Alimentando-se das Bordas, o Neonazismo Ascende na Política Brasileira

Neonazismo, o movimento político que, por anos, distanciou-se do protagonismo no país em debates políticos, mostrou ferrenhamente suas novas faces nas últimas semanas. Em atos nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do país, apologia a partidos políticos e recentes manifestações internacionais de extrema direita foram notadas e problematizadas por estudiosos. 

O supremacismo branco também foi supostamente exaltado em lives do presidente Jair Bolsonaro e do blogueiro Allan dos Santos. Na noite do 28 de maio, durante uma live nas redes sociais, Bolsonaro e dos Santos beberam copos de leite puro, o que até então  não era comum em transmissões. No vídeo, o jornalista fundador do site Terça Livre ri enquanto diz: “Entendedores entenderão”.

Segundo Artur Favaro, historiador formado pela PUC-SP, apesar de ter nascido nos Estados Unidos, é fato que nos últimos anos a simbologia do leite é protagonista de manifestações neonazistas pelo mundo. Tal referência se dá por conta da crença que supremacistas raciais têm de que brancos adultos possuem uma maior facilidade em consumir a lactose presente no leite. 

“Não se pode afirmar com precisão qual era o intuito das personalidades durante as gravações, mas o que se pode dizer é que esse tipo de ato - tomar leite - é comum entre esse tipo de grupo”, afirma Artur. Segundo Bolsonaro, sua intenção era, a pedido da ministra da Agricultura, celebrar o valor do leite no agronegócio nacional. Isso porque no dia 1º de junho é comemorado o Dia Internacional do produto. 

Entre os civis apoiadores do atual governo, manifestações de rua não fugiram de segundas possíveis interpretações. Durante o mês de maio,  a ativista da extrema-direita bolsonarista Sara Winter movimentou a Esplanada dos Ministérios num movimento intitulado “300 do Brasil”, que na madrugada do último domingo do mês, caminhou com tochas acesas em direção ao STF.

Apesar de denominarem-se 300, o grupo liderado por Winter tampouco tinha 30 manifestantes. Isso acontece pois o título é dado em referência a “300”, filme lançado em 2006 pelo diretor Zack Synder, em que é retratado a luta sangrenta de trezentos soldados espartanos. Em meados da década passada, “300” ultrapassou as barreiras cinematográficas e tornou-se uma referência em passeatas neonazistas na Europa. Segundo críticas cinematográficas, isso acontece porque o filme tem uma notável estética fascista em seu contexto violento. 

Já nas manifestações da tarde de 31 de maio, em São Paulo, o reverenciado da vez foi o do partido político ucraniano de extrema-direita, Pravy Sektor. Atuando na Ucrânia desde 2013, o partido foi protagonista dos protestos que culminaram no afastamento do ex-presidente e aliado ao governo russo, Viktor Yanukovich. “Durante a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia era anexada a União Soviética, e exigia separação. Quando os nazistas invadiram a URSS, parte considerável dos ucranianos colaboraram com o exército de Hitler”, explica Artur. “Ainda hoje esse feito é rememorado por adeptos às ideologias do Pravy Sektor, podendo assim serem chamados de neonazistas.”

No século passado, surgiam no país os integralistas, grupo político que flertava com ideologias fascistas e nazistas. Fundado em 1932 por Plínio Salgado, a Ação Integralista Brasileira (AIB) representou durante 5 anos traços católicos, autoritários e  antissemitas por meio dos camisas verdes – nome dado aos filiados ao partido. No integralismo, assim como no nazismo, era de grande relevância a estética do grupo. Seu cumprimento era o Anauê; já nas braçadeiras, no lugar da suástica, usava-se o símbolo do sigma. “O integralismo era um movimento totalitário que compactuava com ideologias fascistas. Entre eles, existem muita semelhanças e, apesar do tempo, grupos como esse nunca de fato desapareceram”, lembra Artur.

Hoje, 83 anos após a dissolução do AIB, ressurge no país novos adeptos ao movimento. Em novembro do ano passado uma passeata de 15 homens ditos integralistas ocupou o Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Já em dezembro do mesmo ano, um grupo autodenominado integralista assumiu o ataque ao canal humorístico Porta dos Fundos em retaliação às sátiras religiosas feitas pelo canal no especial de Natal lançado pela Netflix.