As comédias românticas foram um dos principais gêneros cinematográficos consumidos nos anos 2000. Filmes como Como Perder um Homem em 10 Dias, De Repente 30 e A Proposta conquistaram rapidamente o público e as bilheterias, firmando um sucesso que se estende até a atualidade.
E o que todos eles têm em comum, além do romance? A receita é simples: uma personagem feminina trabalhadora, preferencialmente jornalista, um cenário nova-iorquino cheio de táxis amarelos e prédios gigantescos, e é claro, um interesse amoroso lindo de morrer.
Amores Materialistas tem todos esses ingredientes, mas, ainda assim, não agradou como os maiores sucessos do começo da década. Então, qual foi o erro no processo?
A sinopse e divulgação de marketing
Amores Materialistas acompanha uma casamenteira chamada Lucy, que se envolve num triângulo amoroso complicado. Apesar de nutrir sentimentos pelo garçom aspirante a ator John, a jovem começa a se relacionar com Harry, um homem rico e irmão do noivo de um casal que ela uniu com sucesso. Harry é o partido perfeito, mas, ao reencontrar com John numa noite, Lucy se vê balançada pelo antigo amor imperfeito.
Com a volta das comédias românticas dos anos 2000, o público esperava o mesmo estilo para o novo filme de Celine Song. Produções leves, feitas para o telespectador escapar da realidade e encontrar conforto com um enredo mamão com açúcar.
O primeiro passo já estava dado: escolher três atores bonitos, com química e que servissem como uma luva para os respectivos papéis. E a divulgação de marketing reforçou essa aposta: Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal como um triângulo amoroso de tirar o fôlego nos ensaios fotográficos e nos tapetes vermelhos, fortalecendo a expectativa com cartazes de “Team Chris” e “Team Pedro”.
Chris Evans, Dakota Johnson e Pedro Pascal em “Amores Materialistas” | Foto Reprodução: A24
Mas o filme foi exatamente o oposto. A diretora indicada ao Oscar por Vidas Passadas trouxe uma produção mais próxima com sua primeira obra do que com os estereótipos de comédia romântica. O longa, na verdade, é uma visão moderna de amores e relacionamentos com uma forte crítica ao capitalismo.
Sobre o filme
Ao acompanhar a rotina de Lucy no trabalho, Celine nos coloca frente a frente com a própria forma que nos relacionamos no século XXI. Altura, peso, idade e, principalmente, dinheiro são apenas alguns dos filtros que invisíveis – ou visíveis – que colocamos na hora de procurar o parceiro ideal.
Chega a ser cômico olhar certos critérios exigidos pedidos pelos clientes, especialmente quando percebemos que aquele retrato é fiel até demais com a nossa realidade em relacionamentos: superficial e materialista. Como a própria diretora afirmou em entrevista, “virou tabu admitir o quanto dinheiro e riqueza se tornaram um item tão importante para o coração”.
Lucy, pragmática por sua profissão, se vê no mesmo dilema quando encontra Harry, o tão sonhado “unicórnio”, e ainda se vê mexida pelo ex-namorado que não preenche metade dos requisitos para o homem perfeito.
Apesar do filme desenvolver bem sobre como a nossa forma de amar está cada vez mais mercadológica, as críticas se voltaram para o mesmo lado – a escolha de Lucy. Afinal, o que importa em um romance com triângulo amoroso é com qual galã a mocinha ficará no final da história. E a escolha não agradou.
A principal review de Amores Materialistas no Letterboxd acusa o longa de ser uma “broke men propaganda” – termo fortemente repudiado pela diretora. Alguns até gostaram da decisão, mas a maioria dos fãs esperava algo mais realista, seguindo os ideais que Lucy afirma buscar no começo do filme: um homem rico. O quão coerente é um final em que a protagonista escolhe um relacionamento já fracassado ao invés das próprias convicções sobre amor?
Ainda assim, o fato do triângulo amoroso não envolver um “vilão” caricato foi um acerto da autora, que torna a dinâmica dos três ainda mais realista. Lucy é constantemente moldada pela primeira e principal referência de amor em sua vida – seus pais – e fala abertamente sobre a necessidade de estabilidade como forma de conforto.
As decisões não são fáceis, e as respostas, menos ainda. Por mais incrível que Harry seja, ele não tem a ligação sentimental necessária com Lucy, e o grande diferencial de John está justamente no que o dinheiro não pode comprar.
Transitando entre o urbano e o rural; amor e dinheiro; razão e emoção, o jeito melancólico que Celine Song fala de amor nos traz uma comédia romântica mais realista e verdadeira, abordando a busca por status e a complexidade das relações no capitalismo
“O amor é uma coisa que o capitalismo não pode tocar porque é de graça, de uma forma antiga e muito sagrada”, conclui Song.
Talvez, o amor, realmente, não tenha preço.
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O artigo acima foi editado por Sophia Claro.
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