No Halloween, vestir-se de vampira, personagem de filme ou até de uma versão exagerada de si mesma ganha outro significado. Por trás das fantasias, existe a oportunidade de experimentar comportamentos, estéticas e desejos que nem sempre encontram espaço no cotidiano. Afinal, quando a roupa é apenas parte de uma brincadeira, até onde vai a liberdade de ser outra pessoa?
O que você seria se ninguém soubesse que é você?
E não vale responder que seria uma pessoa melhor, porque estamos falando de Halloween, não de uma sessão de terapia em grupo. A brincadeira é outra. O que você faria se, por uma noite, ninguém pudesse associar suas escolhas à pessoa que você é durante o resto do ano? Talvez você fosse mais bonita, mais ridícula, mais vulgar ou até mesmo mais assustadora.
Talvez fosse uma versão de si mesma que não precisa pedir desculpas, não mede as palavras e não pensa duas vezes antes de fazer alguma coisa que, na manhã seguinte, precisaria explicar. Ou talvez só usasse aquela roupa que acha linda, mas que nunca teve coragem de tirar do armário porque alguém poderia achar demais.
O Halloween tem essa graça. Por algumas horas, surge uma desculpa para sair da linha sem precisar abandonar completamente a reputação que levou anos construindo. Afinal, não é você. É a fantasia. Ou, pelo menos, é o que se pode dizer.
A sociedade valoriza princípios, bom senso e algum controle sobre impulsos. As convenções sociais ajudam a determinar o que é considerado aceitável, o que deve ser dito e o que é melhor guardar para si. A imagem pública também é construída nesse processo, a partir de expectativas que delimitam comportamentos considerados adequados.
Mas ninguém é tão bem-comportado o tempo inteiro. Há vontades que não combinam com a imagem pública, pensamentos impulsivos e versões de nós mesmas que preferimos manter longe dos olhos alheios. Existe quem tenha um lado vingativo, quem fantasie com a própria liberdade, quem queira ser um pouco mais atrevida, quem tenha curiosidade de experimentar o proibido. Mas também há quem só queira se vestir de um jeito um pouco mais sensual, sem dar justificativas ou precisar transformar uma minissaia em uma declaração política.
A questão não é que todo mundo esconda um monstro, mas que existem aspectos da personalidade que nem sempre encontram espaço na imagem construída para atender às expectativas sociais.
O álibi perfeito para sair da linha
Talvez por isso o Halloween seja tão divertido. Ele oferece uma espécie de álibi moral: é possível exagerar, provocar, brincar com o próprio corpo e experimentar personagens que não combinam com a sua vida cotidiana. O que seria considerado estranho ou passível de julgamento em uma terça-feira qualquer ganha espaço como expressão criativa no dia 31 de outubro. A mesma sociedade que pode fiscalizar o comprimento da sua roupa também é capaz de aplaudir a sua versão de vampira libertina.
A moral, aparentemente, também sabe brincar de faz de conta.
E existe algo deliciosamente contraditório nisso. A busca por aceitação convive com o desejo de escapar das expectativas que vêm com a aceitação. A identidade é valorizada, mas também pode despertar a vontade de abandoná-la. O reconhecimento social parece desejável até o momento em que começa a limitar as possibilidades de expressão individual.
As referências para outras versões de si
A moda e, consequentemente, as fantasias também são formas de contar histórias. Ambas bebem da arte, do cinema, da música e da literatura. Uma roupa pode carregar a referência de um filme, a estética de um artista, ou um universo literário. Pode ser uma homenagem, uma piada interna ou um pretexto para se vestir da forma mais ridícula e pretensiosa que alguém poderia imaginar.
No Halloween, a liberdade ganha ainda mais espaço, e não existe a obrigação de parecer elegante, discreta ou adequada para determinada ocasião. As fantasias deixam de ser apenas reproduções de personagens e passam a funcionar como interpretações visuais daquilo que é consumido, admirado ou que se tem curiosidade de experimentar. Às vezes, um vestido específico, uma maquiagem ou um acessório são suficientes para reconhecer uma personagem.
É o caso de “Carrie, a estranha”. Na série, a personagem Carrie White aparece com um vestido rosa durante o baile da escola, que acaba sendo coberto de sangue de porco em uma das cenas mais marcantes da história. A imagem se tornou uma referência recorrente para fantasias de Halloween e mostra como poucos elementos, quando combinados, são suficientes para tornar uma personagem imediatamente reconhecível.
Já em “Meninas Malvadas“, filme de 2004, o Halloween aparece com uma perspectiva diferente. Em uma das cenas, a personagem principal Candy Heron explica que essa data é a única noite do ano em que as garotas podem se vestir de maneira provocante sem que outras pessoas as julguem.
A cena é engraçada justamente porque transforma em piada uma contradição que existe na sociedade: a roupa que seria considerada inadequada em outras ocasiões ganha aprovação quando está acompanhada de uma fantasia. Por algumas horas, a provocação deixa de ser uma quebra de comportamento e se torna apenas uma brincadeira.
Já em “Devil’s Night“, série literária de Penelope Douglas, o mistério e o anonimato também ganham espaço na narrativa. As histórias acompanham um grupo de personagens envolvidos em relações marcadas por segredos, vingança e jogos de poder. As máscaras também fazem parte do universo da obra: o anonimato permite que os personagens assumam identidades diferentes daquelas que apresentam no cotidiano.
Quando ninguém sabe exatamente quem está por trás da máscara, parece surgir uma liberdade para experimentar comportamentos questionáveis. A fantasia passa a representar a possibilidade de escapar, ainda que temporariamente, da própria identidade.
As fantasias transformam referências culturais em formas de expressão. Uma cena marcante, uma personagem ou uma estética admirada podem servir de inspiração para escolhas que revelam aquilo que cada pessoa deseja mostrar ou experimentar. Talvez a fantasia não revele quem alguém é de verdade, como se existisse uma versão definitiva escondida do mundo exterior, mas possa revelar quem essa pessoa gostaria de experimentar ser, ainda que por uma noite.
Nem toda fantasia é uma confissão
E isso leva de volta à pergunta inicial: o que você seria se ninguém soubesse que é você?
Talvez a resposta não seja tão sombria quanto parece. Talvez você não queira cometer nenhum crime, destruir nenhum relacionamento ou se vingar de todos os momentos traumáticos que acumulou desde o ensino médio.
Talvez só queira dançar sem se preocupar com a própria aparência, beijar alguém sem pensar demais, vestir algo que normalmente consideraria ousado ou sair de casa sem carregar a obrigação de representar a pessoa sensata que todo mundo conhece.
Ou talvez exista a vontade de ser um pouco mais perigosa. Não necessariamente para fazer mal a alguém, mas para descobrir um lado mais excêntrico e irreverente.
Mais do que uma data associada ao terror, o Halloween convida a experimentar e lembrar que a identidade não precisa ser uma prisão. A responsabilidade não significa previsibilidade, assim como manter os próprios princípios não impede ninguém de rir de si mesma.
Embora não seja necessário esperar pelo dia 31 de outubro para se vestir como quiser, é curioso que exista uma data inteira dedicada a celebrar essa liberdade. Por uma noite, a fantasia abre espaço para assumir outras versões de si sem abandonar quem se é. E, se alguém perguntar quem você pensa que é, você pode escolher qual persona interpretar.
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O artigo acima foi editado por Júlia Sofia Barreira.
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