Na última semana, após mais de um ano do julgamento que condenou Daniel Alves por estupro, o jogador teve sua pena anulada e foi absolvido pela justiça espanhola. O Ministério Público do país, que até então apelava por uma pena mais dura, promete recorrer à nova sentença. A decisão gerou revolta em todo o mundo e foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Tanto a atual decisão do júri, quanto o descontentamento das pessoas, revelam marcas da sociedade atual.
O CASO
No dia 31 de dezembro de 2022, uma espanhola, que teve sua identidade preservada, denunciou o jogador Daniel Alves por estupro. Segundo ela, o crime teria acontecido em uma boate de Barcelona durante aquela madrugada e, desde que o caso tomou as manchetes, Daniel tem alegado inocência. No começo, ele argumentou não conhecer a vítima, mas versões depois chegou a admitir ter tido relações sexuais com ela, que, supostamente, teriam sido consentidas.
O brasileiro chegou a ser preso em 2023, mas teve sua fiança paga pela família de seu amigo Neymar Júnior, e, com isso, pôde aguardar o julgamento em liberdade. Em fevereiro de 2024, o jogador foi condenado por agressão sexual e voltou para o presídio, inicialmente, ficaria mais de nove anos em detenção, mas a pena foi reduzida para quatro anos e meio.
Apesar disso, o cárcere durou pouco porque novamente ele teve sua fiança paga, dessa vez, por alguém que nunca veio à público, e pôde aguardar a decisão de suas apelações fora da prisão. Desde então, o réu tem recorrido à justiça para revisão da sentença. O recurso foi julgado na última sexta-feira, 28 de março, e os juízes decidiram pela absolvição do réu por “insuficiência de provas”.
INCONSISTÊNCIAS NO DEPOIMENTO
Apesar de a justiça espanhola ter absolvido Daniel por falta de provas, há inúmeros indícios de que o crime tenha acontecido e todos eles corroboram com a versão da vítima. Após a denunciante passar por exames periciais, foi encontrado nela material genético do réu e lesões corporais que são compatíveis com os seus relatos. Para além disso, tanto testemunhas que estavam no local, quanto as câmeras de segurança da boate e de um policial que passava pela vítima, confirmam evidências do depoimento dela.
Enquanto a denunciante manteve sua versão desde a acusação, o jogador mudou o seu relato pelo menos cinco vezes. Inicialmente, ele negou conhecer a vítima, depois, disse ter apenas encontrado com ela no banheiro da boate. Conforme as provas apareciam, ele admitiu ter tido relações sexuais com a mulher, mudando a forma como elas aconteceram. Em seu último depoimento, o réu alega que o ato sexual aconteceu por ele estar embriagado.
Apesar de todos os indícios, o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha afirma que as provas são insuficientes para a condenação do réu. Além disso, os juízes questionaram a confiabilidade do depoimento da vítima, principal evidência usada para a incriminação do jogador.
MAIS JOGADORES ACUSADOS DE ESTUPRO
Daniel Alves não foi o primeiro ídolo do mundo da bola acusado de um crime hediondo como esse. Recentemente, o jogador Robinho também estampou os jornais por ter estuprado uma mulher em 2013, na Itália. Atualmente ele cumpre pena no Brasil.
Cuca, atual técnico do Atlético Mineiro, é outro nome que enfrentou uma condenação por violência sexual. O crime teria acontecido em 1987, na Suiça, e envolve o estupro coletivo de uma menor de idade. Em 2024, o brasileiro teve seu julgamento anulado por erro processual. Para o técnico, esse deveria ser um assunto esquecido.
O caso Daniel Alves, desde a sua vasta divulgação até a absolvição, revela muito sobre a sociedade em que estamos inseridos. Ao mesmo tempo em que a remissão da pena escancara o mundo patriarcal em que ainda vivemos, também observamos avanços.
Uma vítima que não mudou de versão nem por uma vez, testemunhas que reforçam o relato da denunciante e todas as outras provas que indiscutivelmente apontam para o cometimento do crime são insuficientes quando, do outro lado, há um jogador de futebol famoso, multi vitorioso, com uma fortuna avaliada em milhões de reais e que troca de versão a cada novo depoimento que dá à justiça.
A trajetória feita por Daniel Alves até a sua absolvição, deixa claro o sistema usado por homens de todo o mundo para perpetuar a submissão feminina. Primeiro, um parceiro se compadece da dor vivida pelo réu de um crime hediondo. Depois, a justiça, que deveria proteger o elo mais vulnerável, entende que todas as provas coletadas são insuficientes para garantir que o estupro aconteceu e questiona o relato da vítima. Enquanto isso, ao longo dos depoimentos, o brasileiro se mostra incapaz de se decidir entre não conhecer a mulher, a relação ter acontecido ou se só estava bêbado.
Apesar do cenário desanimador, a situação mostra que do caso Cuca, na década de 1980, para hoje, houve progresso. Prova disso é o técnico não entender a repulsa das pessoas por sua figura, para ele, o fato tinha acontecido há tanto tempo que não deveria mais ser mencionado – como se os anos amenizassem o ocorrido ou que as pessoas não tivessem mais o direito de se indignar com um crime como esse só porque já se passaram mais de 30 anos.
Esses agressores não entendem que não é sobre tempo, sobrenome ou conta bancária. A questão é que, por mais uma vez, uma mulher foi vítima dos desejos e poderes de um homem. Por mais uma vez, uma mulher teve seus direitos negados porque um homem simplesmente se sentiu no direito de ter seus prazeres satisfeitos a qualquer custo. A discussão nunca foi sobre eles, mas sim sobre tudo o que é negado às mulheres.
A sociedade atual, ao contrário das gerações passadas, já não tolera mais casos como o do Daniel Alves. A revolta vista, tanto nas ruas quanto nas redes sociais, desde que a denúncia foi noticiada, mostra que as pessoas deixaram de relevar comportamentos hediondos apenas por envolver alguém que ostentasse a posição de ídolo. Atualmente, por mais que os homens tendam a se proteger, as pessoas passaram a não mais se calar, aceitar ou banalizar seus atos repugnantes.
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O artigo acima foi editado por Júlia Salvi.
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