Existe algo de profundamente íntimo no ato de comer. O cheiro de alho e cebola fritando na panela, o vapor que embaça os óculos quando vamos escorrer o macarrão, e o gesto quase automático de repetir alguma receita de vó aos domingos. Comer não é só sobrevivência, mas também é memória e afeto.
No entanto, nunca falamos tanto de comida de uma forma tão distante e pública como agora. Comida deixou de ser uma maneira genuína de troca e conexão, para se tornar objeto fotográfico das redes, deixou de ser um processo lento de alquimia e de sentidos, para se afirmar como distinção social.
Segundo uma reportagem da CNN Brasil, pesquisas recentes indicam que mais de 70% dos consumidores brasileiros afirmam consultar o Instagram antes de escolher um restaurante, e cerca de 40% dizem já ter visitado um estabelecimento exclusivamente por causa do que viram na rede social. A decisão já não passa apenas pelo paladar ou pela indicação de um amigo, mas pela estética do prato, marcação do @ do restaurante e a tag do local nos stories. A experiência agora não só pode, como é quase um dever ser compartilhada.
Assim, o prato deixa de ser visto como alimento e torna-se conteúdo. Segundo o relatório digital 2025 da We Are Social em parceria com a Meltwater, o Brasil possui mais de 140 milhões de usuários ativos em redes sociais, e o segmento de conteúdo gastronômico está entre os mais consumidos na categoria “lifestyle”, dados que quando agregados com os da CNN Brasil demonstram que a escolha deixou de ser gustativa – tornou-se imagética.
O prato, portanto, não mais circula, em primeira instância, no campo da nutrição e do afeto. Circula como imagem, como experiência compartilhável, como distinção social e demonstração pública de pertencimento. Comer deixa de ser sobre necessidade e se torna linguagem.
O prato como performance
Esses dados não indicam apenas análises estatísticas, eles são o retrato de um ambiente em que a decisão gastronômica se deslocou. Se antes a escolha acontecia de maneira intuitiva, “tenho vontade disso, tenho vontade daquilo” ou “meu amigo me indicou aquele lugar”, hoje ela nasce mediada pela imagem. Não é que a mesa tenha deixado de importar; é que a tela passou a antecedê-la.
No nosso país altamente conectado, a experiência precisa circular para existir socialmente, o prato é degustado, mas também é publicado. O restaurante é frequentado, mas também é enquadrado. Existe uma transformação silenciosa no setor gastronômico. Segundo a Abrasel, em 2023, o setor de alimentação fora do lar movimentou cerca de R$408 bilhões, reforçando a força econômica do segmento. Mas talvez mais significativo do que o volume financeiro seja o deslocamento simbólico: comer tornou-se ato público.
Esta realidade se conecta com Guy Debord e a lógica da sociedade do espetáculo, onde a representação se sobrepõe à experiência direta, e à Bourdieu com sua afirmação de que gosto é linguagem social, explicam que os fenômenos ligados à expressão organizam pertencimentos, além de sinalizar repertórios e demarcar posições. Então, quando alguém publica um menu degustação ou marca um restaurante recém-premiado, não comunica apenas o que comeu, comunica onde circula, o que pode acessar e a que universo simbólico pertence.
O prato, então, passa a operar como signo. Ele carrega textura, aroma, técnica, mas carrega também capital simbólico e cultural. Comer, em certos circuitos, tornou-se performance. E talvez a questão não seja condenar essa performance, mas compreender o que ela revela sobre a forma como organizamos desejo, distinção e pertencimento na contemporaneidade.
ESTRELA: TERRITÓRIO E CONSAGRAÇÃO
Entretanto, na sociedade do espetáculo, um signo só se torna um signo se alguém o valida de alguma maneira. É nesse ponto que entra o Guia Michelin, uma das instituições mais influentes da alta gastronomia mundial, que é responsável por avaliar em estrelas os melhores restaurantes ao redor do globo. No Brasil, sua atuação permanece 100% restrita a duas cidades: São Paulo e Rio de Janeiro.
O que ele revela, no entanto, mais uma vez, ultrapassa a culinária. Segundo o IBGE, a região sudeste concentra cerca de 53% do PIB brasileiro – e é também onde se concentra o maior mercado consumidor de luxo. A sobreposição entre concentração econômica e concentração de reconhecimento gastronômico sugere que a distinção culinária acompanha a hierarquia territorial imposta no imaginário do que caracteriza o Brasil.
A estrela Michelin não é apenas um prêmio técnico que transforma a gastronomia em signo de distinção social, ela também consagra territórios e é parte do que define quais cidades entram no mapa internacional da sofisticação. Ao fazer isso, transforma a gastronomia em, por além de artigo de luxo, geopolítica simbólica.
TERRITÓRIO, EXCLUSÃO E A LÓGICA DA DESIGUALDADE
Enquanto restaurantes disputam estrelas e menus degustação que podem passar dos R$700 reais por pessoa, o Brasil ainda enfrenta um cenário estrutural de insegurança alimentar. Segundo a Rede PENSSAN, 33 milhões de brasileiros enfrentam insegurança alimentar grave em 2022, e dados do IBGE apontam que mais da metade dos domicílios brasileiros vivenciaram algum grau de insegurança alimentar no período pós-pandemia. Esses números não pertencem ao mesmo universo que as estrelas Michelin, mas coexistem no mesmo país. É aqui que a discussão deixa de ser apenas gastronômica e se torna estrutural.
Quando a alta gastronomia é legitimada quase exclusivamente em uma região que já concentra capital econômico, reforça uma dinâmica histórica de centralização. Norte e Nordeste, por exemplo, carregam tradições culinárias profundas, técnicas ancestrais, biodiversidade única, mas não integram o circuito oficial da consagração internacional. Essa desigualdade territorial também não é neutra.
Se o acesso ao básico ainda é desigual, o acesso ao luxo gastronômico torna-se marcador ainda mais evidente de distinção. O que está em jogo não é apenas onde se come melhor, mas quem tem o direito de transformar comida em experiência estética.
COMIDA É NECESSIDADE ANTES DE SER SÍMBOLO
A cozinha é arte, é invenção, é técnica, é memória coletiva transformada em afeto. Mas algo se desloca quando o alimento, aquilo que sustenta a vida, passa a circular majoritariamente como signo de status.
Na sociedade do consumo, os objetos deixam de valer apenas por sua função e passam a valer pelo que representam. A comida, no circuito do luxo, parece atravessar esse mesmo processo: ela alimenta, mas também comunica. O contraste permanece incontornável: milhões ainda lutam pelo direito ao prato cotidiano, enquanto uma parcela transforma o ato de comer em performance de distinção.
Comida é cultura, é identidade, é território, mas, antes de tudo, é combustível para a vida, e quando sobreviver deixa de ser ponto de partida e passa a ser distinção social clara e descarada, algo precisa ser questionado.
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O artigo acima foi editado por Beatriz Tomagnini.
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