Quem nunca foi invadido pelo pensamento de que a própria vida ou as coisas que faz não são interessantes o suficiente para serem compartilhadas nas redes sociais? Em uma sociedade cada vez mais conectada, até os momentos mais simples parecem precisar de um registro, uma legenda ou uma fotografia para virar conteúdo. Mas… quando foi que começamos a sentir que viver não era suficiente e que também precisávamos provar que estávamos vivendo?
Em 2016, os daily vlogs ganharam destaque nas plataformas digitais. Naquele período, acompanhar a rotina dos influenciadores, desde o que comiam até os lugares que frequentavam, tornou-se parte da experiência de consumir conteúdo nas redes sociais. Em 2020, com a pandemia de Covid-19, as plataformas digitais assumiram um papel ainda mais importante na comunicação e na socialização durante o isolamento. Formatos como o GRWM (Get Ready With Me, ou “arrume-se comigo”) e os storytimes, nos quais criadores narram experiências pessoais, ganharam popularidade, aproximando o público da vida cotidiana dos influenciadores e transformando experiências pessoais em entretenimento.
A transformação da vida privada em conteúdo digital
Compartilhar aspectos da vida pessoal nas redes sociais deixou de ser apenas uma forma de entretenimento e passou a integrar um modelo de negócio digital. Influenciadores de diferentes partes do mundo transformam a própria rotina em conteúdo monetizável, expondo hábitos, relacionamentos e experiências cotidianas para atrair audiência, gerar engajamento e firmar parcerias comerciais.
Na internet a intimidade também se torna um produto. A rotina, antes restrita ao espaço privado, passa a alimentar uma produção contínua de conteúdo. O cotidiano ganha potencial de publicação, e até as atividades mais banais podem se transformar em oportunidades de alcançar visibilidade.
Mas essa lógica não se limita a quem trabalha com a internet. Mesmo fora do universo profissional dos influenciadores, a exposição constante pode influenciar a maneira como percebemos nossos próprios interesses e experiências. Afinal, quando passamos a observar a vida também pelo potencial que ela tem de render uma publicação, até nossos gostos podem se tornar parte de uma apresentação de quem somos.
A nova geração é viciada em performance?
E se nem tudo aquilo de que gostamos for, de fato, sobre gostar? E se parte dos nossos interesses estiver ligada à imagem que construímos a partir deles?
Talvez a gente goste de frequentar cinemas independentes, ler livros considerados difíceis ou conhecer artistas pouco populares. Talvez esses interesses sejam genuínos. Mas existe uma pergunta incômoda: em que momento começamos a nos interessar também pela pessoa que parecemos ser quando gostamos dessas coisas?
Nas redes sociais, a identidade não é construída apenas a partir das experiências que vivemos, mas também da maneira como escolhemos apresentá-las ao mundo. Nossos gostos, hábitos e experiências se tornam fragmentos de uma narrativa sobre quem somos. Uma fotografia, uma música compartilhada ou a indicação de um livro podem comunicar muito mais do que uma preferência: podem transmitir uma imagem de personalidade, repertório e estilo de vida.
Isso não significa que nossos interesses sejam falsos ou que compartilhar gostos seja necessariamente uma tentativa de impressionar alguém. A questão é perceber quando o prazer de fazer algo começa a se misturar à satisfação de parecer alguém interessante por fazê-lo.
A busca por validação pode transformar até aquilo que gostamos em uma espécie de performance. Em vez de apenas experimentar, passamos a observar como aquela experiência contribui para a imagem que construímos de nós mesmos. E, aos poucos, a vida pode deixar de ser apenas vivida para também precisar ser demonstrada.
Se não foi postado, aconteceu?
Na tentativa de provar que temos uma vida interessante, corremos o risco de nos preocupar mais com a forma como uma experiência será percebida do que com aquilo que ela realmente nos proporciona. Um show deixa de ser apenas música e se torna também a busca pelo registro perfeito. Uma viagem passa a ser acompanhada pela preocupação com as fotografias que serão publicadas. Um encontro entre amigos ganha uma segunda finalidade: produzir imagens que transmitam a felicidade daquele momento.
O problema não está em registrar a vida, mas em permitir que a necessidade de registrá-la determine a maneira como a vivemos. Quando a preocupação em mostrar que estamos aproveitando se sobrepõe ao próprio ato de aproveitar, a experiência deixa de ser apenas nossa e passa a ser construída também para o olhar do outro.
Essa preocupação pode fazer com que estejamos presentes fisicamente, mas divididos entre o que acontece diante de nós e a maneira como aquilo será representado depois. Parte da atenção se desloca para a fotografia, o vídeo, a legenda ou a reação que a publicação poderá provocar. A experiência passa a ser vivida também em função de sua futura representação.
Enquanto tentamos provar que temos uma vida interessante, podemos deixar de prestar atenção justamente naquilo que a torna significativa. Nem todo momento precisa ser extraordinário, render uma boa fotografia ou despertar o interesse de outras pessoas para ter valor. Algumas experiências podem simplesmente existir, sem precisar ser transformadas em conteúdo.
No fim, fica a pergunta: estamos vivendo experiências que queremos recordar ou construindo lembranças que queremos exibir?
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O artigo acima foi editado por Leticia Carmo.
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