A poucos meses da estreia de mais uma Copa do Mundo, que neste ano será realizada entre os meses de junho e julho no Canadá, México e Estados Unidos, a Brasil Core, estética que tomou as redes sociais brasileiras no mundial do Catar, ganha um novo fôlego. O movimento nasceu como uma tendência de moda, mas tem representado mais do que isso e hoje é também um traço de exaltação da identidade nacional pela qual o Brasil tem passado.
A BRASIL CORE
A Brasil Core nasceu como um movimento estético durante a Copa do Mundo do Catar, realizada em 2022. Ela misturava a paleta de cores que representa o Brasil – o tradicional amarelo, azul e verde – com adereços e roupas vastamente usadas pelos brasileiros, como regatas caneladas, chinelos, tamancos, shorts jeans e camisas do país, principalmente as mais retrôs.
A tendência aliava as peças com estéticas urbanas típicas das cidades brasileiras. Era constante que as pessoas utilizassem roupas do Brasil para posar em comunidades, praias ou em lugares que fossem símbolos da arquitetura brasileira.
O movimento visava “resgatar” os símbolos nacionais que haviam se distanciado de parte dos brasileiros ao longo dos embates políticos. Além da despolitização, acreditava-se na retomada também de uma identidade que unisse a população em prol de um objetivo maior: a disputa da Copa do Mundo.
A tendência se fez presente organicamente nas redes sociais, principalmente através das influenciadoras brasileiras, mas o movimento ganhou verdadeira tração após o engajamento de personalidades estrangeiras, como Hailey Bieber.
A partir daí, vestir as cores do Brasil deixou de ser apenas um movimento de torcida e passou a ser também símbolo de orgulho nacional. Com isso, a estética verde e amarela transcendeu a moda e passou a ser uma expressão do orgulho brasileiro.
CONSOLIDAÇÃO DA ESTÉTICA
A transformação que a Brasil Core sofreu ao longo do tempo, de tendência para a Copa à exaltação da identidade brasileira, fez com que o movimento fosse amplificado após o torneio. Nos últimos quatro anos, a Brasil Core passou a ser também discurso.
Mas a tendência criada em 2022 não sobreviveu sozinha. A narrativa ganhou ainda mais espaço com todo o contexto político, cultural e social pelo qual o Brasil passou no período. Vale destacar também que, neste tempo, o país alcançou feitos antes impensáveis no imaginário coletivo de sua população.
Este é o caso da ginasta Rebeca Andrade que, durante as Olimpíadas de Paris 2024, desbancou Simone Biles, atleta dos Estados Unidos considerada a melhor ginasta do mundo, e conquistou a medalha de ouro no solo. Ainda nas Olimpíadas, o mesatenista Hugo Calderano, atual segundo colocado no ranking mundial de tênis de mesa, terminou os jogos em um inédito quarto lugar, feito histórico para um atleta latino. Além disso, nos últimos anos, o Brasil retornou ao mapa do tênis, com João Fonseca e Bia Haddad; da Fórmula 1, com Gabriel Bortoleto; e dos esportes de inverno, com Lucas Pinheiro conquistando o primeiro ouro olímpico de inverno do país.
Porém, não foram apenas os ganhos esportivos que marcaram o calendário brasileiro. No campo da arte, o Brasil nunca teve tanto destaque no cenário internacional. Nos últimos dois anos, o cinema brasileiro protagonizou o circuito das principais premiações do gênero no mundo. E o mais importante: as produções contavam histórias tipicamente nacionais.
Em 2025, Ainda Estou Aqui conquistou o primeiro Oscar do Brasil ao vencer a categoria “Melhor Filme Internacional”. Neste ano, o país volta a disputar a cerimônia, que acontecerá no dia 15 de março, e concorre às categorias: “Melhor Filme”, “Melhor Filme Internacional”, “Melhor Ator” e “Melhor Direção de Elenco” com o filme Agente Secreto; e “Melhor Fotografia”, com o brasileiro Adolpho Veloso, por Sonhos de Trem.
Fora de Hollywood, mas ainda no curso das grandes premiações, o Brasil conquistou outro troféu: o Grammy. O país ganhou a categoria “Melhor Álbum de Música Global” com Caetano e Bethânia Ao Vivo. A vitória ainda virou meme nas redes sociais, isso porque Caetano Veloso e Maria Bethânia, os responsáveis pelo álbum, mal sabiam o dia da cerimônia.
Fora das grandes premiações e competições mundiais, o Brasil segue atraindo as atenções. Nos últimos tempos, o país passou a exportar o estilo de vida tipicamente nacional e a atrair a curiosidade de grandes personalidades de todo o mundo. Este é o caso de celebridades como Angelina Jolie, Lewis Hamilton, Ricky Martin e Shawn Mendes, que, inclusive, tem passado grandes temporadas em solo Tupiniquim com a atriz brasileira Bruna Marquezine.
Todos estes elementos unidos fizeram com que se solidificasse entre os brasileiros um senso de pertencimento que transpassa telas, premiações e vestimentas. O Brasil passou a ter poder sobre a sua própria narrativa e a compartilhar a sua cultura com o mundo. O país reconquistou sua autoestima e passou a ter orgulho em vestir as suas cores e a torcer pela sua gente.
O MOVIMENTO NÃO É UMA EXCLUSIVIDADE BRASILEIRA
A tendência brasileira vai em direção ao que tem ocorrido ao redor do mundo. Nos últimos anos, têm surgido correntes que tentam quebrar com o domínio cultural imposto pelos países mais ricos do globo, sobretudo pelos Estados Unidos, a fim de resgatar tradições locais. Cada manifestação se inicia de uma forma diferente, a Brasil Core teve seu estopim com a moda, porém, a reafirmação e exaltação da identidade latino-americana, por exemplo, surgiu em meio a violência.
A tendência passou a ganhar força com a agressiva política anti-imigração implementada pelos Estados Unidos, ao longo do governo de Donald Trump. Porém, ela foi amplamente reforçada durante o show de Bad Bunny, cantor porto-riquenho, no intervalo do Super Bowl, momento de maior audiência do mundo.
Dias antes da final do Super Bowl, na premiação do Grammy, após vencer o prêmio de melhor álbum do ano com Debí Tirar Más Fotos, Bad Bunny deixou claro seu descontentamento com a política anti-imigração estadunidense, personalizada pelo ICE, polícia responsável por tratar da questão no país. Ao longo do Super Bowl, o artista fez uma apresentação emblemática, em que empoderou a cultura latina, desenhou aos estadunidenses o real significado de América e ainda fez uma provocação com o trecho: “Todos querem ser latinos, mas falta o tempero.”
SÍMBOLO NACIONAL
Historicamente, o Brasil se vendeu para o mundo como o “país do futebol”, por vezes, limitando a identidade brasileira às quatro linhas do gramado. Porém, os últimos anos provam que o território é muito mais que isso. Seja em outras modalidades esportivas, seja na arte, o Brasil tem ganhado cada vez mais destaque internacional.
Em um 2026 tão emblemático, em que o Brasil deve disputar grandes resultados no Globo de Ouro, Grammy, Oscar, Jogos Olímpicos de Inverno, Copa do Mundo e eleições gerais, a Brasil Core, movimento que nasceu nas redes sociais com a finalidade de torcer pela Seleção Brasileira, deixou de ser um padrão de moda. A estética se transformou em um manifesto de soberania cultural.
Vestir o verde e amarelo hoje não é apenas seguir um código de vestimenta para torcer. É reafirmar a identidade nacional. É dizer para o mundo que o Brasil já não se contenta mais apenas com as conquistas do futebol, mas que almeja ser protagonista em todos os palcos, inclusive nas esquinas de seu próprio país.
___________
O artigo acima foi editado por Júlia Salvi.
Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!