Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Life

Como a sociedade trata e retrata o envelhecimento 

Giovanna Ferraz de Campos Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Ao abrir as redes sociais, é comum ser bombardeado com dicas de produtos para cuidados com a pele, técnicas de maquiagem, cremes milagrosos, styling, dietas e exercícios, procedimentos estéticos e indicações do que implementar na rotina. Tudo isso, a troco de ter uma aparência mais jovem e bonita. Vale a pena todo o esforço? Já parou para pensar no motivo de existir tanto pavor quando o assunto é envelhecer

A ideia de investir nos produtos de selfcare vai além dos cuidados com a pele ou saúde. As pessoas gastam rios de dinheiro para evitar o envelhecimento, mas esquecem que é algo inevitável, porque é parte da vida e todos passam por esse processo.

Além disso, o medo de envelhecer vem atrelado ao temor da independência, pois quanto mais velhos, maior a responsabilidade, por exemplo há uma cobrança para morar sozinho, pagar contas e resolver problemas sem uma ajuda externa. O receio com o envelhecimento também está relacionado às dificuldades em lidar com suas próprias obrigações.

O envelhecimento, além de mexer com a autoestima, transforma alguém que está passando por este momento em uma pessoa inválida e inútil para a sociedade. Uma apreensão de deixar de ser especial ou não poder se reinventar, a ansiedade de ver o tempo passar e sentir que não aproveitou o suficiente. Todos esses sentimentos ficam registrados nas rugas, na pele flácida, nos cabelos brancos e na fragilidade do corpo.

Etarismo: ser idoso é sinônimo de ser inútil?

O envelhecer, e consequentemente a velhice, são tratados de forma negativa pela sociedade, associando este período à doenças e limitações físicas e mentais. A ideia de que a velhice deve ser evitada reflete em como muitos idosos são tratados com negligência, abandono e rejeição, e como se veem, sendo comum os pensamentos negativos e baixa autoestima entre esta faixa etária. 

De acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa, da legislação brasileira, é considerado idoso aquele que tem a partir de 60 anos, uma classificação irônica, porque alguém que na casa dos 50 era visto como enérgico, atraente e produtivo de repente se torna alguém julgado como fraco, desnecessário e incapaz. 

Na construção social, a velhice está associada à solidão, principalmente para as mulheres, que podem sentir os efeitos da idade antes dos 60. A menopausa chega entre os 45 e 56 anos, neste momento os ovários deixam de produzir estrogênio e progesterona, ocasionando um turbilhão nos hormônios e até doenças como diabetes, depressão, osteoporose, entre outras. Também, trazendo à tona a perda da elasticidade da pele, cabelos brancos e mais alguns traços aparentes. 

O final do período reprodutivo é interpretado como o início da inutilidade feminina, uma vez que a mulher ainda é vista socialmente como fraca e um ser voltado apenas para a reprodução. Quando a menopausa chega, a mesma já não presta mais, oferecendo uma baixa autoestima, frustrações e sentimentos de anulação para as mulheres.

O envelhecimento no mercado de trabalho

Um dos maiores impulsionadores do etarismo, é o mercado de trabalho. Profissionais acima dos 60 anos buscam novas oportunidades, mas são barrados por empresas que acreditam que as pessoas mais velhas não são capazes de acompanhar os avanços tecnológicos e atrasam os negócios. 

Além disso, no ano de 2022 foram registrados cerca de 4 milhões de idosos trabalhando em condições informais, desde ambientes não adaptados para suas necessidades físicas à salários inadequados, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

A aposentadoria foi estabelecida há 130 anos, época em que a expectativa de vida era menor. Atualmente, as pessoas passam mais tempo aposentadas, com maior longevidade e, aproximadamente, mesma idade para a aposentadoria do período que ela foi instaurada, mantendo os idosos isolados do mercado de trabalho por mais tempo.

A substância

O filme de 2024, A Substância, que venceu a categoria Melhor Maquiagem e Penteado na premiação do Oscar de 2025, retrata a necessidade de aparentar ser mais jovem, por uma busca de um padrão de beleza ideal, validação externa, mercado de trabalho e autoestima.

A história narra a frustração de Elisabeth após ser demitida de seu emprego na televisão por ser considerada velha demais para performar a sua profissão. A protagonista fica desapontada por ter gastado anos de sua vida em uma mesma carreira, na qual é dispensada e esquecida no momento que faz 50 anos, porque seu corpo não se encaixa mais no padrão desejado pela indústria.

A vida e o corpo de Elisabeth são reduzidos a produtos de consumo, baseados no entretenimento do público e isto a faz tomar a decisão de testar uma substância misteriosa que promete transformá-la na melhor versão de si mesma:  jovem, bonita e em forma.

A obra faz uma crítica social ao padrão inalcançável e a supervalorização da juventude. Demonstra o desamparo de pessoas que constroem suas carreiras em empresas e, ao atingirem determinada idade, são demitidas por não serem mais consideradas aptas para os serviços. Relembra também, como a sociedade invalida pessoas mais velhas, reforçando preconceitos e a exclusão social.  

A ideia de envelhecer traz consigo a concepção de que, quanto mais próximos da morte mais nos perdemos no caminho, conformando-nos com a ideia de que a vida chegará ao fim em breve e não há mais nada que pode ser feito. O que foi vivido já passou e não podemos mais fazer planos futuros, pois não se sabe o dia de amanhã.

Evitar deixar que estes preconceitos nos afetem auxilia em uma maior qualidade de vida e nas novas reflexões, não se pode basear a vida nos estigmas sociais. Você só se torna o estereótipo do idoso fraco, dispensável e desinformado, quando se conforma com essa realidade e se sente dentro desses estereótipos.

————————-

O artigo acima foi editado por Juliana Santos.

Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!

Hi, I'm a Brazilian journalism student who loves writing about culture, entertainment and general topics :)