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Ambição e masculinidade: como a indústria cultural associou aos homens o desejo de dominar o mundo

Ana Beatriz Carvalho Sapata Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

“A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele”. Quem disse isso foi Simone de Beauvoir, em sua obra O Segundo Sexo. E a filósofa não poderia ser mais certeira. 

Ao olhar para o mundo em que vivemos, percebemos que, desde o controle da terra até a liderança de nações, o domínio masculino foi naturalizado. Não por ser inato, mas justamente por ter sido socialmente condicionado. Se no lado do poder só existem homens, do lado oposto estará o gênero que foi associado ao contrário: as mulheres.

A própria Simone de Beauvoir reitera essa tese. De acordo com a pensadora, o sistema patriarcal centralizou o homem, definindo a mulher como a negação do masculino. Ela é “o outro”. A existência feminina é atrelada como inerente ao homem e, por isso, justifica-se o domínio masculino. A desumanização feminina, é, afinal, uma efetiva manobra para manter as mulheres no privado e perpetuar o patriarcado. Ao fazer com que as mulheres acreditem que sucesso, fama, reconhecimento e ambição são conquistas destinadas aos homens, sua motivação será tolhida e, portanto, o sistema se perpetuará: homens na liderança, mulheres subservientes.

CINEMA REFLETE CRENÇAS E COMPORTAMENTOS

A ambição – desejo de ascensão, poder, expansão – , embora associada culturalmente aos homens, é um desejo humano e completamente independente de gênero. É suscitada quando há possibilidade de acesso ao poder que levará o sujeito a uma provável ascensão. Mas, na realidade em que vivemos, mulheres ambiciosas representam uma ameaça à manutenção das desigualdades estruturais.

Um  jeito simples, mas absolutamente eficaz, de manipular crenças na percepção social é por meio da indústria cultural. “O cinema é um reflexo da sociedade. Se na sociedade temos ressalvas com mulheres ambiciosas e incisivas, isso será espelhado”, afirma Isabela Faria

Pegue como exemplo o filme Whiplash. Produção de 2014, retrata um jovem aspirante a baterista chamado Andrew (Miles Teller), que personifica a ambição masculina, e sua complexa relação com seu tutor (J.K. Simmons). A toxicidade do laço entre ambos é um curioso espelho da posição do homem na sociedade, que glorifica homens obsessivos em torno de um objetivo, mas condena mulheres, vistas como “loucas” ou “instáveis”. 

Isso se faz claro quando comparamos a obra de 2014 com Cisne Negro, filme lançado em 2010. Nina Sayers (Natalie Portman), uma jovem bailarina, sonha em interpretar o papel mais alto no ballet O Lago dos Cisnes. O longa aborda o quanto de si Nina precisa sacrificar de si mesma para concretizar seu desejo.

Enquanto em Whiplash o triunfo é alcançado como resultado da dedicação do garoto, em Cisne Negro o esforço da protagonista faz com que ela perca o controle de si mesma e enlouqueça. Esse ato de ‘enlouquecer’ nada mais é do que o prenúncio do destino de uma mulher ambiciosa. Aos olhos do mundo, determinação representa loucura obstinada.

MASCULINO COMO NORMA DE COMPORTAMENTO

Outro exemplo é o filme Tár, de 2022. Além de ter uma personalidade determinada e autoritária, a protagonista Lygia Tár (Cate Blanchett) também se veste e se comporta de maneira percebida como masculina. A escritora e crítica de cinema Camila Henriques reflete que mulheres precisam “performar um tipo de seriedade, não só na forma de se portar, mas também na vestimenta, para que sejam levadas a sério”. Isa Faria concorda que a postura foi historicamente conectada ao homem, o que faz com que a mulher também performe esses trejeitos em busca de aceitação.

Além de Tár, temos como reflexo perfeito das afirmações a personagem Miranda Priestley (Meryl Streep), icônica personagem de O Diabo Veste Prada, lançado em 2006. A diretora de redação é temida, mas nunca admirada: uma necessidade para sua carreira de sucesso. 

Ainda assim, a executiva jamais levanta o tom de voz. Ela ocupa a mesma posição que muitos homens, mas é retratada como uma megera. “A expectativa é muito mais alta em cima da mulher e o erro dela é muito mais caro”, diz Camila.

@paulsonssfilms

Cate is obviously an incredible actress and she was so deserving of this Oscar, however, Michelle’s win was a very much needed step into the diversity of the industry. Yeoh was equally as deserving as the rest of the nominees and it showed. #cateblanchett #lydiatar #lydiataredit #tar #michelleyeoh #everythingeverywhereallatonce #foryou #paulsonssfilms #oscars2023 #oscars

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Há também a perspectiva de que os sonhos femininos são fúteis em comparação aos masculinos. Por vezes, o desejo feminino de conquista não é levado a sério. E se há a persistência de seguir com sonhos considerados “grandes demais”, há uma desvalorização do resultado. Ou seja, se a desmotivação não é suficiente para parar a mulher, o plano é fazer com que ela acredite que sua conquista foi insatisfatória. 

A ambição feminina é severamente punida como tragédia ou falta de amor. Exatamente por valores patriarcais, é estabelecido que a função social da mulher é reproduzir. Então, caso esta decida dedicar sua vida a qualquer âmbito que não o familiar, ela será julgada. Um peso enorme será posto sobre seus ombros, como se sua experiência quanto ser humano tivesse sido incompleta. 

Já ao homem, recai o sonho máximo de dominar o mundo pois ele sempre esteve no comando de todas as esferas da sociedade. Ele é constantemente validado, o que gera confiança suficiente para almejar o que bem quiser, ter possibilidades infinitas de projeções. Exatamente o que falta para as mulheres: o apoio, a confiança.

Por meio dessa análise, é possível concluir que o imaginário social está enraizado nas influências que recebe. Um modela o outro.

A arte, assim como a indústria cultural, possui um enorme papel transformador. Da mesma maneira que consolidou muitos dos pilares que perpetuam uma mentalidade misógina, também tem todos os artifícios necessários para desmantelar essa visão e reconstruír o olhar, ressignificando o mundo para aqueles que o habitam. Para o futuro do cinema, se englobarmos uma variedade de existências como possíveis, estaremos caminhando rumo a uma existência mais igualitária e livre.

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O texto acima foi editado por Giulia El Houssami.

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Journalism student at Cásper Libero, Brazil.
Passionate about everything that evolves art and human expression.