Cerca de 1,8 bilhão de pessoas menstruam ao redor do mundo. Ainda assim, falar abertamente sobre o corpo feminino e os cuidados necessários para um bem-estar devido é um grande tabu. Exatamente para combater esse estigma é que o Segue o Fluxo, desde 2024, busca auxiliar no combate à pobreza menstrual.
Com arrecadações para instituições que trabalham com pessoas em situação de vulnerabilidade social, estudantes da Faculdade Cásper Líbero levam consigo o olhar para o próximo e a consciência de que todos merecem dignidade e equidade. Sem qualquer fim lucrativo, o coletivo traz à tona discussões comumente jogadas para escanteio sobre a saúde feminina e o impacto que o período menstrual pode ter na rotina das mulheres, ainda mais sem o suporte necessário.
No mês de outubro, a parceria foi o Instituto Buddha Spa e o centro cultural Bibli-ASPA, instituição que acolhe pessoas imigrantes e refugiadas no Brasil. Dentro da nossa própria rotina, confortável com nossas vidas, e pertencente a realidade que nos cerca, pode ser até difícil imaginar a vida daqueles que tem de fugir de suas casas, deixar para trás tudo o que conhecem e mergulhar, sem nem olhar para trás, em uma realidade completamente nova. Foi por situações como essas que as 85 mulheres acolhidas pelo centro cultural tiveram de passar, e, hoje, buscam recomeçar suas vidas no Brasil.
Se falar sobre menstruação já é raro em um cenário de total estabilidade, imagina tentar falar sobre quando nem se sabe se terá uma casa para morar?
Justamente buscando desestigmatizar a barreira de silêncio construída em torno do corpo e funcionamento feminino, as diretoras-gerais do Segue o Fluxo, Giovanna Freire de Almeida e Isadora Fregnani, junto da Amanda Telles e Daiane, representante do Instituto Buddha Spa e responsável pelo registro fotográfico, organizaram uma palestra sobre saúde menstrual e esclareceram temas como dignidade menstrual, as fases do ciclo, higiene e itens menstruais, contracepção, condições comuns relacionadas à menstruação, e a importância do acompanhamento médico.
O olhar sincero para o outro está no cuidado e na intenção das ações. Desejar uma melhor qualidade de vida para o coletivo significa agir para que tal seja atingida e, por isso, aproximadamente 2,200 unidades de absorventes foram arrecadados pelo coletivo e pelo instituto e, assim, distribuídas individual e personalizadamente para a necessidade de cada mulher presente no evento.
Outra coisa que sabemos bem é que, em uma sociedade naturalizadamente misógina, falar sobre seus sentimentos como mulher e ser seriamente escutada e valorizada não é o cenário mais comum de se encontrar. Portanto, outro objetivo da palestra foi a organização de trocas pessoais e coletivas, para que as presentes compartilhassem suas histórias e experiências com a menstruação.
Frente ao interesse e curiosidade das participantes, mostra-se mais do que nítido que não existe estigma nenhum, além do próprio preconceito, em torno do corpo feminino. Muitas delas não sabiam da existência do SUS e de UBS disponíveis para orientações e tratamentos relacionados ao ciclo menstrual, prova de que não se promove informações básicas e necessárias para maior conforto das mulheres. Dúvidas relacionadas a alterações hormonais ao longo do mês e sintomas associados a condições, como a SOP, miomas uterinos e a endometriose também apareceram.
A equipe reforçou a importância de buscar atendimento profissional para avaliação de sintomas anormais, além da indicação do SUS e UBSs como alternativas para obtenção de orientações e acompanhamentos. Foi esclarecido que pessoas imigrantes e refugiadas têm acesso aos serviços públicos de saúde, inclusive aquelas que não possuem documentação permanente.
A informação é a única coisa que jamais pode ser tirada de nós. E mulheres conscientes de seus próprios corpos se tornam muito mais fortes para firmarem sua posição e combaterem opressões impostas. Contanto que exista um espaço seguro para que conhecimentos sejam trocados e dúvidas sejam sanadas, a força e confiança de uma mulher inspira outras, para que assim, conquistem cada vez mais espaço e voz, pavimentando uma sociedade que garanta equidade, dignidade e respeito. Até porque, menstruar não é privilégio, é direito.
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O artigo acima foi editado por Duda Kabzas.
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