Conheça a Trajetória da Seleção Brasileira de Futebol Feminino

“Comecei com quinze anos. Eu apanhava do meu irmão porque ele achava que só existia eu de mulher na face da terra que jogava bola, mas não. Com 16 anos fui para o Juventus e tinha mais umas trinta mulheres jogando, foi quando percebi que não era só eu”, conta Roseli de Belo, de 49 anos, uma das precursoras da seleção feminina de futebol. A atacante, que vestiu a amarelinha no ano de 88, comenta as dificuldades do início da modalidade no Brasil em uma roda de conversa sobre As Conquistas Delas, no Museu do Futebol.

Roseli começou jogando pelo time do Juventus, passou pelo Esporte Clube Radar e foi convocada para a Seleção. Ela disputou Mundiais e participou de Olimpíadas, mas o caminho que percorreu não foi simples, já que naquela época as jogadoras não tinham apoio nenhum da CBF.

A história das mulheres no futebol brasileiro é seguida por diversas dificuldades. A modalidade, que já foi proibida no país, teve sua primeira convocação para a seleção feminina apenas em 1988, enquanto a masculina existe desde 1914.

A base dessa primeira seleção era formada por grande parte das jogadoras que já atuavam no Esporte Clube Radar, time do Rio de Janeiro, considerado a primeira potência do futebol feminino no país. O primeiro campeonato disputado pelas jogadoras foi o Torneio Internacional da China, em 1988, e as brasileiras conquistaram o terceiro lugar.

Foto: Brenda Mendes.

Mesmo se tornando a principal seleção feminina do país, o ambiente ainda era de precariedade. Renê Simões, técnico que lutou por melhores condições para o futebol feminino em 2004, comenta as dificuldades que ele e suas jogadoras passaram: “Tínhamos cinco meses de preparação e um cenário em que a CBF não gostava das jogadoras e as jogadoras odiavam a CBF. O comitê olímpico não se preocupava com elas e elas não gostavam deles”.

Diante desses desafios, Renê teve que mediar a situação e ser profissional, mas com algumas pitadas de ousadia e posicionamento forte. “No primeiro treinamento descemos para usar a academia e ela estava fechava. O responsável pela chave disse para treinarmos em um equipamento no vestiário, pois a academia era apenas para a seleção principal. Eu disse que ele tinha cinco minutos para abrir ou arrombava a porta, pois ali estava a seleção principal feminina do Brasil”, lembra.

Roseli conta que a vontade de jogar se sobressaia à precariedade das situações em que viviam e se alegra ao saber sobre a exclusividade dos uniformes femininos hoje, já que na época elas pegavam emprestado dos homens.“Eu calço 36 e queriam dar 38 [de chuteira] para mim. Eles davam o uniforme do time masculino pra gente e até hoje eu tenho a camisa do Romário. A gente precisava de chuteira, usava as do masculino e depois tínhamos que devolver, era difícil”.

Cristiane Rozeira, uma das maiores atacantes e artilheiras que já passou pelo Brasil, chegou na seleção em 2001 e também passou pelas mesmas adversidades que Roseli. “Eu peguei essa fase e cheguei bem depois na seleção, com 15 anos. Peguei isso de usar chuteira de outra, com outro formato, pegar o top e colocar o nome para usar na outra convocação, o short interno a mesma coisa. As coisas passaram a mudar, parece ironia, mas começaram a mudar quando o professor [Renê] entrou. Ele ia lá e falava ‘olha não dá pra fazer isso com as meninas, imagina, vai disputar uma olimpíada, isso aqui não tem condição’”.  

Os uniformes enormes, as chuteiras emprestadas e os equipamentos nunca haviam sido pensados ou projetados para elas. Apenas em março de 2019, 31 anos após a primeira convocação feminina, foram lançados uniformes projetados exclusivamente para as jogadoras da Seleção Brasileira. Um uniforme com identidade, criado a partir de estudos e trocas de informações com jogadoras do futebol profissional e também do futebol amador.

Foto: Brenda Mendes.

Cristiane também fala sobre a mudança que vêm acontecendo na modalidade e cita o investimento de outros países no futebol feminino: “A Espanha é um grande exemplo, eles abraçaram e entenderam que você consegue ter um retorno desde que você tenha interesse. Não adianta colocar alguém muito bom do futebol masculino e ele não se interessar ou não entender a modalidade”.

Quando cita o Brasil, Cristiane critica a efemeridade do apoio midiático às jogadoras. Durante alguma Copa ou Olimpíada, o público cresce, as emissoras transmitem os jogos e a mídia dá visibilidade, mas ao final “ninguém lembra”, desabafa a jogadora.

Sobre a decisão de sediar a Copa do Mundo Feminina de 2023 que o Brasil se candidatou, Cristiane deixa clara a importância do momento, mas acredita que ainda falta muito para o Brasil levantar a bandeira do futebol feminino: “Você tem que fazer o mundo enxergar que você fez a modalidade se desenvolver dentro do seu país, que ela cresceu, para que todo mundo lá fora enxergue que realmente está acontecendo, e que não estamos apenas sediando a Copa do Mundo”.

Cristiane, Roseli e muitas outras jogadoras viveram e ainda vivem muitas dificuldades dentro do futebol feminino, em especial na Seleção Brasileira. Preconceito, infraestrutura maior para seleções consideradas “principais”, falta de apoio tanto da CBF quanto da mídia, falta de investimento e estrutura e salários muito maiores para jogadores da seleção masculina.

A luta do futebol feminino é constante. Recentemente, conquistaram a primeira transmissão em TV aberta dos jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo que acontece em junho deste ano, na França. O Mundial completo será transmitido em canais fechados. Um passo significativo para o futebol feminino dentro do Brasil. As expectativas em relação à visibilidade do torneio são grandes, valorizar o esforço de mulheres que trabalham para quebrar paradigmas dentro do esporte, estimular o investimento de patrocinadores dentro da modalidade e maior popularidade do Mundial Feminino.