A Oktoberfest é uma festa tradicional da cultura germânica, e é considerada um dos maiores eventos folclóricos e populares, que todos os anos atraem milhões de turistas do mundo todo.
História de uma tradição: como surgiu a Oktoberfest na Alemanha?
A Oktoberfest surgiu em 1810 em Munique, na Alemanha, graças ao membro da Guarda Nacional Bávara, Andreas Michael Dall’Armi. Ele sugeriu a ideia de celebrar o casamento do Príncipe Ludwig da Baviera e da Princesa Therese de Saxe-Hildburghausen em um festival com uma grande corrida de cavalos. Ao apresentar sua proposta ao Rei Maximiliano I José da Baviera, o monarca ficou tão impressionado que permitiu a realização da festa sem hesitar.
O casamento real aconteceu no dia 12 de outubro de 1810, em uma praça pública, com toda a cidade convidada, e as comemorações duraram cerca de cinco dias. Durante o evento, as crianças vestidas com trajes bávaros homenagearam a família real com declamações de poemas e os presentearam com flores e frutas típicas da região. A festa foi encerrada com a famosa corrida de cavalos nos arredores de um prado em Munique. O espaço que foi realizado a cerimônia recebe hoje o nome Therense-Wiese “Prado de Therese”, em homenagem à noiva.
Encantados com o sucesso e o alcance que a festividade conquistou, a família decidiu atender as vontades de seus súditos e passou a realizar a festa todos os anos, tornando-se uma tradição do reinado e da cultura germânica.
Em 1811, uma nova edição da festa foi organizada pela Associação Agrícola da Baviera (Landwirtschaftlicher Verein in Bayern), sendo vista como uma oportunidade para movimentar a economia local e destacar os produtos da associação. O sucesso alcançado fez com que Andreas Michael Dall’Armi recebesse a medalha de ouro da cidadania de Munique em 1824, por ter sido um dos fundadores desta tradicional festa germânica.
Oktoberfest: o festival da cerveja alemã
Atualmente, quando se pensa em Oktoberfest a primeira coisa que vem à mente, além da rica gastronomia com pratos suínos e os trajes bávaros, são as famosas cervejas artesanais alemãs. Porém, nem sempre a festa foi vista assim, inclusive as primeiras edições da Oktoberfest nem mesmo contaram com a presença de barracas de cervejas.
Em 1825, as cervejarias passaram a fazer parte da festa; no entanto, as autoridades de Munique publicaram um decreto limitando o número de vendedores da bebida. Apenas em 1895 as grandes cervejarias começaram a se modernizar, erguendo estruturas temporárias para até 1.500 visitantes. Três anos depois, em 1898, George Lang, anfitrião do festival de Nuremberg, solicitou a montagem da primeira grande tenda de cerveja e, com o apoio de artesãos, inaugurou o Bayerische Riesenhalle (Grande Salão da Baviera). Esse marco impulsionou, em 1907, a substituição das pequenas barracas por grandes pavilhões das próprias cervejarias. Por fim, o modelo do recinto de Munique, que até hoje abriga a festa e as suas famosas tendas de cerveja, foi consolidado em 1930, quando a administração municipal assumiu a organização oficial do evento.
Oktoberfest Blumenau: um pedaço da Alemanha no Brasil
A primeira onda da imigração alemã no Sul do Brasil, ocorrida no século XIX, foi incentivada pelo governo brasileiro com o objetivo de povoar o território. Posteriormente, houve um segundo grande fluxo migratório, impulsionado sobretudo pelas Guerras Mundiais. Na ocasião, refugiados buscavam melhores condições de vida no país. Os imigrantes se fixaram majoritariamente nos estados sulistas, onde fundaram colônias que se expandiram progressivamente, sendo a cidade de Blumenau um dos principais exemplos dessas concentrações.
A Oktoberfest de Blumenau nasceu em um cenário desafiador. Após uma grave enchente que abalou a economia local, empresários e membros da comunidade uniram forças para erguer o município. Assim, em 1984, realizaram a primeira edição do evento no Parque Vila Germânica, inspirando-se na tradicional celebração de Munique. A iniciativa foi um sucesso imediato e passou a integrar o calendário anual da cidade.
Além de movimentar o turismo, a comemoração popularizou no Brasil os trajes típicos, as danças, a culinária e os costumes germânicos. Entre as tradições incorporadas da matriz alemã, destaca-se o brado “O’zapft is!” (“O barril está furado!”), ritual no qual o prefeito realiza a sangria do primeiro barril de cerveja com o menor número de golpes possível.
Diferentemente do evento em Munique, cada edição catarinense conta com um concurso para eleger a realeza da festa: a rainha, a 1ª e a 2ª princesa. A seleção avalia quesitos como beleza, simpatia, postura, desenvoltura e comunicação. No encerramento da programação, a nova corte é coroada no palco principal, marcando o início de um novo ciclo.
Entre 1984 e 1996, a festividade teve como símbolo o Vovô Chopão, personagem ilustrado que estampou 11 cartazes oficiais e estampou diversos produtos infantis comercializados pelo país. Nas edições mais recentes, a tradição foi mantida e ampliada com a presença dos mascotes vivos do Vovô e da Vovó Chopão no parque.
Vestimentas e gastronomia: muito além da bebida
Quando se fala em Oktoberfest, é impossível não pensar na gastronomia. Entre pratos tradicionais, receitas de origem germânica e sabores marcantes, o festival se destaca pela enorme variedade de opções oferecidas ao público, a edição de Blumenau, por exemplo, conta com cerca de 150 pratos típicos. Entre os principais destaques estão o Eisbein (joelho de porco), o marreco recheado servido com purê de maçã, a Bratwurst e a Currywurst (salsichões alemães grelhados ou servidos com molho de tomate e curry, acompanhados de batatas), o Spätzle (massa artesanal servida com molhos cremosos), o Bretzel (pão em formato de nó), o Goulash (ensopado de carne) e o Rollmops (sardinha marinada e enrolada). Na cartela de sobremesas, destacam-se o Strudel de maçã, o Lebkuchenherzen (biscoito de pão de mel em formato de coração), o Dampfnudel (espécie de pão cozido no vapor) e o creme bávaro.
Além da culinária, a animação musical é ponto central da festa. A canção “Ein Prosit” é considerada o hino oficial de brinde, entoada no momento em que todos erguem os canecos de chope. Curiosamente, o clássico pop “Angels”, de Robbie Williams, foi adotado na Oktoberfest de Munique para marcar o encerramento da noite, criando um clima nostálgico de despedida. Essa tradição começou na famosa tenda Hofbräu-Festzelt e se espalhou por outros pavilhões na Alemanha e pelo mundo. Já nas edições brasileiras, como em Blumenau, o público se diverte ao som de clássicos locais como “Centopéia do Chope”, “Marreca” e “Melô do Rolo”.
Outro aspecto fundamental, mantido tanto em Munique quanto entre os descendentes no Brasil, é a valorização dos trajes típicos. As vestimentas são levadas a sério e vestidas por grande parte do público. Os homens costumam usar o Lederhosen, calça ou bermuda de couro com suspensórios, acompanhada de camisa social.
Já o traje feminino, o Dirndl, é composto por blusa, vestido com corpete ajustado e avental sobreposto. Um detalhe curioso é a simbologia da amarração do laço do avental, que indica o estado civil ou social de quem o veste:
- Atado à esquerda: indica que a pessoa está solteira / disponível;
- Atado à direita: significa que está comprometida ou casada;
- Atado no centro (frente): representa juventude ou infância;
- Atado nas costas: indica que a mulher é viúva (ou identifica as garçonetes do evento).
Oktoberfest Munique e Oktoberfest Blumenau: o que muda de país para país?
A Oktoberfest nasceu em Munique, na Alemanha, mas, ao longo dos anos, deu origem a inúmeras versões e adaptações em vários países, entre os quais se destaca o Brasil.
A Oktoberfest de Blumenau tem como principal referência a festa bávara, buscando preservar e valorizar as tradições e os costumes germânicos. Entretanto, ao ser celebrada em um país com traços e culturas distintas, a festividade também absorveu elementos da identidade brasileira.
As principais diferenças entre as Oktoberfests do Brasil e da Alemanha envolvem a dinâmica do espaço, o consumo e a programação. Em Munique, o festival conta com pavilhões amplos onde a dança faz parte da experiência, havendo inclusive coreografias tradicionais. No Brasil, o salão é majoritariamente preenchido por mesas e bancos, voltados para o foco gastronômico e boêmio. Além disso, a edição brasileira é marcada por grandes desfiles de rua e pela variedade de marcas de cerveja comercializadas por diferentes fornecedores locais.
Isso contrasta fortemente com a Alemanha, onde a venda de chope é restrita a apenas seis cervejarias tradicionais autorizadas, servidas exclusivamente em canecas de um litro. Aliás, nas tendas alemãs, a cerveja só é servida pelo garçom se o cliente estiver devidamente sentado à mesa.
Outra distinção importante é o período de duração: enquanto a Oktoberfest de Munique costuma durar cerca de duas semanas, a de Blumenau estende-se por quase três semanas.
Por fim, vale ressaltar que o “jeitinho brasileiro” transformou essa celebração tipicamente tradicionalista em uma festa popular, calorosa e profundamente familiar. Ainda assim, a matriz de Munique permanece inigualável por sua grandiosidade histórica e pelo rigor na preservação de seu legado cultural.
Do Sul para o Brasil: as diferentes versões da Oktoberfest no país
Embora o festival em Blumenau seja o mais famoso e expressivo do país, a celebração da cultura germânica estende-se por diversas outras cidades e estados brasileiros, concentrando-se principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Entre os municípios que realizam a sua própria Oktoberfest, destacam-se: São Paulo (SP); Curitiba (PR); Blumenau e Itapiranga (SC); e, no Rio Grande do Sul, cidades como Santa Cruz do Sul, Igrejinha, Santo Cristo, Santa Rosa, São Lourenço do Sul, Cerro Largo e Gramado.
Cada versão da festa, embora compartilhe matrizes culturais semelhantes, diferencia-se em aspectos como porte, programação, atrações e nível de engajamento da comunidade local. Essa pluralidade evidencia como as tradições alemãs foram assimiladas pela cultura nacional, ganhando contornos e particularidades em cada região do país.
Turismo e impacto econômico: os efeitos da Oktoberfest no Brasil
Além de atuar como um valioso instrumento de preservação da memória germânica, a Oktoberfest desempenha um papel estratégico na promoção do turismo e no desenvolvimento socioeconômico dos municípios que sediam o evento.
A edição de Blumenau, reconhecida como a maior das Américas e a segunda maior do mundo, atrai visitantes de todas as partes do Brasil e do exterior, superando a marca de meio milhão de pessoas por edição. Essa expressiva circulação de público injeta recursos diretamente na economia regional. Segundo dados divulgados pelo jornal Gazeta de Pinheiros, o festival chega a movimentar cerca de R$450 milhões na economia catarinense.
Outro pilar fundamental é a geração de renda e empregos: a montagem e a execução da festa criam aproximadamente 6 mil postos de trabalho temporários. Dessa forma, a Oktoberfest ultrapassa o caráter de mera celebração folclórica e consolida-se como uma força motriz econômica e turística, projetando a imagem de Blumenau e incentivando o turismo na região ao longo de todo o ano.
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O artigo acima foi editado por Julia Galoro.
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