Entre arte e crítica social, Jum Nakao costura o invisível e rasga o tecido da normalidade. Seu desfile performático não apenas apresentou roupas criativas e atípicas, mas provocação e reflexão – colocando a cultura do consumo e as contradições da indústria da moda sob os holofotes.
Em 2004, durante uma das edições mais marcantes da São Paulo Fashion Week, o estilista Jum Nakao apresentou um desfile que não apenas rompeu expectativas, mas também deixou uma marca poética na história da moda brasileira. Intitulada A Costura do Invisível, a coleção surpreendeu pela escolha inusitada de material – tudo foi confeccionado em papel vegetal – e pelo final dramático que chocou o público: as modelos rasgaram suas próprias roupas na passarela, desmontando o que havia acabado de ser cuidadosamente apresentado como delicado, preciso e sofisticado.
A cena foi simbólica e, para muitos, inesquecível. Ali, Nakao não entregava apenas um desfile, mas uma performance artística, um manifesto silencioso sobre o estado da moda, da arte e da cultura. A proposta não era agradar ou vender, mas provocar.
Moda não é só roupa. Moda também é mensagem, manifesto e memória. Poucos momentos traduziram isso tão bem quanto A Costura do Invisível. Quem vê as imagens pela primeira vez talvez pense que se trata de uma coleção de alta-costura: vestidos trabalhados com riqueza de detalhes, estruturas que lembram esculturas, texturas finas e românticas. Mas o que parecia luxo era, na verdade, papel.
O desfile, que levou mais de 700 horas de produção e contou com mais de 200 pessoas envolvidas, ficou marcado por seu final inesperado. Em um silêncio quase coreografado, as modelos rasgaram as peças uma a uma. O que era belo e preciso se tornou ruína em segundos.
Jum Nakao sabia o que estava fazendo. A Costura do Invisível era (e continua sendo) um grito contra a superficialidade do consumo e a velocidade com que a moda passou a operar. Era 2004, mas já se falava de globalização, padronização de estilos e perda de identidade cultural. A roupa virou produto, e o ato de se vestir – que carrega tanta história, política, desejo e afeto – foi reduzido a mais uma entrega rápida. O papel, então, virou metáfora: algo belo, mas frágil. Efêmero. Assim como a moda poderia estar se tornando.
Quase vinte anos depois, essa mensagem permanece atual. Vivemos em uma era em que a quantidade muitas vezes vale mais do que a qualidade; em que vestir-se parece uma corrida constante atrás do novo, e não uma forma de expressão real. Relembrar esse desfile é mais do que revisitar um marco estético: é uma provocação ainda atual.
O que estou vestindo comunica sobre mim? O que consumo faz sentido com quem sou?
A Costura do Invisível nos convida a olhar para aquilo que a moda, às vezes, tenta esconder: o tempo de criação, o cuidado, a cultura, a intenção. Ela rasga o excesso, a pressa e o padrão. E com isso, revela o que há de mais essencial.
Por que lembrar disso agora?
Estamos em um momento de transição. A geração Z está mais atenta e mais crítica, buscando justamente esse tipo de reflexão. Queremos saber de onde vem as peças que usamos, quem as produziu, com quais condições e qual propósito. Ao mesmo tempo, lidamos com um algoritmo que nos empurra para consumir mais, desejar mais, postar mais… Viver essa contradição é difícil, mas necessário.
Por isso, olhar para desfiles como o de Jum Nakao não é apenas revisitar o passado. É enxergar o futuro que queremos construir. Uma moda mais consciente, mais poética, mais verdadeira.
Talvez a “costura do invisível” seja justamente isso: uma linha que conecta aquilo que não se vê de imediato, mas que, uma vez percebido, não dá mais para ignorar.
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O artigo acima foi editado por Nicole Braga.
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