Existe um momento específico em toda adaptação literária no qual o personagem deixa de pertencer apenas ao leitor. Ele ganha um rosto, um corpo e uma voz. De repente, aquilo existia apenas nas páginas e na imaginação dos fãs passa a ser representado por uma pessoa real.
Mesmo quando o autor descreve características físicas e psicológicas de seus personagens, a literatura deixa pequenos espaços para que cada leitor construa sua própria versão, adicionando detalhes que refletem seu repertório pessoal. Por isso que, antes mesmo do livro ser adaptado, os fãs já criam montagens, ilustrações e “fancasts”.
Realmente por dependerem da imaginação daquele que lê a obra, nem sempre há concordâncias quanto à aparência de um personagem. Como, por exemplo, no caso da personagem Hermione Granger da saga “Harry Potter”: alguns leitores a imaginaram parda, com dentes mais encavalados enquanto outros a viam muito bem representada pela atriz Emma Watson.
Entretanto, com o aumento de adaptações literárias nos últimos anos, discussões sobre características físicas, que antes pertenciam apenas aos fandoms locais, tomaram proporções maiores, mobilizando hashtags e movimentos de rejeição aos atores escalados para a produção dessas adaptações. O que começa como frustração e indignação, transforma-se rapidamente, devido às plataformas online, em ataques direcionados ao elenco através de discursos de ódio e racismo.
Nesse momento, o discurso “esse não é meu personagem” deixa de ser apenas uma preferência do público e passa a revelar os limites entre a liberdade de expressão e a violência nas redes sociais.
Por outro lado, existe quem não rejeite necessariamente o ator, mas a falta de fidelidade ao livro. Mudanças na aparência podem ser aceitas quando a personalidade, a trajetória e a essência do personagem permanecem. Mas, quando essas características também são alteradas, a adaptação pode ser vista como uma descaracterização da obra.
A Beleza virou requisito para o personagem
Se a aparência sempre fez parte das discussões sobre adaptações, as redes sociais deram uma nova linguagem para esse julgamento através do fenômeno do “face card”, uma expressão usada para elogiar a beleza de uma pessoa, especialmente quando alguém possui um rosto considerado tão atraente que seria impossível “perder pontos” neste quesito.
Personagens como Jacks de “Era uma vez um coração partido”, Cardan de “O Príncipe Cruel” e Aaron de “Estilhaça-me” são descritos como figuras de beleza quase irreais: cabelos marcantes, olhos incomuns e uma aparência capaz de tirar o fôlego de qualquer pessoa ao redor. Quando personagens construídos dessa maneira chegam às telas, os atores não precisam apenas reproduzir sua personalidade, mas também corresponder a um padrão de beleza fantasioso.
A discussão, assim, deixa de ser apenas sobre semelhança com a descrição física e passa a envolver padrões estéticos.
Esse tipo de discurso tomou a internet especialmente quando o elenco de “Boys of Tommen”, série de livros de Chloe Walsh que está sendo adaptada pela Prime Video, foi anunciado. Johnny Kavanagh, um dos protagonistas da obra, é descrito como um jovem de beleza marcante, alto, atlético e com características físicas que contribuem para a imagem idealizada que, graças ao sucesso dos livros, foi fortemente difundida pelos fãs. No entanto, a escolha do ator Conor Sanchez para interpretar o personagem na adaptação dividiu aqueles que já tinham uma imagem clara, alegando o fato do ator “não ser bonito o suficiente”.
Apesar de dominar a personalidade do personagem, seus gestos e ter uma ótima interpretação, o ator torna-se inadequado por não corresponder a um padrão irreal de beleza, dividindo os fãs enquanto a escolha de elenco.
Outros exemplos que ganharam destaque nas redes sociais foram as hashtags criadas pelos fãs pedindo para modificarem o elenco das adaptações dos livros das autoras Lynn Painter e Emily Henry.
Em “Melhor do que nos filmes”, a escolha do ator David Iacono para interpretar Wes Bennett, gerou discussões entre fãs que já tinham outros atores em mente para a adaptação do livro de Painter pela Netflix. Como resposta ao casting, os fãs levantaram a hashtag #NotMyWes simbolizando a rejeição de Iacono como o personagem. No post de anúncio do elenco, os comentários chegaram até a ser retirados e apagados.
Conhecido por ter interpretado Cam Cameron na série “O verão que mudou a minha vida”, David vai contra as imagens de fancast que circulam pela internet, além de não corresponder com as descrições dadas pela autora no livro. Assim, mesmo antes do filme ser lançado, a adaptação já carrega uma recepção negativa dos fãs.
Algo semelhante aconteceu com a adaptação do livro “Leitura de Verão” de Emily Henry. Enquanto Phoebe Dynevor foi extremamente bem aceita pelo público ao ser escolhida para interpretar January Andrews, protagonista do longa, seu parceiro, Patrick Schwarzenegger não teve a mesma recepção. Escalado para o papel de Augustus “Gus” Everett, Schwarzenegger foi extremamente questionado pelos fãs, principalmente por considerarem a aparência oposta à descrição de Gus no livro. A reação chegou às redes sociais por meio da hashtag #NotMyGus e de uma petição que pedia a substituição do ator.
A repercussão dessas hashtags também levantaram uma discussão que vai além da simples semelhança física. Nas redes, há leitores que defendem que o ator deveria ser avaliado pela interpretação e pela química com os demais personagens, enquanto outros consideram a aparência soberana para a adaptação de um personagem tão famoso no mundo BookTok.
Os leitores têm o direito de defender seus personagens ao vê-los interpretados de uma maneira diferente da que imaginaram, já que possuem uma relação afetiva tão profunda. No entanto, uma vez ultrapassada a linha ética de respeito com o próximo, tais discursos apenas refletem visões pautadas no ódio e preconceito.
Das críticas ao sucesso global
Nem toda rejeição ao elenco sobrevive após o primeiro episódio. Um exemplo é a série da Prime Video “Off Campus”, adaptação literária dos livros de Elle Kennedy. Antes da estreia, a escolha dos atores também foi alvo de críticas e debates, principalmente em relação a aparência e a fidelidade às descrições do livro.
Depois que a série chegou a plataforma, a recepção mudou. “Off Campus” se tornou um sucesso global, alcançando 36 milhões de espectadores nos primeiros 12 dias, segundo a “Exame.”, e foi renovada para uma segunda temporada. A produção também recebeu avaliações positivas: no Rotten Tomatoes, a primeira temporada aparece com 92% de aprovação da crítica e 89% do público.
Para o futuro…
O caso Off Campus evidencia como é difícil avaliar uma adaptação apenas pelo rosto de quem foi escolhido para interpretá-la. Um ator que, de início, não parecia corresponder aos requisitos dos fãs, depois de alguns episódios, torna-se “querido” pelo público e todas as críticas somem.
O mesmo acontece com diversas outras adaptações. A solução para esse problema parece assim, a espera, já que muitas vezes, os fãs podem se surpreender.
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O artigo acima foi editado por Mariana Aires!
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