Conciliar a rotina intensa de estágio, faculdade e ainda conseguir guardar dinheiro parece quase impossível, mas não precisa ser. A juventude é um momento de descobertas, inclusive, o aprendizado sobre como lidar com o próprio dinheiro.
A educação financeira, apesar de essencial, ainda é um tema pouco explorado entre jovens universitários brasileiros. Segundo uma pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban, 2023), 7 em cada 10 jovens entre 18 e 24 anos afirmam não saber como administrar suas finanças de forma eficiente.
A boa notícia é que, com pequenas mudanças de hábito e um pouco de planejamento, é possível começar a construir uma relação mais saudável com o dinheiro, mesmo recebendo uma bolsa-estágio que, muitas vezes, mal cobre os gastos do mês. Entender onde o dinheiro está indo, planejar o que realmente é prioridade e criar uma reserva, ainda que pequena, são passos fundamentais para conquistar independência e segurança no futuro.
COMEÇAR COM POUCO É O SUFICIENTE
Muitos jovens acreditam que só vale a pena guardar dinheiro quando sobra. Mas o segredo, segundo especialistas, é inverter essa lógica: guardar primeiro e gastar o que resta é o que diferencia quem vive sempre no limite de quem consegue se planejar.
Para a estudante de jornalismo Luísa Andrade, de 21 anos, a virada de chave aconteceu quando percebeu que precisava começar de algum lugar:
“Quando comecei a estagiar, eu ganhava pouco e achava que não fazia sentido tentar economizar. Até que um dia percebi que, se eu esperasse sobrar dinheiro, nunca ia guardar nada”, ela conta. “Hoje, separo 10% do que ganho assim que recebo. Às vezes, é pouco, mas ver o valor crescendo me motiva.”
A experiência de Luísa reflete um cenário comum entre universitários que estão no início da vida profissional. Segundo levantamento do Instituto Locomotiva (2024), 62% dos jovens que trabalham afirmam sentir ansiedade ao pensar em dinheiro. Essa preocupação constante não está apenas ligada à renda, mas também à sensação de instabilidade.
“O estágio é visto como temporário, então, muita gente tem medo de planejar o futuro porque acha que tudo pode mudar a qualquer momento”, explica o economista e professor da USP Rafael Lopes. “Mas justamente por ser um período de aprendizado, é o momento ideal para criar bases e aprender a se planejar.”
Para o professor, a fase do estágio deve ser entendida como um laboratório financeiro: “É quando o jovem tem a chance de errar pequeno e aprender com isso, sem comprometer tanto o orçamento. A responsabilidade financeira começa nas escolhas do dia a dia: se organizar com transporte, alimentação e lazer já é um treino para o futuro profissional”.
Rafael também destaca a importância de buscar informação: “Não é preciso ser um expert em economia para entender o básico de finanças pessoais. Hoje, há muito conteúdo acessível, gratuito, que pode ajudar a montar um orçamento, criar metas e até começar a investir. O conhecimento é o melhor antídoto contra a ansiedade financeira”, completa.
Luísa usa o aplicativo Mobills para registrar gastos diários e manter o controle de onde o dinheiro está indo. Ela também aprendeu a evitar compras por impulso. “Antes, eu entrava em qualquer farmácia e saía com alguma coisa que não precisava. Agora, sempre me pergunto: ‘Eu realmente preciso disso agora?’ Essa simples pergunta mudou meu consumo.”
De acordo com o relatório “Raio X do Investidor Brasileiro” da ANBIMA (2024), 48% dos jovens que começaram a guardar dinheiro afirmam que o principal motivo foi justamente o desejo de adquirir hábitos financeiros mais saudáveis. Ou seja, a mudança começa com o comportamento e não com o valor.
A REALIDADE DE QUEM PRECISA EQUILIBRAR TUDO
Organizar as finanças sendo estagiário envolve desafios específicos: renda limitada, transporte, alimentação fora de casa e, muitas vezes, o desejo de aproveitar a vida universitária. Saber equilibrar tudo isso é um exercício de maturidade.
O estudante de engenharia Pedro Moretti, de 20 anos, admite que aprender a administrar o próprio dinheiro foi um processo de tentativa e erro.
“No começo do estágio, eu gastava tudo em duas semanas. Era lanche, iFood, gasolina… Quando chegava o fim do mês, não tinha mais nada”, relembra, rindo. “Foi só depois de ficar no vermelho algumas vezes que eu comecei a me organizar de verdade.”
Pedro conta que passou a anotar todos os gastos no bloco de notas do celular e estipulou um teto semanal para cada categoria. “Coloquei metas realistas, como: ‘R$ 100,00 para comer fora na semana’. Se eu passasse, teria que compensar na próxima. Isso me ajudou a ter noção de quanto eu realmente gastava.”
Outro ponto que muitos jovens ignoram é o poder dos pequenos objetivos financeiros. Estabelecer metas de curto prazo, como juntar dinheiro para um show, uma viagem ou um curso, ajuda a tornar o processo mais leve e motivador.
“Quando a gente associa o ato de economizar a algo prazeroso, fica muito mais fácil manter o foco”, comenta Pedro. “Eu comecei guardando para trocar de celular, depois percebi que podia aplicar essa lógica para qualquer coisa na vida”. Essa relação emocional com o dinheiro faz com que o planejamento deixe de ser uma obrigação e se torne um instrumento de realização pessoal.
Hoje, ele consegue reservar cerca de R$ 150,00 por mês para uma poupança, além de investir pequenas quantias em fundos de renda fixa. “Descobri que o importante não é quanto você guarda, mas a constância. Começar com pouco é muito melhor do que não começar nunca.”
EDUCAÇÃO FINANCEIRA É LIBERDADE
Segundo dados do Instituto Data Popular (2022), 56% dos jovens brasileiros têm como principal sonho conquistar a independência financeira. Entretanto, 68% afirmam não ter aprendido nada sobre finanças pessoais na escola. Essa lacuna na educação formal reforça a importância de buscar informação por conta própria.
A educadora financeira Nathália Arcuri, fundadora do canal Me Poupe!, defende que a organização financeira é uma forma de liberdade. “Saber para onde vai o seu dinheiro é o primeiro passo para não depender emocionalmente ou financeiramente de ninguém”, disse em entrevista à revista Exame.
No caso dos estagiários, o desafio é justamente equilibrar o presente e o futuro. Criar uma reserva de emergência, ainda que simbólica, significa estar preparado para imprevistos — e isso traz uma sensação real de autonomia. Além disso, entender sobre investimentos, mesmo que em pequenas quantias, pode ser o início de uma trajetória sólida de crescimento financeiro.
DICAS PRÁTICAS PARA QUEM QUER COMEÇAR HOJE
A organização financeira não precisa ser um bicho de sete cabeças. Algumas estratégias simples podem fazer a diferença:
- Registre tudo o que gasta: Pode ser em um aplicativo, planilha ou até caderno. O importante é ter clareza.
- Separe uma porcentagem para guardar: Mesmo que sejam R$ 20,00 por mês, a constância cria o hábito.
- Evite compras por impulso: Espere 24 horas antes de fazer qualquer compra que não seja essencial.
- Aprenda sobre investimentos: Existem opções seguras e acessíveis, como Tesouro Direto e CDBs.
- Crie metas realistas: Guardar dinheiro sem propósito é difícil. Defina objetivos, como uma viagem, um curso ou uma reserva emergencial.
MAIS DO QUE DINHEIRO, É SOBRE AUTOCUIDADO
Guardar dinheiro não é apenas uma questão financeira, mas emocional. Saber que você tem controle sobre sua própria vida traz paz e confiança.
“Aprender a lidar com o dinheiro me fez entender o que é prioridade pra mim”, conclui Luísa. “Hoje, quando compro algo, é porque realmente quero, e não para preencher um vazio”.
Pedro também reforça o aspecto psicológico: “Eu me sinto mais maduro, é como se eu estivesse construindo um alicerce para o meu futuro, mesmo que ainda pequeno”.
Organizar as finanças, portanto, é um ato de amor próprio. É escolher o planejamento em vez do improviso, a consciência em vez da impulsividade e, no fim das contas, garantir que o futuro chegue mais leve e cheio de possibilidades.
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O texto acima foi editado por Anna Goudard
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