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Casper Libero | Culture

Da dor à permanência: a arte como território da visibilidade trans no Brasil

Júlia Pádua Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

“Ser uma travesti preta no Brasil e fazer música, onde é o país que mais mata pessoas trans, é difícil demais.” disse Liniker, cantora brasileira, em seu discurso durante o Grammy Latino 2025.

A fala de Liniker não surge de forma isolada, ela representa um eco de milhares de artistas que sofrem discriminação por sua identidade de gênero no Brasil. Reconhecida como uma das vozes mais relevantes da música brasileira contemporânea, a artista simboliza uma série de avanços relativos à visibilidade trans. No entanto, ao mesmo tempo, ela coloca em evidência as contradições de um país que ainda figura entre os mais violentos para essa população.

O cenário, exemplificado pela voz de Liniker, expressa como hoje a arte ultrapassa a barreira estética e passa a atuar, a partir disso, como um espaço de elaboração de vivências e histórias.

A arte, desde as primeiras civilizações, serve como objeto para expressar aquilo que a sociedade silencia, debruçando-se sobre questões que, muitas vezes, não encontraram um local no discurso social dominante. Na Grécia Antiga, por exemplo, obras como “Antígona” já utilizavam a arte para questionar autoridades e denunciar injustiças, e hoje, devido a isso, a arte desenvolveu-se como um meio de denúncia para muitas pautas sociais.

No caso da população trans, o uso como denúncia se intensifica, pois, ao mesmo tempo que expõe a violência e o preconceito, a arte deixa uma marca na história, fazendo com que as narrativas dessas pessoas não sejam esquecidas.

Ademais, é possível encontrar milhares de exemplos dessa denúncia em diversas peças, músicas e musicais nacionais, os quais trazem à luz a vivência de um grupo marginalizado, transformando, desse modo, dor em narrativa pública. Assim, entre denúncia, memória e resistência, a arte se consolida como um território fundamental para a construção da visibilidade de corpos trans no país.

A arte como denúncia

“Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni”, verso marcante da canção “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, sintetiza a violência simbólica e coletiva direcionada a indivíduos marginalizados.

Na atualidade, a música representa uma denúncia mais expressiva do que na época que foi escrita. Embora a obra já apresentasse teor crítico desde sua criação, é sobretudo na releitura recente da peça A Ópera do Malandro, dirigida por Jorge Farjalla, mantido em cartaz de janeiro à março de 2026, no Teatro Renault, em São Paulo, que a canção se consolida como uma denúncia ainda mais explícita.

A história de Geni, desde sua origem, é marcada por controvérsias e disputas de interpretação. Na adaptação cinematográfica da obra, dirigida por Ruy Guerra, a personagem foi representada por uma mulher cisgênero, o que, à luz de leituras contemporâneas, passou a ser criticada por não contemplar plenamente as camadas de marginalização associadas à figura.

Atualmente, a trajetória de Geni ultrapassa a dimensão ficcional e passa a refletir debates sociais concretos relacionados à representação e à identidade. Por isso, a releitura recente dirigida por Jorge Farjalla, que coloca uma mulher trans, interpretada por Valéria Barcellos, no centro da narrativa, simboliza um marco para a comunidade transexual. Dessa forma, a personagem deixa de ser apenas símbolo e passa a ter sua voz ressignificada por quem vivencia processos semelhantes de exclusão, reforçando o papel da arte como instrumento de denúncia e visibilidade social.

A música popular brasileira como memória

No que se refere à arte como instrumento de memória, a canção “A Balada de Gisberta”, interpretada por Maria Bethânia e composta por Pedro Abrunhosa, ressurgiu na história como um hino de memória e denúncia sobre a violência contra pessoas trans.

A música resgata a história real de Gisberta Salce Júnior, mulher trans brasileira que migrou para Portugal em busca de melhores condições de vida, mas acabou vivendo em situação de vulnerabilidade na cidade do Porto, onde enfrentava situações permeadas por preconceito e marginalização. Em 2006, foi brutalmente agredida por um grupo de adolescentes, que a violentaram ao longo de dias e, por fim, a lançaram em um poço ainda com vida, levando-a à morte.

Ao transformar sua trajetória em expressão artística, o registro impede que a história de Gisberta seja apagada, e, simultaneamente, evidencia a violência sistemática enfrentada pela comunidade . É na transformação de uma vivência particular em uma narrativa universal que a arte passa a atuar como um mecanismo de preservação da memória coletiva, capaz de gerar identificação e empatia social. Como resultado disso, ela se incorpora no imaginário partilhado e confere visibilidade a vítimas historicamente marginalizadas.

Assim, ao rememorar a vida e a morte de Gisberta, a obra não apenas homenageia sua existência, como também reafirma a urgência de reconhecimento e proteção da população trans.

A arte como resistência

Para além disso, a arte se tornou um instrumento de resistência para pessoas que nunca antes foram representadas de forma digna, como a comunidade trans. Nesse contexto, a canção “Oração”, da artista Linn da Quebrada, exemplifica como a produção artística pode se transformar em um ato político.

“Oração” é uma canção de 2019, porém, ainda permance atual no cenário da população trans brasileira. A letra busca espalhar amor de forma explícita e dispõe mostrar a força das pessoas transgênero dentro do país que mais registra mortes dessa comunidade há quase duas décadas.

“Não queimem as bruxas

Não queimem

Não queimem as bruxas mas que amem as bixas mas que amem

Clamem que amem, que amem”

Linn da Quebrada

Ao contruir a narrativa, a cantora estabelece um paralelo histórico com as perseguições do passado contra aqueles considerados diferentes e, ao dizer “que amem as bixas”, propõe uma mudança de postura baseada no respeito e no acolhimento. Assim, a música transforma uma história de violência em um pedido por aceitação, reforçando o papel da arte como meio de resistência e de luta por direitos e dignidade para a população trans.

No fim, fica evidente que a arte não apenas retrata a realidade, mas a tensiona. Ao expor a hipocrisia em “Geni e o Zepelim”, preservar a memória de Gilberta Salce Junior em “A Balada de Gisberta” e manifestar o direito ao afeto como afirmação da existência em “Oração”, as obras revelam que a violência contra a população trans não é episódica, mas uma questão estrutural.

Nesse cenário, mais do que sensibilizar, a arte expõe contradições e desloca olhares, funcionando como um espaço de disputa por reconhecimento e dignidade.

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O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.

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Júlia Pádua

Casper Libero '29

Estudante do primeiro semestre de jornalismo na Cásper Líbero.