Delicadeza Sob a Luz do Olhar: Resenha de "Moonlight"

 

Foto: Portal Oviousmag

É difícil compreender Moonlight em todos os seus aspectos, mesmo com todo o esforço em praticar a alteridade. O filme é dividido em três capítulos que contam a história de Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami. No primeiro, somos apresentados à sua infância e  à dificuldade que ele tem em se encaixar no grupo, problema que persiste na adolescência. No segundo, quando começam as descobertas sobre sua sexualidade e consequentemente o preconceito. Por fim, acompanhamos ao auge da vida adulta da personagem, a relação com as gangues da região e o envolvimento com o tráfico de drogas. Mas no filme, mais importante do que colocar tudo isso em pauta, é como Barry Jenkins (diretor) o faz.

Durante todo o longa ficamos ansiosos esperando por uma grande cena, o clímax, mas enquanto esperamos tudo já está acontecendo, de forma muito sutil cada cena tem seu significado próprio, e um significado maior durante a trama, que não se trata de superação ou resolução de problemas, mas sim de vivências. Vivências estas que são muito únicas e nos mostram realidades que, por mais que saibamos que existam, não estamos em contato constante (na maioria das vezes), ou ainda sim não temos a dimensão do que é estar lá. O silêncio da criança, as gírias do adolescente, a postura do adulto são imagens desenvolvidas e amadurecidas em cada capítulo de como a personagem lida com o seu mundo intimamente.

Foto: Portal Oviousmag

Pela sua simplicidade em acompanhar, de forma poética, a vida e o crescimento de um jovem, o longa chega a se aproximar de Boyhood, indicado ao Oscar em 2014. Se a ideia de encontrar beleza na vida de uma pessoa comum já é, por si só, difícil, fazer isso quando o personagem central é uma criança negra que sofre bullying e passa por uma crise de identidade na adolescência é um grande desafio.

Moonlight conquistou o prêmio de melhor filme no Oscar 2017, após um ano em que só atores brancos foram indicados pela Academia (2016), o que em questões de representatividade, é uma conquista imensa. Mas não só por isso, o filme também é o primeiro filme indicado que trata da temática LGBT sob a visão de um negro periférico, e abordar o assunto sem recorrer à situações óbvias e melodramáticas vale muito mais do que uma estatueta.

Edição: Marcela Schiavon