Vida real x Ficção
Há 25 anos atrás, em uma terça-feira aparentemente comum, ocorreu o maior ataque terrorista do século 21. Em 11 de Setembro de 2001, quatro aviões comerciais americanos foram sequestrados durante um ataque da rede terrorista Al-Qaeda, comandada por Osama Bin Laden. Dois deles foram jogados pelos sequestradores em direção às Torres Gêmeas, destruíndo completamente os edifícios. O resultado? quase 3 mil mortes e o trauma para toda uma geração que acompanhou ao vivo os ataques se desenrolarem.
Mas já imagina o quão desesperador seria estar em pleno vôo durante os ataques e além de não poder entender porque o avião estava fazendo um pouso de emergência, você ficasse presa por dias em uma pequena ilha canadense isolada, junto com outras 7.000 pessoas? Pois é, isso realmente aconteceu e a história real virou até um musical da Broadway.
A história chega aos palcos brasileiros e se apresentará durante o aniversário de 25 anos do 11/09
“Come From Away” ou na versão brasileira “Vindos de Longe”, é um musical biográfico da Broadway e ganhador de grandes prêmios como o Oliver Awards 2019 de Melhor Novo Musical e o Drama Desk Awards em 2017 de Musical de Destaque. Ele conta a história dessa tripulação que ao realizar o pouso de emergência na ilha canadense isolada Gander, Terra Nova, durante os ataques de 11 de Setembro, viram suas vidas viradas de cabeça para baixo de repente. A ilha viu seu número de habitantes praticamente dobrar do dia pra noite com a chegada dos 38 aviões no pequeno aeroporto local, durante a chamada “Operação Laço Amarelo” (Yellow ribbon operation). Durante a estadia, o acolhimento dos habitantes locais foi extremamente caloroso e gerou a criação de vínculos entre todos (passageiros e moradores locais) que superam o caos, medo e diferenças entre qualquer um.
O elenco brasileiro, composto por nomes renomados dos grandes musicais como Saulo Vasconcelos, Andreza Mazzei e Thaís Piza, contam por meio da arte a história de resiliência e superação vivida pelos cidadãos de Gander. A história, além de ter belas músicas e texto emocionante, fica exponencialmente mais emocionante cada vez que o público é lembrado que os eventos e personagens realmente existiram. Os eventos narrados na trama realmente ocorreram e marcaram profundamente a história e o rumo de todos os envolvidos.
Sonho que virou pesadelo
Beverly Bass, primeira pilota feminina da história dos Estados Unidos, estava no comando de um dos aviões que precisaram parar a viagem e se abrigar na ilha de Gander. O avião era o Boeing 777 que estava no meio de sua trajetória quando foi forçado pela companhia aérea a fazer um pouso de emergência.
Desde criança, Beverly sonhava em viajar o mundo e de ser uma grande pilota, algo inusitado e visto como impossível para sua época. Foi quebrando barreiras, sofrendo com comentários misóginos de seus comandantes e se dedicando cada vez mais a profissão que ela conseguiu seu lugar no comando.
Durante uma das músicas mais conhecidas e emocionantes do show, Me and the Sky (Eu e o Céu na versão brasileira), a pilota começa contando sua trajetória e paixão pela aviação e termina a música refletindo sobre a dor e desamparo que ela estava sentindo naquele momento ao ver seu maior aliado e amor, o avião, ser usado como uma arma contra pessoas inocentes.
Além de ser uma profissional marcante, Beverly vai além de suas funções obrigatórias e faz de tudo para conseguir proteger e ajudar sua tripulação e passageiros. Seu protagonismo mostra que a força feminina, muitas vezes menosprezada ou diminuída, faz uma diferença brutal, principalmente na organização e planejamento em situações críticas como essa.
Islamofobia: questão crucial é abordada na peça
Durante a história, um ponto importante é abordado: a islamofobia. Por conta do ataque às torres gêmeas ter sido feito por uma rede terrorista islâmica, criou-se essa visão preconceituosa no imaginário da população de que todo indivíduo islâmico ou muçulmano era terrorista.
Um dos passageiros do avião é Ali, um muçulmano que sofre com discriminação dos policiais ao desembarcar da ilha, sendo revistado múltiplas vezes de forma invasiva e tendo que participar de interrogatórios, sendo que esses procedimentos não foram adotados para qualquer outro passageiro.
Por conta de sua nacionalidade, além das revistas, Ali sofre com o isolamento dos outros passageiros, porque todos querem ficar longe dele por conta do medo da “ameaça terrorista”.
Ao longo do show, vamos descobrindo que na verdade ele é totalmente inofensivo e amigável, ajudando na cozinha do abrigo por ser um grande chef de cozinha.
Sua história mostra que a empatia e respeito são a melhor defesa contra as armas que o medo e o preconceito apontam em nossas direções, principalmente em momentos de tensão e ódio.
Amor e amizade podem crescer mesmo em meio à tragédias
Apesar das tragédias e desespero por conta do isolamento e sensação de impotência, os laços humanos criados durante essa estadia forçada na ilha se fortalecem, superando a simples tolerância. Depois de diversos dias de tristeza, indignação e choque, para animar os passageiros ilhados, eles realizaram o tradicional ritual folclórico de “se tornar cidadão de gander” que envolve usar trajes típicos da região (chapéu de pescador e botas de borracha), comer o bife da Terra Nova, fazer o juramento tradicional, virar um shot de rum local e beijar um peixe! Isso memo! A situação gerou descontração e fortaleceu os vínculos de todos em meio à toda tensão vivida entre esses dias de estadia na ilha.
E por incrível que pareça, até um romance começa a se desenrolar durante esse tempo. Essa é a história do casal Nico e Diane Marson, que depois de se conhecerem em um abrigo em Gander nunca mais se separaram. Apesar de morarem na época em lugares distantes, Nick na Inglaterra e Diana em Texas, isso não superou o amor que passaram a sentir um por o outro e continuam juntos desde então.
Agora, importante: Como ir conferir o show?
A produção se apresenta de quinta à domingo (quinta e sexta às 20h30, nos sábados às 17h e 20h30 e domingos somente às 17h), no Teatro Ruth Escobar.
Fui prestigiar essa produção lindíssima e recomendo fortemente, não só pelo elenco estelar, músicas e cenas de encher a alma, mas também para refletir sobre o impacto do 11 de setembro na história e sobre como os laços humanos de amor superam a força do ódio.
Agora, vamos comprar a pipoca e sentar em nossos assentos que o show está prestes a começar!
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The article above was edited and translated by Ana Beatriz Carvalho Sapata.
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