Dia 19 de agosto, é comemorado o Dia Mundial da Fotografia. E 200 anos depois de sua invenção, parece que qualquer momento pode virar uma foto. A mesa bonita de um restaurante, o céu no caminho para casa, uma festa, um encontro de amigos ou até aquele café que estava bonito demais para não ser registrado. Com um celular na mão, fotografar deixou de ser uma atividade reservada para ocasiões especiais e passou a fazer parte da rotina. Mas por que sentimos, no entanto, tanta necessidade de registrar o que estamos vivendo?
A resposta pode estar menos relacionada à tecnologia do que imaginamos. Afinal, muito antes de existirem câmeras de celular ou redes sociais, fotografar já era uma maneira de preservar momentos e pessoas importantes. Dois séculos depois do surgimento da fotografia, os equipamentos mudaram, a quantidade de registros aumentou e a forma de compartilhar se transformou completamente. Ainda assim, a relação entre fotografia e memória permanece.
O processo mudou, a memória não
Nos anos iniciais de sua invenção, fotografar constituía um processo muito diferente do que conhecemos hoje. As câmeras eram grandes, o registro levava tempo e as imagens não podiam ser produzidas em grandes quantidades. Com a fotografia analógica, cada filme tinha um número limitado de poses e era necessário esperar pela revelação para descobrir o resultado. Essa característica fazia com que fotos estivessem mais associadas a momentos considerados especiais, como casamentos, aniversários, viagens e encontros familiares ocupavam espaço nos álbuns que, muitas vezes, atravessavam gerações.
Os álbuns são como pequenas cápsulas do tempo. Eles não mostram apenas como alguém era décadas atrás, mas também preservam relações, lugares e momentos que, com o passar dos anos, poderiam desaparecer da memória. A fotografia digital transformou essa lógica. Com câmeras digitais e agora com smartphones, tirar fotos se tornou instantâneo. Não existe mais a preocupação com o fim da película fotográfica ou a necessidade de revelar cada registro.
Dos álbuns de família à galeria do celular
Apesar de toda a evolução tecnológica, ainda existe algo curioso na maneira como nos relacionamos com fotografias físicas. Uma imagem digital pode permanecer durante anos em um celular ou computador e, mesmo assim, acabar esquecida entre milhares de outras. Já uma fotografia impressa, especialmente quando está ligada a uma pessoa querida, carrega um significado diferente, por conta de tantas memórias e quando tocamos as fotos, parecem mais próximas e mais ligadas a nós.
É por isso que, mesmo com toda a praticidade das telas, fotografias impressas continuam sendo guardadas. Elas podem ocupar pouco espaço, mas carregam uma história que vai muito além do papel. Contudo, ao mesmo tempo, nossas galerias digitais se tornaram um álbum de família moderno. A diferença é que, em vez de algumas dezenas de fotografias cuidadosamente escolhidas, agora podemos ter milhares de registros esperando para serem revisitados.
Quando uma fotografia é mais do que uma fotografia
Talvez seja justamente quando alguém já não está mais presente que entendemos o verdadeiro valor de uma fotografia. Dois meses atrás, em um acidente eu perdi um grande amigo, Lucas Veiga, de 19 anos. E, em meio a saudade, percebi que algumas das únicas coisas que fazem com que me sinta perto dele de novo são os nossos registros juntos. Fotos de momentos que, na época, pareciam só mais um dia comum; hoje, elas carregam um significado completamente diferente.
É curioso, de certo modo, pensar que uma fotografia possui a capacidade de provocar tal sensação . Ela não traz uma pessoa de volta, mas pode nos aproximar de uma lembrança de todos os momentos que vivemos ao lado de alguém. A fotografia nos eterniza de alguma maneira. Preserva rostos, lugares, abraços, risadas e momentos que o tempo inevitavelmente leva. Talvez seja por isso que fotografias de pessoas que já se foram tenham um valor tão difícil de explicar. Elas não são apenas registros de quem aquela pessoa foi, mas também pequenos pedaços da relação que tivemos com ela.
Fotografar para não esquecer
Com a chegada das redes sociais, as imagens ganharam novos significados. Na sociedade contemporânea, uma imagem pode ser uma lembrança particular, uma forma de compartilhar uma experiência ou até mesmo uma maneira de construir a nossa própria narrativa. Escolhemos o que fotografar, o que publicar e o que guardar apenas para nós. Mas, independentemente de onde aquela imagem vai parar, existe algo que permanece: o desejo de conservar um instante.
Devido a esse motivo, algumas fotografias aparentemente banais se tornam tão importantes com o passar do tempo. Uma imagem que hoje parece ordinária pode, daqui a alguns anos, ser a única coisa capaz de nos transportar para determinada fase da vida. Nossos avós guardavam álbuns. Nós guardamos milhares de imagens no celular. Com a mudança do aparato tecnológico, veio também novas maneiras de fotografar, porém, a necessidade de preservar aquilo que amamos permanece. Após 200 anos, o propósito referente ao ato de fazer uma foto permanece fundamentalmente humano: Algumas pessoas, lugares e momentos carregam uma importância para deixarmos que o tempo seja a única coisa responsável por guardá-los.
O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.
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