No dia 7 de abril, comemora-se nacionalmente o Dia do Jornalista. A data, instituída pela Associação Brasileira de Imprensa homenageia os profissionais da mídia desde 1931.
A Comemoração surgiu como forma de legitimar a atuação desses profissionais e assegurar os direitos dos jornalistas do país.
No entanto, ainda hoje, a profissão é desvalorizada, envolvendo percalços internos que descredibilizam os profissionais da área, colocando a classe num grande dilema entre a validação de sua formação e o exercício da ética.
A não regulamentação da profissão
Durante toda a história da nação, o ofício jornalístico foi constantemente desvalorizado. Porém, ao longo das gestões mais recentes do país, esse cenário ganhou novos contornos com diversas controvérsias envolvendo o exercício da profissão, o que gerou desconforto entre jornalistas e a população.
Em junho de 2009, um marco importante mudou os rumos do jornalismo nacional: o Tribunal Superior do Trabalho decidiu pela não obrigatoriedade do diploma de ensino superior para atuar como jornalista. O debate em torno da situação se dava a partir da justificativa de que a obrigatoriedade do documento restringia a liberdade de expressão assegurada pela Constituição Federal de 1988.
Após o evento, as tentativas alçadas pela classe jornalística de derrubar a exigência perduraram por, pelo menos, uma década. Quase 16 anos após a decisão do STF,o jornalismo se reinventou com o surgimento de novos canais de mediação que possibilitam a disseminação de informações de todo cunho de forma acessível e espontânea. Essa nova realidade amplia o alcance da informação, mas também prejudica o mercado de trabalho e a ética profissional.
Dessa forma, a ética jornalística é colocada em crise no mundo contemporâneo: com ascensão da mídia livre, surgem cada vez mais jornalistas não profissionalizados e, com isso, a maior e mais rápida disseminação de notícias falsas, não apuradas, sensacionalistas e que não se enquadram nos fundamentos da profissão. Isso afeta o cotidiano de profissionais qualificados, confunde o público e coloca em risco a transmissão de notícias com caráter de interesse público, pois, ainda que sejam essenciais para a população, a emissão falha faz cair por terra o senso crítico social.
Mas, nesse cenário, quais aspectos devem nos chamar atenção para quem e o que realmente deve ser levado em consideração? O que diferencia um jornalista profissional das falácias contemporâneas?
Compromisso com a verdade x Conveniência
Em meio a tantas vozes, pode ser difícil identificar quem realmente é jornalista. O diferencial, porém, não está apenas no diploma, mas no compromisso com a apuração e responsabilidade daquilo que é publicado.
Em Julho de 2023, o debate acerca da diplomação e credibilidade jornalística foi uma das pautas trazidas durante o 5º Fórum de Jornalismo Especializado, Regional e Comunitário, contando com a participação de Sérgio Gomes, jornalista e ex-professor da Universidade de São Paulo, a USP. Gomes afirma que a cobertura da imprensa decaiu nos últimos anos, visto que o ponto priorizado tem sido a opinião em detrimento da reportagem. Segundo ele, esse “jornalismo preguiçoso” compromete a qualidade da informação.
Outro fator agravante é o negacionismo, que, segundo Gomes, alimenta o descrédito em instituições democráticas, na ciência e no próprio jornalismo. Para ele, recuperar a confiança do público exige reportagens melhor apuradas e com relevância social.
“Recuperar a credibilidade é um desafio de todos nós e para isso precisamos melhorar a cobertura das notícias e apurar fatos que sejam relevantes e pertinentes para a sociedade”.
Sérgio Gomes, jornalista
A jornalista Marta Gleich, diretora executiva da RBS, avalia que em um cenário mundial de radicalizações e polarizações, a imprensa pode ter sofrido como um todo com a desinformação e pulverização de fontes de notícias, mas os veículos que praticam o jornalismo profissional só têm a ganhar pontos em credibilidade.
“Esses veículos, que seguem o método jornalístico, buscam a verdade, que apuram, checam, verificam, utilizam fontes confiáveis, esclarecem desinformações […] são os portos seguros de usuários na busca de informações confiáveis. É preciso reforçar com transparência, os critérios de cada veículo, para diferenciar fontes de desinformação das fontes confiáveis. E isso é parte do nosso trabalho”
Sendo assim, o jornalista confiável é reconhecível pelo compromisso com a ética e com os princípios que regem a profissão. O Artigo 2º do Código de Ética dos Jornalistas reforça essa responsabilidade: garantir o acesso à informação e à verdade. Já o Artigo 6º destaca que o profissional deve se opor ao autoritarismo, lutar pela liberdade de expressão, combater a corrupção e respeitar a privacidade e a dignidade das pessoas. São pilares que diferenciam o jornalismo de verdade em meio ao caos informativo atual.
Liberdade de expressão e o exercício jornalístico
De volta a 2009, quando a exigência do diploma foi derrubada, um dos principais argumentos usados foi o da liberdade de expressão. A ideia era de que a regulamentação do jornalismo poderia limitar esse direito — um ponto controverso, muitas vezes alimentado por profissionais sensacionalistas ou por veículos que confundem ética com censura.
O próprio Artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas, citado anteriormente, pode ter sido mal interpretado nesse debate. Ele prevê o respeito à intimidade, à privacidade e à integridade das fontes — o que, para alguns, pode soar como um obstáculo à livre expressão.
Mas o Artigo 7º esclarece: o jornalista jamais deve impedir o debate de ideias ou a manifestação de opiniões divergentes. Ao mesmo tempo, deve manter o compromisso com a apuração e com a informação precisa. Ou seja, liberdade de expressão e ética jornalística caminham juntas — e não são opostas, como se tentou argumentar para justificar a não regulamentação da profissão.
A responsabilidade do jornalismo
A confiança prostrada em jornalistas não diplomados assina, diariamente, o compromisso velado com as falácias por parte de toda a população, trazendo consequências ao interesse público e ao interesse do público.
Portanto, mais do que uma data comemorativa, o Dia do Jornalista deve ser um convite à reflexão e à retomada do senso crítico. A busca pela credibilidade, por pautas apuradas e pelo compromisso com a verdade é a única forma de compactuar com o exercício jornalístico factual inserido no contemporâneo.
Afinal, se o jornalismo precisa se reinventar para informar, o público também precisa estar disposto a reconhecer — e valorizar — quem realmente cumpre esse papel.
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O artigo acima foi editado por Gabriela Belchior.
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