A princípio, o público não liga a TV para assistir a séries como Castle, The Mentalist ou Bones especificamente por causa do romance, mas pelos casos policiais que cada episódio apresenta. Queremos saber onde está o corpo, quem são os suspeitos e acompanhar o plot twist até o final do episódio.
Mesmo assim, é a mão que quase encosta, o olhar que demora um segundo a mais na sala de interrogatório e a piada que esconde um “eu me importo com você” que fazem o episódio ficar na cabeça dos telespectadores. O romance slow burn entre protagonistas de séries investigativas, conhecido pela trope de “partners to lovers”, é um enredo secundário que, ao longo do tempo, se tornou uma das principais promessas e marcas registradas desse gênero.
Mulder e Scully: a origem do slowburn em séries investigativas
Nos anos 1990, no fórum alt.tv.x-files, quem torcia pelo romance entre Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson) na série The X Files passou a ser chamado de “relationshipper”. A palavra foi encurtada, virou “r’shipper”, e, por fim, apenas “shipper”. Ou seja: o termo que hoje usamos para qualquer casal, de qualquer obra, nasceu de uma dupla de agentes investigando casos paranormais.
O curioso é que o criador da série, Chris Carter, resistiu por anos a esse romance. Essa resistência, somada às idas e vindas do casal, só deixou a espera mais saborosa, já que o primeiro beijo só veio na sétima temporada. A dinâmica entre parceiros entre quem acredita e quem duvida, entre o instinto e a evidência, virou modelo. Em Bones, o próprio Seeley Booth (David Boreanaz) faz referência explícita à dupla Mulder e Scully logo no primeiro episódio da série.
A estrutura que The X-Files popularizou, o chamado “monster of the week”, é a chave para entender por que o slow burn funciona tão bem aqui, já que cada episódio abre e fecha um caso. O espectador sabe o que esperar: apresentação do crime, investigação, reviravolta, resolução. Essa previsibilidade é um dos motivos de muitas dessas séries serem “comfort shows”, aquelas que a gente assiste de novo e de novo sem cansar.
Uma série que não é sobre romance (mas, no fundo, quase sempre é)
Historicamente, o romance não é colocado em primeiro plano quando se trata de séries criminais, ou ao menos parte de quem escrevia e produzia esses programas preferiu acreditar nisso. Entretanto, o formato no qual esse gênero é feito cria uma desculpa perfeita para manter os dois protagonistas juntos em cena.
Na fórmula de “caso da semana”, um incidente criminal diferente é resolvido a cada episódio e o trabalho exige que os dois personagens fiquem lado a lado em delegacias, interrogatórios, carros e necrotérios, de forma que a intimidade se constrói por tarefa cumprida, testes de confiança testada e por quem cobre as costas de quem ao longo da trama.
Em Castle, o romancista Richard Castle (Nathan Fillion) passa a acompanhar a detetive Kate Beckett (Stana Katic) para escrever uma nova série de livros inspirada no trabalho da policial. Já em Lucifer, o próprio diabo resolve crimes ao lado da detetive Chloe Decker (Lauren German) após presenciar a morte de uma amiga e sentir que deveria buscar justiça por ela. Em Wild Cards, Cole Ellis (Giacomo Gianniotti) é um detetive rebaixado que precisa se juntar a Max Mitchell (Vanessa Morgan), uma inteligente golpista que foi pega pela polícia.
É justamente por conta dessa fórmula que o público enxerga tanto desenvolvimento em séries que, primordialmente, tratam de outra coisa. Em praticamente todo episódio há uma cena entre os parceiros que faz com que o público enxergue a possibilidade deles se tornarem um casal: uma preocupação que escapa, uma troca de olhares, um ciúme mal disfarçado ou uma frase que só faz sentido entre eles.
Conexão com os personagens e o amor como consequência
O slow burn dura tanto porque os personagens precisam mudar para chegar lá. Kate Beckett, de Castle, busca a resolução do caso de assassinato da própria mãe, uma trama que corre em paralelo ao romance com Castle. Já Temperance Brennan (Emily Deschanel), de Bones, tem dificuldade para se conectar emocionalmente com os outros, enquanto Booth traz consigo um passado militar. Porém, ao longo da trama, os traumas são explorados simultaneamente ao desenvolvimento do casal. Cada um tem uma ferida e um jeito de se proteger dela, mas é o parceiro de trabalho quem aos poucos aprende a contorná-la.
Além disso, muitas vezes a atração nasce justamente do contraste, como em Lucifer, onde a dinâmica de Chloe e Lucifer (Tom Ellis) pode ser descrita como uma implicância de brincadeira que esconde afeto na mesma linhagem de Castle e Beckett, em que a protagonista feminina é uma agente da polícia que pensa de forma racional e o personagem masculino é um consultor brincalhão com métodos inusitados de resolução de problemas. Já em Bones os papéis são trocados: ela é a cientista, embora continue sendo a racional da dupla, enquanto ele é o agente do FBI que age por intuição.
Essa lógica é o que torna tudo tão interessante para os fãs, que adoram listar cenas em que os dois “nem estavam juntos” e já se comportavam como casal. Em Wild Cards, a graça está no choque entre o policial que segue as regras e a golpista que as dobra. Ironicamente, segundo o portal de entretenimento Collider, existia um receio de que a série apressasse Max e Ellis e quebrasse, cedo demais, justamente a tensão que faz a dinâmica entre os personagens funcionar tão bem.
Quando o slow burn vem com humor
Também existe um subgênero em que o romance caminha lado a lado com a comédia, com o humor funcionando como escudo. Personagens desviam da emoção com uma piada e o espectador entende o que está por trás, além disso, o alívio cômico reduz o risco de o romance parecer pesado demais para uma série que, no fundo, quer ser leve.
Psych é o exemplo mais claro disso. Shawn Spencer (James Rodriguez) é um garoto com habilidades avançadas que finge ser vidente para ajudar a polícia de Santa Barbara, principalmente a detetive Juliet O’Hara (Maggie Lawson), e os dois passam a trabalhar juntos. O romance então surge em um slowburn de longa duração, que se concretiza até o fim da quinta temporada.
Há também Chuck, que apesar de ser uma série de espionagem também entra no gênero investigativo e apresenta um casal que faz uso da mesma dinâmica bem humorada. Na série, Sarah Walker (Yvonne Strahovski), agente da CIA, finge ser namorada de Chuck (Zachary Levi) como disfarce e, nas duas primeiras temporadas, insiste que é só fachada e que nunca poderia ser mais do que isso.
Afinal, por que a gente continua voltando?
No fim das contas, o slow burn em séries criminais funciona porque duas promessas convivem: a de que o caso será resolvido ao final do episódio e a de que a relação entre os protagonistas segue em aberto. A primeira gera conforto e a segunda dá motivo para voltar.
Entre uma e outra, a gente aprende a ler pequenos gestos, a torcer, fazer edits e discutir em fandom. Desde que alguém digitou “relationshipper” num fórum em 1996, o que mudou foram as plataformas, mas a vontade de ver dois personagens finalmente se encontrarem continua sendo a mesma.
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O artigo acima foi editado por Olivia Nogueira.
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