O filme La La Land: Cantando Estações volta às telas do cinema em comemoração aos dez anos de seu lançamento. Indicado a 14 categorias no Oscar de 2017, a montagem dirigida por Damien Chazelle igualou recordes históricos em premiações, e concedeu à Emma Stone e Ryan Gosling papéis memoráveis e marcantes dentro da história do cinema.
La La Land recebeu 91% no Tomatometer do Rotten Tomatoes e tem uma legião de fãs que defendem fielmente o filme. Entre tatuagens de frases marcantes ou da famosa pose do cartaz, artigos no Substack e posters na parede, o musical de Chazelle toca a todos que a assistem, para o bem ou mal. E mesmo após dez anos de seu lançamento, ele continua encantando.
A pergunta que cabe é: por que mesmo após uma década, La La Land continua impactando a ponto de se tornar um clássico?
Um retrato de momentos cruciais que alteram o curso da nossa vida
Publicado na Revista Veja em 2017, a jornalista e crítica de cinema Isabela Boscov define o musical como ‘fluxo inexorável de sucesso e perda’: “É a essência destilada da cidade em que uns poucos sonhos se realizam enquanto muitos mais são pisoteados”, comenta.
Em La La Land, acompanhamos personagens que vivem para alcançar o seus desejos: Mia (Emma Stone), uma aspirante a atriz que entre os seus turnos na cafeteria da Warner Bros, realiza milhares de audições para papéis na TV e cinema; e Sebastian (Ryan Gosling), um pianista apaixonado pelo jazz que sonha em ter seu próprio espaço para compartilhar essa paixão. Quando o casal se conhece, a faísca é instantânea, porém frágil, já que os sonhos que ambos trabalharam tanto para alcançar continuam a levá-los a caminhos diferentes, longe um do outro.
Sebastian não quer que sua identidade desapareça, sendo relutante a mudanças. Enquanto Mia quer ser vista, ser autêntica e reconhecida. E enquanto eles dividem espaço ao decorrer das estações do ano, o seu amor torna-se uma balada de ambição e perda.
O filme é uma carta aos sonhadores, à música, aos musicais e à sensação agridoce que a vida é. Apesar de romantizar a cidade de Los Angeles, tornando-a teatral, com cores que se misturam e parecem cenário de um sonho, o musical se recusa a dar respostas fáceis ao relacionamento dos protagonistas: Mia e Sebastian se amam profundamente, porém, tornar-se uma nova versão de si mesmo e almejar grandes coisas, significa também deixar essa paixão partir e escolher futuros diferentes. Dilema que, misturado com a magia do cinema, torna o filme atemporal.
Afinal, um grande amor, como dos personagens de Stone e Gosling, nem sempre cabe nos sonhos que projetamos para nós mesmos. Em meio a desentendimentos e compromissos, os personagens tornam-se versões de si mesmos que não cabem dentro dessa relação.
E isso, como espectador, é duro de assistir, ainda mais quando, em determinado momento do filme, vemos o que a vida deles poderia ter sido se as coisas fossem diferentes. Porém, explorar temas como esses faz parte da mensagem principal do filme.
Cores, cenários e melodias que falam mais que mil palavras
Em 2017, a BBC publicou um artigo sobre os motivos pelos quais La La Land estava fazendo história. O jornalista Nicholas Barber comentou como não é comum comédias românticas ganharem destaque no Oscar, especialmente em categorias como melhor fotografia, a qual é dominada por filmes ‘de horror, que tratam sobre pobreza e guerra’.
No filme, a cidade de cenário do longa, Los Angeles, transborda em música, cor e fantasia. Quando entrevistados sobre a montagem, o diretor de fotografia, Linus Sandgren, e a figurinista, Mary Zophres, comentaram sobre como os elementos criativos do filme são intencionais. As cores, os detalhes nos cenários: tudo foi cuidadosamente colocado de modo a refletir o estado emocional dos personagens.
O instagram do CinemaHow, especializada em análises cinematográficas, realizou uma série de análise sobre as cores usadas no filme: “Mia é apresentada azul, não só em suas roupas, mas nos cenários que a rodeiam. Sebastian, por outro lado, é introduzido usando vermelho. Quando os dois se juntam ao som de “A Lovely Night”, o céu está roxo, representando a combinação de seus mundos e sua paixão florescendo. À medida que o casal se conhece melhor, Mia passa a ter sutis tons de vermelho em seu vestuário. O verde surge para representar os obstáculos ao seu relacionamento: o namorado de Mia no começo do filme (já que verde é a cor oposta a vermelho) e no final do seu relacionamento, através das luzes da sala”.
Esse é apenas um dos vários casos de usos de cor como elementos narrativos no filme, provando a profundidade guardada no musical que, a cada vez que é re-assistida, ganha novos significados e detalhes únicos. Além disso, La La Land faz referência direta a alguns musicais clássicos do cinema, seja ao recriar cenas ou por pôsteres nos quartos dos protagonistas.
A realidade e o paradoxo da ambição
Outro motivo pelo qual La La Land ressoa após uma década de seu lançamento é a construção dos personagens que, apesar de únicos, parecem tão reais e identificáveis. Uma das cenas mais marcantes do filme é o monólogo da Mia quando Seb a visita na casa dos pais.
Nesse momento, Mia sente como se ela não merecesse seus sonhos, sendo incapaz de alcançá-los. Apesar de serem apresentados como secundários, temas de insegurança e inadequação permeiam o musical, uma vez que conta a história de artistas que procuram seu lugar em uma realidade que não vê a arte com tanta relevância assim.
No entanto, mesmo diante das dificuldades, Mia e Sebastian inspiram-se um no outro, apoiam-se um no outro para alcançar os seus sonhos e uma vez interligados, a vida dos protagonistas nunca mais foi a mesma.
No fim, para conseguir o que queriam o custo foi eles mesmos. O mais próximo que eles chegaram do que almejavam, mais afastados Mia e Sebastian estavam. Esse é o principal motivo pelo qual La La Land emociona: o musical mostra o paradoxo da ambição daqueles que ousam sonhar no mundo real. Apesar de permeado por magia, o filme constrói uma relação com o tempo: nem sempre o amor — retratado com suas imperfeições e perfeições na montagem — segue o mesmo caminho que nossos sonhos.
Dez anos depois…
O filme possui um final polêmico, e há quem ame ou odeie. Porém, dez anos depois de seu lançamento, a mensagem principal passada por ele está na simples frase “e se”. O que poderia ter acontecido com Mia e Sebastian se eles tivessem tomado outro rumo?
O musical mostra que alguns momentos são decisivos na nossa vida e que certas pessoas nos deixam marcas permanentes, mesmo que esse alguém não esteja conosco no final; nem tudo é para ser “para sempre”. Sucesso demanda sacrifícios e, por muitas vezes, é preciso deixar algumas coisas pra trás.
Como escrito em uma análise do filme por um fã: “sometimes becoming who you’re meant to be means letting go of the person who helped you get there” (realmente o que acontece no final do filme, quando Mia e Seb se reecontram e compartilham as últimas notas de sua música tema).
Mia e Sebastian iriam se amar para sempre. Seja pelas mudanças que eles provocaram um no outro, seja pelos momentos vividos. Entre amor e ambição, o sentimento compartilhado por eles não desaparece, mas existe apesar de tudo. E é isso que La La Land tenta mostrar através de cores, melodias e desencontros que, dez anos depois, ganham novos significados para aquele que assiste.
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O artigo acima foi editado por Beatriz Martins.
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