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A Seletividade do Cancelamento: Por que o tribunal da internet ainda condena mulheres e absolve homens?

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Raissa Oliveira Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Mesmo após uma sequência de falas antissemitas, exaltação a figuras nazistas em tweets e o uso de símbolos de ódio em suas coleções no último ano, o novo álbum de Kanye West, “Bully”, estreou em segundo lugar na Billboard 200; e seus dois shows realizados no SoFi Stadium, nos dias 2 e 3 de abril, atraíram mais de 80 mil pessoas. Com o cancelamento, Ye declarou à Vanity Fair, em janeiro, que seu histórico de conduta teve origem em um acidente de carro no início da carreira e em questões de saúde mental.

Ainda assim, não deixa de ser curioso o contraste entre a fácil aceitação de atitudes, no mínimo, controversas pelo público do cantor ao linchamento direcionado a celebridades femininas por situações que, moral e judicialmente, não possuem metade da gravidade. Por exemplo, em 2024, a cantora e atriz Jennifer Lopez foi alvo de uma avalanche de ódio nas redes sociais — um dos fatores que resultou no cancelamento de sua turnê nos EUA, prevista para maio do mesmo ano —, por ser considerada “chata” e “egocêntrica” ao autopromover, de maneira considerada excessiva para o tribunal da internet, o projeto This Is Me… Now: A Love Story, onde referencia um de seus trabalhos anteriores e exalta, de maneira constante, suas raízes latinas e periféricas.

Durante esse período, internautas também reviveram dezenas de polêmicas, junto de momentos constrangedores que compunham sua trajetória, mas que, de longe, não ferem nenhum dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos ou parecem motivos plausíveis para justificar tanta antipatia.

Do corpo à moral

O fenômeno do ódio em massa contra mulheres por atitudes não graves não é uma invenção das redes sociais. No Super Bowl de 2004, um incidente de frações de segundo durante a performance de Janet Jackson e Justin Timberlake resultou na exposição do seio da cantora (contendo um protetor de mamilo).

Ela foi condenada ao ostracismo pela mídia, sendo banida de premiações como o Grammy e tendo suas músicas e videoclipes retirados de rádios e da MTV; enquanto Timberlake se consolidou como “príncipe do pop”. Naquela época, onde os tabloides eram a principal forma de se informar sobre a vida de celebridades, a arma para destruir uma carreira feminina era a hipersexualização ou o escrutínio da vida íntima.

Janet Jackson com a mão no seio ao lado de Justin Timberlake segundos após o ocorrido.

Contudo, com o avanço das pautas feministas, o tribunal da internet precisou se sofisticar. Se hoje não é mais tão aceitável atacar uma mulher puramente pela sua roupa ou vida sexual, a punição migrou para o campo da moralidade. Agora, cancelam-se mulheres sob o pretexto de que são “arrogantes”, “antipáticas”, “hipócritas” ou “forçadas”.

Anne Hathaway e Jennifer Lawrence foram algumas vítimas dessa transição. As atrizes, consideradas “queridinhas” pela indústria de Hollywood no final dos anos 2000, receberam uma onda de hate massivo nos anos seguintes como consequência da superexposição. Anne foi acusada de performar uma imagem de perfeição, dando origem à #Hathahate, e JLaw de ser irritante e forçada pelas declarações bem-humoradas em entrevistas e pelo segundo tropeço no tapete do Oscar em 2014.

Olhar do Público sobre o cancelamento

Para Micaela Ayer, produtora, roteirista e influencer voltada à análise do universo pop, o segredo desse contraste está em quem consome. Enquanto as divas pop estão sob o olhar minucioso de uma comunidade concentrada em mulheres e no público LGBTQIA+ — grupos historicamente engajados em pautas sociais que cobram de seus ídolos uma postura de ativismo constante —, o fã-clube de Ye habita uma bolha majoritariamente masculina e heteronormativa. “O fã de Kanye, assim como o fã de futebol, não quer mudar o mundo porque o mundo já é favorável a ele“, afirma.

Essa dissonância se estende até à forma como a saúde é acometida pelo gender gap. Diferente dos surtos de celebridades masculinas, frequentemente lidos como parte de uma “persona artística complexa”, o colapso feminino é tratado de maneira vexatória e serve como munição para descredibilizá-la.

Micaela exemplifica essa dinâmica com o caso de Britney Spears: em 2007, sua crise de saúde mental foi transformada em um espetáculo global pelos tabloides, servindo de base para uma tutela que a privou de direitos básicos por 13 anos. “Gasta-se mais para evitar que um homem fique careca do que para entender uma doença que causa dor física e infertilidade nas mulheres“, afirma a entrevistada, referindo-se à discrepância entre os investimentos de medicamentos para a perda de cabelo masculina (US$ 7,7 bilhões por ano) e estudos sobre endometriose (apenas US$ 13 milhões do National Institute of Health em 2019).

Britney Spears raspando a cabeça em 2007.

No fim, se o cancelamento parece uma sentença inevitável para as mulheres na mídia, a única blindagem real parece vir de seus iguais. Para a produtora, a sobrevivência de nomes como Mariah Carey, Taylor Swift e a consolidação de Chappell Roan vem como consequência da decisão de “tomar a narrativa para si”. Se a internet a rotula como “difícil”, a resposta dessas artistas é abraçar essa persona.

Contudo, essa retomada de controle só é possível porque existe um porto seguro: o público feminino. “Ninguém é mais leal que as mulheres”, pontua. Enquanto o mundo exterior utiliza a moralidade para atacar artistas femininas, suas fãs fazem o caminho inverso, humanizando-as através da identificação

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O artigo acima foi editado por Eduarda Mahrouk.

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Raissa Oliveira

Casper Libero '29

Amante de cinema, rock alternativo, literatura existencialista e vermelho vinho.
Cursando o 1º Semestre de Jornalismo na Faculdade Casper Líbero.