízio.

O ciclo 2026–2029 será o teste definitivo. O futebol brasileiro precisa priorizar o volume comercial ou a longevidade dos atletas. Sem mudanças na gestão de carga, na qualidade de gramados e na logística, a tendência é que temporadas longas e competições extras aumentem o risco de lesões graves e encurtem carreiras.

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O artigo acima foi editado por Isabella Gouvea

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Lari Menegatti

Casper Libero '28

Me chamo Larissa, tenho 19 anos e sou estudante de jornalismo na Cásper Líbero. Me interesso muito por esporte, cultura, história e música!