Há exatos 128 anos, o cineasta italiano Afonso Segreto realizava algo que viraria um marco na história da nossa cultura. Em 19 de junho de 1898, durante uma viagem para o Rio de Janeiro, Segreto filmou, com sua câmera Lumière, cenas da Baía de Guanabara. Tais registros, nomeados como “Uma Vista da Baía de Guanabara”, são considerados parte da primeira fita de cinema produzida em território nacional.
Em homenagem ao cineasta, o dia 19 de junho se tornou o Dia do Cinema Brasileiro. Mais do que relembrar o marco histórico, a data convida a sociedade a refletir sobre a trajetória do audiovisual nacional, desde os desafios históricos até as conquistas recentes. Diante do forte reconhecimento internacional e do reencontro do público local com as salas de cinema, pode-se dizer que o cinema nacional vive um de seus momentos mais promissores.
O Brasil só valoriza seu cinema quando ele vence lá fora?
Nos últimos anos, o cinema brasileiro conquistou os holofotes do mundo em grandes circuitos de premiação. O longa Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, recebeu o prêmio de melhor filme internacional no Oscar 2025, estreando a vitória do Brasil no festival. Além dessa premiação, Fernanda Torres recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz por sua atuação como protagonista no longa.
O filme, inspirado na obra literária de Marcelo Rubens Paiva, retrata a história real de Eunice Paiva em sua busca por seu marido desaparecido no período da ditadura brasileira. A produção, foi um fenômeno global de crítica e de público, emocionou plateias internacionais, colocou o Brasil de volta à conversa das grandes premiações mundiais e consagrou a atuação de Fernanda Torres.
Já no Oscar 2026, o Brasil teve O Agente Secreto concorrendo a quatro categorias de premiação. O longa narra a vida de Marcelo, um professor universitário interpretado por Wagner Moura, que foge de São Paulo para o Recife com seu filho durante a ditadura militar.
Sendo exibido e ovacionado nos festivais internacionais de prestígio, como o Festival de Cannes, o filme se consolidou como a produção brasileira mais premiada na história do cinema nacional. No festival francês, a estatueta veio nas seguintes categorias: “Melhor Direção” e “Melhor Ator”, conquistados por Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, respectivamente.
Dados publicados pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE) mostraram um grande crescimento no número de espectadores que prestigiaram os filmes após as premiações. O sucesso dessas produções impulsionou uma onda de orgulho nacional, resultando em salas lotadas e um crescimento expressivo no número de espectadores que prestigiaram as obras.
Com a vitória de Fernanda Torres, por Ainda Estou Aqui, foi registrado um aumento de 57% e 122% de público nas duas semanas seguintes à premiação. Em relação a O Agente Secreto, sua dupla premiação no festival de Cannes, antes mesmo de sua estreia nas salas de cinema no Brasil, fez com que o filme entrasse na lista dos 10 títulos mais procurados pelos brasileiros em 2025.
Os dados acima apenas ressaltam a ideia de que o povo brasileiro ainda necessita de uma certa aprovação internacional para entender o seu real valor. Apesar de os holofotes internacionais terem impulsionado o prestígio do público brasileiro em relação às produções do país, é necessário compreender que a identidade do cinema nacional vai muito além do Oscar ou de qualquer tapete vermelho.
Streamings: avanço ou retrocesso?
Com o passar dos anos, plataformas de streamings como Netflix, Prime Vídeo e MAX têm atraído um público cada vez maior para o catálogo nacional. Essa dinâmica contribui para uma maior visibilidade dessas obras, já que muitas delas deixam de ser restritas apenas às salas de cinema.
Além de alcançar públicos diversificados, a expansão dessas plataformas permitiu a democratização do acesso a filmes de diferentes nacionalidades. Com os streamings, obras brasileiras são distribuídas globalmente, permitindo que pessoas do mundo todo consumam e prestigiem nosso cinema legendado ou dublado em seus idiomas locais.
Apesar desse alcance inegável, o modelo das plataformas pode apresentar certas falhas, levantando debates entre estudantes e profissionais da área: “Alguns deles possuem uma cota de filme por país”, contou Marina Sartoreli, estudante de audiovisual da FAP-Unespar, em entrevista para a Her Campus.
Marina explicou que, em razão dessa cota, algumas empresas priorizam apenas a quantidade de filmes de determinada nacionalidade, sem garantir uma variedade de narrativas. Com isso, a estudante relata ter tido a sensação de estar assistindo a um filme com o roteiro muito semelhante a outro que havia visto, só que de países diferentes. Essa homogeneização dos roteiros acaba criando fórmulas repetitivas que limitam o potencial criativo do mercado.
Investir em cultura ainda é necessário
Desde a Era Vargas, a formulação de políticas públicas voltadas ao cinema brasileiro já era discutida, com o intuito de estruturar e fortalecer a indústria audiovisual do país, que na época competia diretamente com as estrangeiras. Com o decorrer dos anos, o assunto ainda continuava em pauta, até que, em 2001, foi criada a Medida Provisória nº 2.228-1/01, que instituiu a ANCINE (Agência Nacional do Cinema) , decretando assim o estabelecimento da Cota de Tela, criada para garantir espaço para as produções locais nas salas de exibição.
“Acredito que se a cultura, hoje, fosse respeitada e valorizada, as coisas seriam menos desafiadoras. Seria liberado mais dinheiro para cultura, e as pessoas veriam a arte de outra forma”
Marina Sartoreli
Em 2026, a Cota de Tela foi aperfeiçoada com novas regras. A medida busca blindar o mercado interno e assegurar a competitividade do cinema nacional por meio de um número mínimo de dias e sessões obrigatórias. Entre as principais atualizações estão os incentivos para sessões em horários de maior fluxo (exibições após as 17h), e mecanismos que estimulam a permanência de produções entre as suas segunda e quinta semanas de exibição.
Mesmo com a criação de políticas que tentam contribuir para a ascensão do mercado audiovisual do país, é importante lembrar que alguns obstáculos ainda se fazem presentes. Marina Sartoreli compartilhou sua visão sobre os desafios cotidianos de quem estuda e produz arte: “Acredito que o principal desafio seja o preconceito envolto em relação às artes e com isso a falta de investimento. Fazer filme é algo que demanda muito dinheiro, e são as leis de incentivo que fazem essa cultura girar”.
Um novo capítulo dessa história
Após dois anos de sucesso, repletos de indicações e premiações internacionais, o questionamento que fica é se o nosso cinema continuará assim. Será isso apenas uma fase do audiovisual brasileiro? Ao longo de toda a sua história, o cinema brasileiro passou por muitos desafios. Por isso, o atual patamar em que ele se encontra não foi conquistado de forma repentina, mas é o resultado de anos de luta e trabalhos realizados por cineastas, artistas e todos os que participam desse mercado.
O prestígio internacional nos festivais pode abrir portas, atrair novos públicos e ampliar o interesse por produções nacionais, mas a valorização do cinema brasileiro não deve depender apenas de momentos de destaque no exterior. A sustentabilidade do nosso mercado não pode flutuar dependendo apenas do aval externo.
“O Brasil está se consolidando cada vez mais como um cinema de grande importância. Essa nova fase do cinema brasileiro é um momento para que a indústria se mantenha cada vez mais forte, porém não precisamos estar sempre no topo para enxergarmos o nosso real valor.” conclui Marina Sartoreli. O país tem grande potencial para continuar entregando belíssimas produções, mas o principal desafio agora é converter a visibilidade recente em uma política de valorização contínua.
Por onde começar no cinema brasileiro?
Para quem deseja entender mais sobre as produções audiovisuais nacionais, alguns filmes são considerados essenciais. Por isso, Marina, como uma boa estudante e amante de filmes brasileiros, recomendou alguns dos seus favoritos:
- Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)
Um dos clássicos do cinema brasileiro, o filme foi dirigido por Glauber Rocha e filmado em locais reais do sertão nordestino. O enredo gira em torno do vaqueiro Manuel que, após entrar em conflito com um coronel, tenta fugir pelo sertão, ao lado de sua esposa, Rosa. Miséria, desigualdade social, violência, e a relação entre poder e opressão são apenas alguns dos temas retratados na obra.
- Central do Brasil (1998)
Outro clássico do cinema nacional, o filme foi dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Montenegro. Sua protagonista é Dora, uma professora aposentada que escreve cartas para analfabetos em uma estação de trem no Rio de Janeiro e decide ajudar o menino Josué a encontrar seu pai. O filme aborda temas sociais como a violência, a migração, o analfabetismo e a desigualdade.
- Aldeotas (2022)
Inspirado na peça teatral de Gero Camilo, o filme narra a amizade de Levi e Elias, amigos que foram separados por 17 anos. A linguagem presente no longa é teatral, apresentando uma narrativa poética e cenários minimalistas. Temas como preconceito, descobertas e violência doméstica são tratados no decorrer do longa.
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O artigo acima foi editado por Laís Hidalgo.
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