Educação à Distância: Dá Certo?

A desigualdade durante a pandemia toma forma e se manifesta de diversas maneiras, dentre elas está um dos direitos mais básicos da população: a educação.

Desde março, a grande parte da educação presencial no Brasil se tornou à distância. Agora, os alunos enfrentam as dificuldades do acesso em todos os graus de ensino, enquanto os professores tentam encontrar uma solução para se manterem eficientes e continuar fazendo aquilo que amam: educar. Apesar de todos terem dificuldades com esse modal, a população mais pobre é a que enfrenta os maiores problemas. Lembrando que a pandemia do coronavírus também deixou mais evidente um outro fator: a disparidade no acesso à internet. Em 2018, de acordo com o IBGE, 46 milhões de brasileiros ainda não tinham acesso à internet. 

O EAD na Educação Infantil

A nova escola à distância pode ser um desafio para aqueles que trabalham com crianças. Para Débora Gallo, secretária de educação na cidade de Peruíbe, o EAD não é adequado para a educação infantil. “A brincadeira é estruturante para o hábito de pensamento das crianças, então quanto menos as crianças brincam menores são as possibilidades de interação, de organização psicológica e de fonte de conhecimento.”, explica.

Na cidade litorânea onde Débora trabalha, a rede pública municipal fez um portal que comporta uma série de atividades que os pais podem realizar com as famílias. “Com ele, percebemos que as pessoas têm baixo acesso à tecnologia”, conta. Mesmo o portal tendo sido estruturado por pedagogas, com ícones muito simples e de fácil acesso, a quantidade de interação ainda é pequena. “Quando verificamos isso, começamos a consultar os pais dos alunos que afirmaram que o pacote de dados que possuem é insuficiente para comportar o acesso ao portal.”, comenta.

Por isso, Débora acredita que são grandes os prejuízos da inserção da educação à distância quando se trata de crianças com diferentes classes sociais, pois pode promover uma lacuna ainda maior entre crianças ricas e pobres. “A educação tecnológica vai ser boa para uma criança que tem o espaço físico adequado para o estudo e uma internet que não falha.”.

Mesmo assim, Débora acredita que a educação à distância pode ter seus pontos positivos, mas deve ser voltada para os alunos mais velhos. “Do sexto ao nono ano acho que uma parcela das atividades à distância é bacana, pois colabora para o aprendizado do aluno. Mas, devem ser usadas a priori dentro da escola para que os alunos compreendam quais são os usos da tecnologia.”, opina.

A psicóloga Cinthia Costa, especializada em educação, trabalha com crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem e explica que é a partir dos nove anos que se consegue cobrar da criança a plena função da linguagem: “Para a criança é muito fácil compreender o que a gente fala, porque o aspecto neuropsicológico da linguagem já está completo”, por conta disso, crianças de educação infantil e dos anos iniciais do Fundamental I fatalmente não se beneficiam do EAD. No caso da psicóloga, os atendimentos online de crianças muito pequenas foram interrompidos durante o isolamento social.

Cinthia ainda diz que o ensino online traz prejuízos principalmente para as crianças que têm dificuldades e/ou transtornos de aprendizagem, dificuldades e transtornos do neurodesenvolvimento, ou ainda transtornos comportamentais. Ela explica que “crianças hiperativas, que tem o TDAH, com certeza acabam sendo mais prejudicadas porque elas têm muita entrada de informação. O professor não tem o domínio daquela criança quando ela está no computador, é diferente da sala de aula que ele consegue chegar perto do aluno e tocar no ombro dele, chamar a atenção dele fisicamente.”, comenta.

Mas, assim como Débora, Cinthia acredita que a educação remota pode ter pontos positivos, principalmente quando se trata da autonomia de fazer as lições de casa. Esse momento é precioso pois, para a psicóloga, é na lição de casa que o aprendizado acontece “acredito muito que essas plataformas online vão trazer pra gente um engajamento nas lições de casa, uma vez que elas podem se tornar mais tecnológicas, os alunos tendem a fazer até por uma questão de identificação”, finaliza.

Debora conclui pontuando algo essencial para a educação, principalmente de crianças: o contato, que agora praticamente não existe “acho que é na interação social que a gente se constrói humanizado, é um processo civilizatório que se promove”.

Obstáculos no Ensino

“Às vezes nós mandamos uma atividade e o aluno não tem nem uma tesoura”. Essa é uma das realidades que o Brasil enfrenta na luta pela educação durante o isolamento social, conta Roberta Gaiofatto Vercesi, professora de educação física na rede municipal de Peruíbe. Além da dificuldade de acesso à internet, muitos alunos sofrem com a falta de utensílios básicos para estudo “o espaço e a falta de material são um dos principais problemas”, comenta ela.

No momento de educação home office os professores e coordenadores estão se virando nos trinta para continuar a educar seus alunos. E as diferenças mudam em cada região. Enquanto em Peruíbe a rede municipal trabalha com WhatsApp e Blogs para o atendimento aos alunos, uma escola particular em São Bernardo do Campo trabalha com plataformas completamente diferentes.

Para Roberta, a dificuldade é ainda maior por sua matéria se tratar de algo prático: “como nós não temos contato com as crianças, às vezes recebemos mensagens que a criança não quer fazer porque está com preguiça”, diz.

A adesão às aulas também não é plena. Roberta diz que alguns professores reclamam por não conseguir entrar em contato com os alunos. No seu caso, uma turma com 25 alunos tem apenas 22 integrantes no grupo do WhatsApp, onde os estudantes recebem orientações e tiram dúvidas. Para ela “o EAD via WhatsApp acaba sendo de mais fácil acesso, o blog também acaba com os dados do WhatsApp.”.

A 130 quilômetros de Roberta, Carla Cristina Arruda vivencia outra realidade na escola particular onde é professora de redação e coordenadora pedagógica, em São Bernardo do Campo. “Os alunos seguem os horários das aulas que eles teriam no período da manhã. E aí o professor escolhe, ele pode dar uma atividade direto na plataforma, pode criar uma vídeo-aula ou uma videoconferência. Vai depender do objetivo daquela aula”, ela comenta.

O Colégio Stagio, onde Carla trabalha, já tinha se rendido à tecnologia há oito anos, quando decidiram trocar os livros didáticos pelo uso de IPads e Tablets. Mesmo assim, há uma dificuldade, principalmente na área de exatas, e um prejuízo nas atividades complementares agora com as aulas à distância: “o estudo do meio que os alunos não fizeram, as aulas de reforço e também a questão de estar junto do aluno tirando dúvidas que agora não tem mais.”

Anna Schultz-Girl Using Ipad In BedAinda que Roberta tenha alunos mais novos, a professora acha prudente o adiamento do Enem e Carla ainda enfatiza como as aulas à distância não são democráticas: “temos vários alunos no Brasil que não têm acesso à internet. Não é democrático porque na verdade a nossa internet não é democrática. O problema é anterior a isso”, comenta, “se já existe uma discrepância entre escola pública e escola privada, quem dirá em um momento como esse. Se eu falasse que não era necessário adiar o Enem eu estaria olhando só para os meus alunos, isso é um absurdo”, Carla finaliza.

O Inep voltou atrás de sua decisão de manter o Enem em novembro e o adiou após o Senado votar pelo adiamento da prova com 75 votos a favor e 1 contra, sendo esse único voto do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Ainda assim, alunos da rede pública, do EJA (Escola para Jovens Adultos) e aqueles com difícil acesso à internet sofrem com a dificuldade de aprender durante o isolamento social. 

A Preparação para o Vestibular

Diferentemente daqueles que cursam o ensino superior, as aulas para os alunos do ensino médio e do cursinho possuem o mesmo objetivo: o vestibular. Durante o período que estamos vivendo não podemos dizer que todos os estudantes têm as mesmas oportunidades. 

A estudante Karen Rodrigues é aluna da ETEC de Peruíbe e está no seu último ano do ensino médio. Ela pretende prestar o ENEM para tentar garantir uma vaga no curso de direito em uma universidade pública. “Acho que estou sendo muito prejudicada, porque não estamos tendo a mesma ajuda que em uma aula presencial e estamos estudando meio que por conta própria”, relata. 

A jovem conta que muitos professores não se preocupam em explicar o conteúdo e estão apenas jogando atividades em grande número sem explicação. Karen também sente que está “um passo pra trás” em relação aos alunos de escola particulares ou cursinhos, pois sua escola ficou parada durante três semanas, enquanto escolas particulares já estavam utilizando o EAD.

“O EAD não está funcionando para mim”, afirma Karen. Ela explica que é muito difícil ser autodidata, com a quarentena seu irmão mais novo também fica em casa, mas seus pais continuam trabalhando, consequentemente a estudante se tornou responsável por cuidar de seu irmão mais novo e isso dificultou muito o seu foco nos estudos.

Luiza Enchioglo faz cursinho e pretende prestar o Enem, Unicamp, Unifesp, Unesp e Fuvest, alguns dos principais vestibulares do Brasil, todos para Medicina. Para ela, o EAD é uma ideia boa para não perder o ano, mas muitas pessoas não têm uma situação favorável para gerenciá-lo: “eu estou em extrema vantagem, o EAD não é uma solução democrática”, assume a vestibulanda.

Em seu cursinho a estudante conta que agora as aulas são gravadas e que o tempo foi reduzido. “Não estou sendo prejudicada, comparando a outras pessoas, mas tem uma grande diferença entre o presencial e o EAD”, afirma.

Ao ser questionada sobre a situação educacional atual do país, a jovem critica a irresponsabilidade do Ministro da Educação. “Ele está literalmente falando que o Brasil possui uma meritocracia e que quem passar [no vestibular] vai ser por qualidade, por desempenho, mas não é nada disso. Todo mundo sabe que a meritocracia no Brasil é um conto de fadas, porque enquanto tem gente que tem computador em casa, internet, um quarto sozinho pra estudar, também tem gente que divide um pequeno espaço com mais dez pessoas que também precisam assistir aula e que não tem computador, precisam assistir aula pela televisão, e não conseguem receber material. Além de que tem gente que não possui internet”, diz.

Hariane Maria de Souza é aluna do EJA e conta que muitos alunos não têm acesso à internet: "onde eu estudo quase metade mora em favelas e quase ninguém tem dinheiro para por internet em casa”, relata.

As aulas foram transferidas para um canal de TV, para que os estudantes tivessem acesso ao ensino a distância. Mesmo assim a estudante relata dificuldades. "Muitas vezes o canal sai do ar, demora muito para voltar e às vezes nem volta”. 

A estudante conta que tem muita dificuldade em absorver o conteúdo, porque os professores falam muito rápido e não existe nenhum meio para tirar dúvidas. Quando questionada sobre o vestibular ela diz: “Acho que estamos sendo um pouco prejudicados [na preparação para o Enem] porque não aprendemos muito com as aulas na TV. Acho que o Enem deveria ser adiado até tudo isso passar e voltar ao normal”.

A Universidade Presencial à Distância

Luísa Prado ingressou no curso de Audiovisual da USP no início de 2020. Ela conta que teve aproximadamente um mês de aulas presenciais antes da quarentena e vem tendo dificuldades para se adaptar ao ensino a distância: “Eu acho bem mais complicado absorver as coisas com o EAD, querendo ou não o ambiente da sala de aula faz você se concentrar mais no professor. Em casa eu estou no meio da sala e tem gente passando atrás de mim, me chamando o tempo todo e isso atrapalha muito. Eu sou interrompida então não tem como dizer que eu estou aprendendo o mesmo que em sala de aula”.

De acordo com Luísa, a USP deu a opção para cada professor adequar sua aula. Alguns deles aderiram ao EAD e optaram por ministrar a parte teórica primeiro, esperando a reposição de aulas, já que existem partes práticas e os alunos precisam de equipamentos.  “Existem matérias que estão simplesmente abandonadas ou porque o professor se recusa a dar EAD ou porque a disciplina é 100% prática”, explica.

Ela ainda relata que alguns de seus colegas têm acesso escasso à internet ou a meios escassos como computador ou celular de má qualidade: “Eu conheço veteranos do segundo ano que não tem acesso nenhum à internet, inclusive a galera do Conjunto Residencial da USP ficou completamente sem acesso por um tempo.”

Assim como Luísa, Estela Ferreira iniciou os estudos no curso de direito neste ano, na Universidade Presbiteriana Mackenzie e relata que no início os professores estavam  fazendo “lives”, passando um número exagerado de atividades, quando então a Universidade resolveu adiantar as férias de julho. “Eu já perdi duas lives de um professor porque a internet estava ruim”, conta a estudante.

Cândida Almeida é professora universitária na Faculdade Cásper Líbero e no Centro Universitário FECAP, na Grande São Paulo. A professora explica que mesmo que a maioria de seus alunos sejam financeiramente privilegiados, ainda existem dificuldades. “Eu dou aulas em duas instituições privadas e na minha disciplina houve casos de alunos que não tinham computador ou que não conseguiram participar das aulas por questões técnicas de internet. Em uma das instituições eu tive que abrir mão de  trabalhar com um software que era fundamental na disciplina”.

A professora acredita que educação a distância pode funcionar em determinados formatos e conteúdos específicos, mas ela não pode substituir as relações de desenvolvimento de uma dinâmica presencial. “Eu acredito que esse tipo de educação possa ser muito bem explorada em assuntos específicos, questões técnicas, ou seja, em aprendizados cotidianos e pequenas especializações, questões com um ponto de vista mais técnico e que não dependa tanto da interação humana, das reflexões, do debate e dos processos tão ricos nas atividades presenciais. O estudo de um bacharelado não pode ser trabalhado, substituído no ensino a distância porque pressupõe a construção de um debate coletivo, pressupõe a dinâmica, que o todo favoreça nesse processo de formação. Não é uma formação individual, ela é coletiva e se dá pelas trocas”, afirma.

Na teoria, não apenas a educação é garantida pela Constituição Federal, mas também a promoção de acesso à ela, mas na prática isso não acontece. Enquanto parte da população possui o suporte tecnológico e o espaço adequado para os estudos, a outra se depara com a falta de materiais básicos como uma tesoura.

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O artigo acima foi editado por Vivian Souza. 

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