Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Culture > Entertainment

60 anos de Fernanda Torres: uma atriz entre gêneros e gerações

Ana Azeredo Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, ‘Nanda’, como é conhecida pelos amigos e familiares, cresceu cercada de arte e alimentada de cultura. Durante sua última participação no Programa Roda Viva, relembrou momentos da infância ao acompanhar os pais no teatro e cenas impactantes da sua mãe como atriz, que, como destaca a filha, tem um talento nato. Porém, Fernanda Torres declarou que sempre se interessou por outras áreas e que abraçava diversas paixões simultaneamente.

Aos 13 anos, ingressou na tradicional escola de teatro Tablado e, segundo ela, o teatro era tido quase como uma “imposição” proposta pelos pais. No mesmo ano fez sua estreia nos palcos, com a peça Um Tango Argentino (1978).

Sua estreia no cinema aconteceu em Inocência (1983), ao lado do pai. Em A Marvada Carne (1985), ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado. Em Eu Sei Que Vou te Amar (1986), conquistou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes. E, aos 21 anos, já provava seu talento para o mundo.

Na televisão, brilhou em programas de humor que marcaram gerações como Os Normais (2001–2003) e Tapas & Beijos (2011–2015), concretizando sua carreira como humorista. Nas novelas, estreou em Baila Comigo(1981) e ganhou projeção nacional no remake de Selva de Pedra (1986). Não bastasse o talento e reconhecimento em tantas áreas, aos 42 anos iniciou sua carreira como escritora, escrevendo para jornais e revistas. Publicou o romance Fim em 2013, seguido por Sete Anos (2014) e A Glória e Seu Cortejo de Horrores (2017).

Acho que já deu pra perceber a qualidade excepcional de Fernanda Torres só com esse breve resumo. A atriz é uma espécie de camaleão e se adapta em tudo que toca, o que a afasta de críticas relacionadas ao nepotismo daqueles que a chamam de “nepobaby”. ‘Nanda’ não é apenas talento de berço. Nanda é interesse, entrega e arte.

“Diz uma coisa bonita pra mim… Sei lá, mente”

Pode-se destacar como início da “febre Fernanda Torres” o filme Eu Sei Que Vou te Amar (1986), quando a atriz tinha apenas 20 anos e se tornou a primeira brasileira a ganhar o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes.

Com tons de erotismo e obsessão, a obra é um drama explosivo que acompanha um casal de ex-amantes cujo reencontro conflituoso em seu antigo lar conjugal se transforma numa verdadeira batalha dos sexos. Recusando-se a ser apenas objeto de desejo um do outro, a femme fatale feroz de Torres enfrenta tudo com uma determinação de ferro.

“Os Normais” nada normais

Os Normais (2001–2003) era conhecida pelo humor irreverente. As falas de Vani, assim como as de Rui (Luiz Fernando Guimarães), buscavam explorar as neuroses e as complexidades das relações amorosas e da vida moderna de uma forma que, para alguns, não seria mais aceita na TV.

Apesar de Rui e Vani serem noivos há sete anos, uma conversa séria sobre casamento parece sempre distante. Os dois têm praticamente os mesmos gostos e neuroses, mas estão sempre brigando. Mesmo com todo o conflito, ataques de ciúmes, brincadeiras nem sempre convencionais e muita confusão, eles se condiram um casal normal.

A divertida trama que envolvia a série e posteriormente os filmes, atribuiu a Fernanda Torres a característica humorística, graças a imensa capacidade de adaptação da atriz. Desvencilhando-se de um papel de filmes premiados de mais alto patamar, alcançou a popularidade em uma série de humor que reverberou no país de maneira contagiante.

Mais beijos do que tapas…

Trabalhar em uma loja de noivas pode interferir (muito!) nos pensamentos de duas mulheres desesperadamente solteiras. Isso é o que vemos em Tapas & Beijos, série protagonizada por Torres (Fátima) e Andréa Beltrão (Sueli).

@tvbrasileira_

finalmente o pov da Fátima q foi tanto pedido por vcsss 🤭🤭 #tapasebeijos #sueli #fatima #humor #vaiprofycaramba

♬ Heart Of Glass – Special Mix – Blondie

Mais um sucesso do humor que marcou a carreira de Fernanda Torres de maneira generalizada, o programa que teve início em 2011 consolidou a carreira da atriz no humor e estava presente nas noites de todos os brasileiros.

A cena do subúrbio carioca traz ao espectador uma brasilidade característica, que é impactada não só pela vida cotidiana das protagonistas, mas também por personagens marcantes como o querido Seu Chalita (Flávio Migliaccio), o cômico Djalma (Otávio Muller) e os icônicos Armani(Vladimir Brichta) e Jorge(Fábio Assunção).

Os 40 são os novos 20: seria isso um “FIM”?

No auge de seus 42 anos, Fernanda se debruçou na carreira de escritora. Sempre se declarou uma leitora assídua e, segundo ela, desde a escola sempre esteve conectada com a literatura e com os clássicos, muito por conta da influência dos pais que liam os famosos “calhamaços” continuamente.

Multifacetada, ela já escrevia crônicas, o que segundo ela foi um incentivo para escrever cada vez mais. Como resultado, lançou o romance Fim, premiado com um Jabuti (2018) e posteriormente adaptado por ela mesma em série de 10 episódios para o Globoplay (2023).

Nele, cinco amigos cariocas rememoram as passagens marcantes de suas vidas: festas, casamentos, separações, manias, inibições, arrependimentos. Novamente, entra em cena a capacidade da atriz, escritora e cronista em retratar e vivenciar o cotidiano de uma maneira especial.

Com amor, Andrucha, Joaquim e Antônio

Fernanda Torres é casada há 27 anos com Andrucha Waddington, diretor, produtor e roteirista de diversas obras protagonizadas por Nanda. A atriz descreve como “revolucionário” manter uma relação tão longa atualmente, algo que se assemelha ao casamento de seus pais, Fernanda Montenegro e Fernando Torres, que durou 55 anos, até o falecimento de Fernando, em 2008.

Aos 35 anos, tornou-se mãe pela primeira vez, de Joaquim, e, em 2008, nasceu o segundo filho, Antônio. A atriz acompanha de perto a vida dos filhos, que preferem manter uma vida privada longe dos holofotes.

Em uma reflexão, ela classificou a maternidade como algo quase heroico, especialmente em contextos de adversidade. Uma tarefa de dar segurança, afeto, colo, mas também de resistir.

Nós vamos sorrir, sorriam!

A mais recente memória presente no imaginário brasileiro ao falarmos sobre Fernanda Torres se trata do premiado Ainda Estou Aqui. O filme é um retrato do Brasil na época da ditadura, exposto através da família Paiva, que representa a resistência em um regime autoritário. Ao relembrar o passado, o filme espelha o futuro, e prova através da arte que a resistência é (e deve ser) constante.

A obra foi indicada a inúmeros prêmios nacionais e internacionais, com destaque ao Globo de Ouro, no qual Fernanda Torres ganhou como Melhor Atriz ao interpretar Eunice Paiva, após 26 anos da última indicação de uma brasileira ao mesmo prêmio, sua própria mãe, Fernanda Montenegro. A vitória de Nanda é sinônimo de superação e orgulho nacional.

Destaca-se também o Oscar, no qual Nanda concorreu como Melhor Atriz e o longa como Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, tendo levado esta segunda estatueta.

Fernandas <3

Fernanda Torres destaca momentos de desencontro consigo mesma ao achar que o sucesso viria apenas se ela se comportasse como uma “sucessora” de sua própria mãe. Graças a um longo processo de análise e maturidade, ela seguiu o caminho da atuação e, mais tarde, também da escrita, mas buscando uma identidade própria, com muito humor e crítica. Em entrevistas, já contou que tinha medo de não estar à altura da mãe, mas que a referência materna a incentivou.

A disputa de Nanda pelo prêmio de melhor atriz no Oscar é representativa e, mesmo não ficando com a estatueta, o Brasil sentiu orgulho pela mera (e enorme) participação da atriz no evento. Aqui, Fernanda é a única vencedora possível.

A vitória  da atriz no Globo de Ouro, como citada anteriormente, gerou um sentimento nostálgico em relação a participação da mãe no mesmo prêmio em 1999, o qual Fernanda Montenegro perdeu para Cate Blanchett. A conquista de Fernanda Torres em 2025 trouxe cor e esperança ao cenário atual e era prevista pela mãe, “eu sabia que minha filha ia ganhar esse prêmio”. A admiração é mútua: “Ela é um monumento vivo. Mas pra mim, é minha mãe, que me ensinou que o mundo é muito mais interessante quando você pensa antes de sentir”.

Quais serão as cenas dos próximos capítulos?

Como era de se esperar, Fernanda já planeja diversos projetos. Dentre eles está o filme Os Corretores, o qual ela vai escrever e protagonizar, com direção de Andrucha Waddington, seu marido. O longa está ainda não tem data de estreia confirmada. Além disso, em conversa com a atriz Jessica Chastain, ela revelou que escreveu o roteiro para uma série de 6 capítulos ambientada no Brasil e que está trabalhando em uma adaptação pra o teatro de uma das obras do escritor português Eça de Queiroz.

Após tantas e tantas realizações da atriz, Fernanda completa hoje seus 60 anos sendo a artista mais reconhecida entre suas milhares de facetas, com genialidade e talento inegáveis. O que imaginamos é que ainda ouviremos muito “and the award goes to…Fernanda Torres”.

—————-

O artigo acima foi editado por Olivia Nogueira.

Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!

Ana Azeredo

Casper Libero '29

Nascida no interior de São Paulo,em uma cidade conhecida pelos bons ares, me mudei para a capital há pouco tempo com o intuito de vivenciar a carreira de jornalista, e sigo como paulistana desde então.
A vida no interior me proporcionou experiências de tranquilidade que eu acredito que sejam inexistentes no local mais sereno de São Paulo, mas o constante movimento de pessoas e informações é estranhamente cativante, me sinto assistindo a uma exposição de arte a céu aberto, talvez circundada por ares demasiadamente poluídos, mas a cultura aqui é, de fato, viva e presente.
O caos e a diversidade da cidade resumem meus maiores interesses profissionais, como política, cultura e entretenimento.
Pessoalmente, a escrita me traz pertencimento e repertório em âmbito social, afinal, a comunicação influencia diretamente na maneira como vemos o mundo e reagimos a ele. Sendo assim, minhas vivências se resumem a diferentes formas de comunicação, como filmes, fotos e músicas que me acolhem e marcam cada momento.
Nas reuniões escolares, meus pais ouviam frases prontas como, "ela é boa, mas fala bastante", tais apontamentos poderiam ter me trazido malefícios, mas hoje em dia, diante da crescente desinformação, querer me comunicar e absorver informações corretamente propicia clareza a uma esfera social, majoritariamente, turva.
Acredito também que o dinamismo presente no diálogo entre escritor e leitor é transformador e nós somos, de fato, metamorfoses ambulantes.