Completando um mês de ataques, a guerra entre Estados Unidos e Irã já soma mais de 2.300 mortos. Até o momento nenhuma negociação de paz foi confirmada pelos dois lados. O novo líder supremo iraniano, Motjaba Khamenei, em um dos primeiros discursos após ser escolhido afirmou que continuará atacando os EUA e suas bases no Oriente Médio.
Essa decisão caminha na direção contrária do que esperava o presidente norte americano, Donald Trump, para o futuro político do país oriental. O filho do antigo aiatolá, ainda afirmou que: “vingará o sangue de seus mártires” e manterá o Estreito de Ormuz fechado. Também como resposta, o governo iraniano atacou diferentes bases americanas em países vizinhos, expandindo a guerra no Oriente Médio.
O envolvimento de outros países da região deve-se principalmente às alianças. Emirados Árabes e Iraque, por exemplo, sofreram duros ataques de Teerã devido à parceria com os Estado Unidos, enquanto no Líbano os ataques partem de Israel, e focam no grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã. Disputas e bombardeios, infelizmente, não são novidades quando o assunto envolve EUA e Oriente Médio.
Intervenções no Irã
Em 1953, o Irã elegeu democraticamente o primeiro-ministro Mohammad Mossadeq. Uma de suas ideias para o país era nacionalizar as reservas de petróleo iranianas. Somado ao crescimento do socialismo em diversos países, Estados Unidos e Reino Unido, que dependiam da commodity iraniana, ajudaram de forma indireta a derrubada do líder.
A revolta foi patrocinada pelos serviços de inteligência das duas potências e teve como resultado a volta da monarquia com o Xá Mohammad Reza Pahlavi no poder. A intervenção gerou forte ressentimento da população contra o ocidente, que mais tarde resultaria na Revolução Conservadora de 1979 e na instauração do regime teocrático dos aiatolás.
Em entrevista à BBC o professor de Política do Oriente Médio e Relações Internacionais na London School of Economics and Political Science, Fawaz Gerges, afirma “Os iranianos nunca perdoaram os Estados Unidos por derrubar um primeiro-ministro legítimo e eleito democraticamente e instalar um ditador brutal, o xá do Irã, como governante absoluto do país”. Na visão do autor libanês-americano, o intervencionismo dos EUA acontece de forma constante desde 1940, e os ataques do dia 28 de fevereiro foram outra tentativa desta política.
A longa história com o Afeganistão
Em 11 de setembro de 2001, o ataque às torres gêmeas marcaram o início de uma nova política exterior americana. Anos antes o país ocidental havia apoiado grupos jihadistas, contra o governo comunista no Afeganistão, que mais tarde viria a se tornar o Talibã. A organização radical cresceu a partir do treinamento militar americano, e instaurou em 1996 um regime fundamentalista conhecido por suas violações a direitos humanos.
Após a ação terrorista em Nova York, o governo afegão liderado pelo Talibã ofereceu asilo ao líder terrorista, e organizador dos ataques, Osama bin Laden. Como reação, o então presidente norte americano George W. Bush anunciou um plano para terminar grupos terroristas, começando pela Al-Qaeda.
Em outubro de 2001, os Estados Unidos iniciaram a invasão ao Afeganistão, que como consequência levaria a anos de uma disputa violenta. Em 2021, as tropas americanas receberam ordens do presidente Joe Biden para se retirar da região. 20 anos depois da primeira invasão, o grupo fundamentalista Talibã retomou o poder e, segundo relatório liberado pelo Conselho de segurança da Onu: “A mensagem do Talibã permanece inflexível e não mostra nenhum sinal de reduzir o nível de violência no Afeganistão”.
Iraque
Nos anos 90, o Iraque foi protagonista de uma das guerras mais marcantes do Oriente Médio: A guerra do Golfo. Após invadir e ocupar o Kuwait, sob o comando de Saddam Hussein, o país foi duramente criticado pela comunidade internacional. Como resposta os Estados Unidos, junto com Arabia Saudita e Reino Unido, se uniram em uma coalizão para expulsar o exército iraquiano do território kuwaitiano.
Com o sucesso da operação, o Iraque retirou suas tropas e aceitou restaurar a soberania do país invadido. Além disso, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução para que país invasor destruísse todo tipo de arma de destruição em massa. Porém, em 1998 o Iraque parou de cooperar com as inspeções feitas na resolução.
Após os ataques às torres gêmeas, o presidente norte americano acusou Hussein de continuar a produção de armas de destruição em massa, como armas nucleares, biológicas e químicas, além de mísseis balísticos de longo alcance. O apelo ao CSNU foi feito, mas negado por sua maioria. Mesmo assim, o país norte americano novamente se uniu a uma coalização e invadiu o Iraque em 20 de março de 2003.
Em maio daquele mesmo ano Saddam Hussein foi deposto, capturado e executado. Nenhuma arma para destruição em massa foi encontrada durante a invasão. Nos anos seguintes, a fragmentação política iniciou uma guerra civil entre grupos sunitas e xiitas. O grupo terrorista, Estado Islâmico, nasceu em meio a instabilidade do país e fragmentação da Al Qaeda. Entre 2003 e 2011, ano da saída dos EUA do Iraque, estima-se que 461 mil pessoas morreram em decorrência da invasão.
As guerras no Afeganistão e no Iraque fizeram parte do projeto denominado “Guerra ao Terror”. Segundo o Watson Institute International & Public Affairs, da Brown University, mais de 4,5 milhões de pessoas morreram em decorrência das ações norte-americanas no Oriente Médio. Ainda segundo o estudo, 3,6 milhões de pessoas foram afetadas pelas consequências dos conflitos, como fome, doenças e insegurança financeira.
O longo histórico estadunidense na região traz memórias de guerras, invasões, destruições, e mudanças profundas não só políticas mas também socioeconômicas. Segundo o professor de Relações Internacionais do Ibmec, Alexandre Pires, a região é marcada por sua importância econômica, mas também geopolítica, “é uma região que qualquer fagulha pode levar a uma explosão geopolítica, é o que está acontecendo agora.”
Pires ainda explica que a situação atual do Irã se diferencia das invasões passadas, pois a política externa e os objetivos americanos mudaram. “O que nós vimos no Iraque, nós vimos no Afeganistão, ou seja, os Estados Unidos entravam e enfraqueciam o sistema político. E aí a cola que mantinha aquelas facções e muitas vezes até etnias e religiões distintas pacificadas, acabava se desfazendo e o conflito eclodia”
O histórico estadunidense e a nova doutrina donroe
Os Estados Unidos possuem um histórico de intervenções, sejam elas militares, políticas ou econômicas. Focadas principalmente em território latino, asiático e no Oriente Médio, a presença norte-americana se deu a partir da justificativa de garantia da ordem e proteção das nações contra um inimigo comum.
“Nós estamos em um outro momento do mundo que não é mais a ideia simplesmente de diplomacia que a gente chama de dissuasão, que é ter capacidade militar para fazer com que o outro não queira agir. Hoje nós estamos no momento do compelimento, que significa se o outro não para, eu o faço parar.”, explica Alexandre.
O Corolário de Trump ou a doutrina Donroe é a tentativa estadunidense de manter uma hegemonia no hemisfério ocidental e evitar que interesses de qualquer outro país, como Rússia e China, incidam na região. Trata-se de uma reinterpretação moderna da Doutrina Monroe estabelecida em 1823, na qual as intervenções europeias na América seriam vistas como agressões aos EUA. Ambas tratam da maior incidência estadunidense no continente americano e visam evoluir para um instrumento de intervenção estadunidense na América Latina.
No dia 3 de janeiro deste ano, os Estados Unidos fizeram uma ação coordenada na Venezuela e capturaram o presidente do país e a primeira dama, Nicolás Maduro e Cilia Flores. Com a justificativa de que Maduro possuía vínculos com o narcoterrorismo, o ditador venezuelano e sua esposa estão em uma penitenciária federal no Brooklyn onde aguardam a segunda audiência do processo que começou na última quinta-feira.
Enquanto isso, na Venezuela, a vice-presidente Delcy Rodriguez assumiu o poder e está em busca de uma aproximação com Washington em um período de instabilidade e incertezas para o país.
“A intervenção é quando, de fato, um país tenta tomar o controle do outro país e isso os Estados Unidos fez com muita clareza com a captura do Maduro na Venezuela (…) por enquanto com relação ao Irã nós temos lá uma característica de conflito militar já com feições de guerra mesmo.”
Alexandre Pires
Enquanto no Irã, a ação norte-americana teve resposta e desencadeou um conflito armado e alinhamento de outros países, na Venezuela uma operação interna armada afetou a política externa. Duas invasões distintas. Na América do Sul, os Estados Unidos têm capacidade de influência imediata, possibilitando que uma frota bloqueasse qualquer tipo de resposta venezuelana. Há uma reconstrução forçada pela necessidade de alinhamento estadunidense. Já no Oriente Médio, a estrutura social é mais complexa, “é um sistema muito mais difícil de prever qual vai ser a acomodação do regime” explica o professor.
Completando um mês neste sábado (28), começa-se a debater sobre um possível acordo de paz entre as partes. Na última quarta-feira, os EUA estenderam o prazo para o acordo de paz após a proposta de 15 pontos ser rejeitada pelo Irã, por considerá-la unilateral. Um conflito marcado por ameaças, especulações, bombardeios e disputa de narrativas. A incerteza cresce e com ela, a rejeição norte-americana com a participação do país no embate, impactando na popularidade de Donald Trump no mundo e em solo estadunidense.
Disputas econômicas e o futuro da geopolítica mundial
As últimas intervenções norte-americanas impactam diretamente a China e sua vontade de conseguir sua independência tecnológica. Venezuela e Irã, são cadeias estratégicas para os chineses, uma vez que são grandes exportadores de petróleo. O impedimento ou a criação de obstáculos para o fluxo de petróleo dificultam a China de alcançar seu objetivo de domínio tecnológico e mantém os Estados Unidos como centro de inovação.
Hoje, as intervenções são marcadas principalmente pelo seu viés econômico. Seja através de tarifas, sanções, transições energéticas, os Estados Unidos e a China estão fazendo um embate indireto.
O aumento da influência de países como Rússia e China tem levado o governo de Trump a tomar decisões buscando manter seu protagonismo. Quando grandes potências optam por entrar em um conflito, sua força e efetividade militares são colocadas à prova. A Rússia desde 2022 em embate com a Ucrânia. Os Estados Unidos com sua ofensiva na Venezuela e agora em conflito com o Irã. A China, no entanto, têm evitado conflitos, ou seja, não fornece armamentos para qualquer conflito. Ela não foi testada militarmente.
Em relação a situação atual o professor afirma: “Vamos ter agora uma outra estratégia […] mais pontual, cirúrgica, de decapitação, ou seja, mantém-se o Estado, tenta-se preservar o arranjo de forças políticas, e dentro daquelas forças políticas, tenta-se encontrar uma liderança disposta, primeiro a aceitar, os interesses americanos, mas também em negociar e de alguma maneira fazer acordos. É o que aconteceu na Venezuela e agora eles estão tentando fazer uma versão, digamos ali, anabolizada para o Irã”.
Essa busca por unilateralidade no mundo, os EUA moldam e impulsionam intervenções, sejam elas armadas e diretas como na Venezuela ou econômicas e indiretas como a China. O histórico americano somado à política externa de Trump parece buscar um domínio ao extremo.
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O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.
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