#3 Motivos Para Você Fazer Parte do Movimento Slow

Pergunta pessoal: você está exausto? E as pessoas à sua volta? Elas estão visivelmente cansadas? Graças à dinâmica de vida acelerada da contemporaneidade, nós, como corpo social, naturalizamos sentimentos como ansiedade, cansaço, exaustão e estresse extremo. O Movimento Slow vai na contracultura dessa pressa desmedida.

Seu símbolo é um caracol, um dos animais mais lentos do mundo. Mas ser slow não é sobre ser devagar. É sobre fazer as coisas em seu devido tempo.

  1. 1. "Tempo é vida"

    Michelle Prazeres é jornalista, professora e idealizadora do Desacelera SP. O estilo de vida mais desacelerado entra em cena na sua história junto com os nascimentos de seus filhos.

    Estudar sobre a humanização do parto e o sagrado feminino a aproximou de uma vertente do Movimento Slow, que relaciona-se com o corpo, os tempos da natureza e a vinda de uma criança. "Isso ficou ainda mais profundo com a chegada do meu segundo filho. Então, há cinco anos atrás, criamos o Desacelera’’, explica.

    Pensar em São Paulo é pensar em correria. É possível o Movimento Slow ganhar palco na maior cidade da América Latina? O Desacelera SP faz com que sim: "É importante alertar as pessoas que elas podem sair do automático. O desacelerar tem a ver com se perguntar quando a velocidade faz sentido e quando ela não faz. Do ponto de vista coletivo, a gente precisa de uma sociedade que pise no freio’’, esclarece Michelle.

    O projeto atua na "formação e reflexão, mobilização e ativação de rede; e produção e curadoria de conteúdo relacionado ao universo do slow’’. O papel do Desacelera é forte em São Paulo. Sobre isso, Michelle conta que, a partir de depoimentos que recebe, é possível observar que as pessoas aderem ao movimento porque algo muito extremo já aconteceu com elas. “Recebemos relatos de pessoas que viveram uma doença, uma situação de quase morte, sofreram um acidente ou que perderam alguém muito querido. São situações que levam as pessoas a pensarem nas suas escolhas de tempo e no tempo como sinônimo de vida. Tempo é vida”, atesta.

    “Nós, do Movimento Slow, falamos que as pessoas não precisam deixar chegar a essas situações para pensarem na relação delas com o tempo. A gente não precisa esperar toda a sociedade adoecer para pensar que essa relação que a gente vem tendo com o tempo é insustentável, especialmente nas grandes cidades.’’

    Além disso, o Guia Desacelera SP apresenta os lugares na capital paulistana que relacionam-se com o movimento. Michelle Prazeres também é responsável pelo Dia Sem Pressa, primeiro festival de cultura slow no Brasil, e é apresentadora do podcast Desacelera.

    Mas a iniciativa, como diz a própria Michelle, precisa ser mais do que uma prescrição, e sim um manifesto para toda sociedade. Fomenta no seu cotidiano e no de muitos outros um ritmo mais saudável: "É possível a gente ter mais consciência em nossas escolhas com o tempo. Ficar mais perto da natureza, valorizar a infância como o tempo do brincar, não antecipar as outras fases da vida, ver na saúde uma questão do bem estar, ter uma relação mais saudável com as telas e as tecnologias, de modo que você tenha as rédeas dessa situação e não se sinta refém dos dispositivos”.

  2. 2. A pressa - realmente - é inimiga da perfeição

    "O nosso século, que se iniciou e tem se desenvolvido sob a insígnia da civilização industrial, primeiro inventou a máquina e depois fez dela o seu modelo de vida. Somos escravizados pela rapidez e sucumbimos todos ao mesmo vírus insidioso: a Fast Life, que destrói os nossos hábitos e penetra na privacidade dos nossos lares.” O trecho anterior foi retirado do "Manifesto Slow Food’’, escrito por Folco Portinari em 9 de novembro de 1989. O Movimento Slow é mais antigo e abrangente do que imaginamos.

    No coração de Roma, um protesto contra a abertura de uma unidade do McDonald’s dá origem a um movimento internacional. As escolhas que envolvem a alimentação humana são atos políticos. O fast food é o arqui-inimigo do slow food, que, contrariando a ideia de aceleração, prega a valorização do “comer” e entende que essa questão envolve relações afetivas, respeito à natureza e o prazer da boa comida.

    Entretanto, o movimento não se esgota nessa vertente. Em mais de três décadas, ele evoluiu e expandiu-se para diversas áreas da vida, como a moda (slow fashion), educação (slow education), medicina (slow medicine) e arquitetura (slow home), por exemplo.

    Seus campos tem a mesma essência: funcionam como resistência ao imperativo da velocidade. A cultura acelerada é criação humana, se faz latente em todos os segmentos sociais do público ao privado. Para o Movimento Slow, só precisamos fortalecer a oposição.

  3. 3. Ser > Ter

    O Movimento Slow precisa ir além do individual. Para assim ser concretizado, por meio de ações efetivas. “Quando a gente olha só para o individual, a gente deixa de olhar para uma parte muito importante da sociedade: a cultura e a política que sustentam o mundo acelerado”, lembra Prazeres.

    “O Movimento tem tentado construir uma conscientização do ponto de vista das pessoas, mas também uma ação do ponto de vista coletivo. A importância do Movimento Slow para o indivíduo e para coletividade é que ele alerta que esse ritmo que estamos vivendo é insustentável, e que precisamos desacelerar se quisermos recobrar os sentidos e a nossa humanidade. Construir um mundo em que as pessoas fiquem menos doentes, porque o extremo da aceleração são as doenças causadas por ela’’, finaliza.

    Provavelmente em seu círculo social a agilidade é vista como uma virtude. Claro, isso não seria estranho considerando que o culto à velocidade é um valor enraizado em nossa sociedade. Porém, não deixa de ser problemático.

    Retomo minha pergunta do início: você está exausto? Se a resposta for afirmativa, já pensou em rever sua relação com o tempo?

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The article above was edited by Bruna Sales.

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