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A romantização da doença em busca da magreza

Ana Clara Dalla Costa Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Perder peso rapidamente costuma ser visto como motivo de celebração. Elogios, comentários positivos e curtidas nas redes sociais muitas vezes aparecem antes mesmo da pergunta mais importante: a pessoa está saudável? Em uma sociedade obcecada pela magreza, sintomas de adoecimento físico e emocional frequentemente são confundidos com disciplina, autocuidado e sucesso.

Vídeos publicados em redes sociais como TikTok e Instagram vêm exaltando a magreza extrema e apresentando o adoecimento como um caminho para alcançar o chamado “corpo ideal”. Esse tipo de conteúdo estimula comportamentos prejudiciais à saúde e contribui para a banalização da anorexia, um transtorno alimentar grave e potencialmente fatal.

A PRESSÃO ESTÉTICA CONTEMPORÂNEA

A estética caracterizada por modelos com rostos secos e ossos protuberantes foi tendência em 1990 até o início dos anos 2000, mas, nos últimos anos, foi deixada para trás e deu espaço para um movimento de positividade do corpo que celebrava as curvas e diferenças. 

No entanto, a magreza extrema voltou ao centro dos holofotes recentemente. Impulsionada por “trends” nas redes sociais, a valorização dos corpos cada vez mais magros passou a ocupar novamente as discussões sobre beleza e estilo de vida. Vídeos que mostram rotinas alimentares restritivas, metas de perda de peso acelerada e transformações corporais radicais acumulam milhares de visualizações, especialmente de adolescentes e jovens adultos. Além disso, na maioria das vezes, a perda de peso é elogiada sem que a causa seja questionada.

Esse retrocesso deixa especialistas preocupados, porque enquanto movimentos de aceitação corporal defendem a diversidade de formas e tamanhos, esses conteúdos reforçam padrões estéticos inalcançáveis e continuam ganhando visibilidade e comprometendo a saúde física e mental de muitas pessoas. 

HOLLYWEIRD E SUA INFLUÊNCIA

O Hollyweird – junção de Hollywood com “weird” (estranho em inglês) – foi o nome dado para o evento que gera preocupação no público: a magreza extrema como ideal estético entre as celebridades. 

Nos últimos meses, fotos de personalidades como Ariana Grande, Demi Moore e Jenna Ortega começaram a circular na internet e levantaram inquietações acerca da popularização de silhuetas cada vez mais enxutas.

Embora nem sempre seja possível afirmar as causas das mudanças corporais de figuras públicas, a repercussão em torno dessas imagens revela uma questão maior: a sociedade continua associando magreza a beleza, saúde e autocontrole. Quando corpos extremamente magros recebem atenção, elogios e ampla cobertura midiática, reforça-se a ideia de que esse padrão é desejável, mesmo quando pode estar relacionado a condições de saúde físicas ou emocionais desconhecidas pelo público.

O fenômeno não acontece apenas em Hollywood. As imagens produzidas pela indústria do entretenimento acabam circulando em redes sociais, servindo de referência para milhões de pessoas que passam a comparar seus próprios corpos a padrões muitas vezes inalcançáveis.

A MAGREZA COMO SINÔNIMO DE VALOR PESSOAL

A exposição constante a imagens de corpos extremamente magros também afeta a forma como as pessoas enxergam a si mesmas. Em uma sociedade que associa aparência física a sucesso e reconhecimento, a perda de peso costuma ser celebrada antes mesmo que suas causas sejam questionadas.

Para o doutor em psicologia social e psicanalista Antonio Fernando Gomes Alves, essa percepção de que emagrecer significa automaticamente ser saudável impacta a imagem corporal e a autoestima do indivíduo, que é construída – em grande parte – a partir da relação com os outros e do reconhecimento social que recebe. A peça-chave para um corpo ideal é a aprovação alheia, que se tornou um indicador de valor pessoal.

A perda de peso comemorada através do adoecimento mascara fraturas no equilíbrio psíquico do sujeito.

“A pergunta fundamental que cabe ao sujeito é: como você quer ser visto por si mesmo? Quando permitimos que o outro legisle sobre o nosso corpo e sobre o nosso prazer, deixamos de viver à nossa própria maneira para viver à maneira do outro.”, constatou ele.

A dificuldade para identificar os sinais de mal estar físico e psicológico também pode ser um problema. Para o psicanalista, o fato de o sujeito não ter consolidado para si quais são seus traços essenciais que constroem a sua identidade e personalidade é um dos maiores obstáculos.

“Embora a identidade seja forjada nas relações sociais, na convivência familiar e comunitária, cabe ao indivíduo identificar o seu ponto de equilíbrio e aquilo que verdadeiramente lhe proporciona serenidade”, afirmou Antonio Fernando.

A romantização das doenças em busca do emagrecimento começa com o consumo de conteúdos na internet que normalizam e, muitas vezes, glorificam o adoecimento ao associá-lo à perda de peso. Frases como “fiquei doente, mas tudo bem porque perdi peso” reforçam a ideia de que emagrecer pode compensar os prejuízos à saúde. Esse comportamento pode se intensificar quando a exposição a esses discursos contribui para a distorção da própria imagem e para a insatisfação com o corpo, fazendo com que o emagrecimento passe a ser visto como uma necessidade, mesmo que isso coloque a saúde em risco.

A busca por ajuda de psicólogos e profissionais competentes é indispensável para resgatar a própria identidade e estabelecer uma relação saudável consigo mesmo. 

A DOENÇA COMO FORMA DE EMAGRECER

Quando o número na balança se torna mais importante do que o funcionamento do organismo, comportamentos perigosos podem deixar de ser percebidos como sinais de alerta. Em vez de reconhecer os limites do próprio corpo, muitas pessoas passam a enxergar a privação como uma demonstração de comprometimento, abrindo espaço para transtornos alimentares cada vez mais severos, banalizando doenças que podem ser fatais.

Entre eles está a anorexia nervosa, uma doença que é um tipo de transtorno alimentar caracterizado pela restrição persistente da ingestão de alimentos pelo medo intenso de ganhar peso e pela distorção da própria imagem corporal. Embora seja uma doença grave, capaz de comprometer praticamente todos os sistemas do organismo, seus sintomas muitas vezes são confundidos com hábitos considerados admiráveis, como rígido controle alimentar, longos períodos sem comer e perda acelerada de peso.

De acordo com a nutricionista Dra. Cássia Nascimento Oliveira, um dos principais sinais de que a alimentação deixou de cumprir sua função de nutrir é a presença de regras cada vez mais restritivas. A exclusão de grupos alimentares inteiros, os jejuns prolongados, a prática de exercícios como forma de compensação e a culpa após as refeições indicam uma relação desequilibrada com a comida.

“A alimentação baseada no medo é guiada pela punição e restrição, se o ato de comer gera pânico, culpa ou isolamento social, deixou de ser saudável e virou uma disfunção, independentemente de quão ‘limpo’ ou nutritivo o prato pareça”, afirmou Cássia.

A especialista explica que a idealização de corpos extremamente magros altera a forma como as pessoas interpretam as necessidades básicas do organismo. Nesse cenário, fome e saciedade deixam de funcionar como referências naturais, enquanto a alimentação passa a ser guiada por proibições, cálculos e controle excessivo. O resultado é um afastamento progressivo da própria percepção corporal.

As consequências, porém, não demoram a aparecer. A redução drástica da ingestão alimentar pode provocar perda de massa muscular, alterações hormonais, interrupção do ciclo menstrual, enfraquecimento ósseo, queda de cabelo, fadiga constante e complicações cardiovasculares. Ainda assim, muitos desses sinais são ignorados porque o emagrecimento continua sendo visto como evidência de sucesso.

“Quando focamos apenas na balança, transformamos a comida em uma inimiga e geramos adoecimento físico e psíquico”, afirma a nutricionista. Para ela, a alimentação deve ser compreendida como uma ferramenta de cuidado e manutenção da vida, e não como um mecanismo de punição voltado à obtenção de um determinado padrão corporal.

JEJUM, EXERCÍCIO E CONTROLE: OS RISCOS DOS EXTREMOS  

A nutricionista especializada em transtornos alimentares Lara Novaes alerta que a obsessão pela perda de peso pode levar à adoção de estratégias cada vez mais rígidas. Entre elas estão os jejuns prolongados, a eliminação desnecessária de alimentos e o uso da atividade física como ferramenta de compensação. Embora essas práticas sejam frequentemente divulgadas como atalhos para transformar o corpo, seus impactos nem sempre são discutidos com a mesma intensidade.

No caso do jejum, a especialista explica que a privação alimentar costuma ser apresentada como solução simples para o emagrecimento, mas pode resultar em uma relação conflituosa com a comida. Longos períodos sem se alimentar tendem a aumentar a preocupação com a alimentação, favorecer episódios de compulsão e dificultar a percepção dos sinais naturais de fome. 

“Minha prática profissional defende o acolhimento compassivo dos sinais biológicos. Se o estômago ronca, se há cefaléia ou sensação de esgotamento físico, é o organismo clamando pelos nutrientes indispensáveis à sua sobrevivência. Reprimir esses sinais vitais constitui uma agressão; o emagrecimento sustentável pode e deve ser construído sem recorrer à violência contra si mesmo”, afirmou Lara Novaes.

Situação semelhante ocorre com os exercícios físicos. A prática regular está associada a diversos benefícios para a saúde, mas perde seu caráter positivo quando se transforma em obrigação inegociável ou punição. Treinar para compensar refeições (‘vou comer porque treinei’ ou ‘preciso treinar dobrado para queimar o que ingeri’), sentir culpa ao descansar ou ignorar dores e limitações do próprio corpo são comportamentos que merecem atenção.

“É comum associar distúrbios como a bulimia apenas a vômitos e laxantes, mas o exercício físico compulsivo e punitivo é uma de suas manifestações mais frequentes”, apontou a nutricionista.

Segundo Lara, um dos aspectos mais preocupantes dos transtornos alimentares é que eles nem sempre são identificados rapidamente. Muitas vezes, hábitos prejudiciais recebem elogios justamente porque produzem resultados visíveis em curto prazo. Enquanto a aparência é celebrada, alterações importantes na saúde física e mental podem passar despercebidas.

Para a nutricionista, a prevenção começa pela ampliação do conceito de saúde. Mais do que observar o peso corporal, é necessário considerar fatores como disposição para as atividades diárias, exames laboratoriais adequados, boa relação com a alimentação, sono de qualidade, convívio social preservado e prática de exercícios sem sofrimento. “A saúde é um projeto amplo que ultrapassa o reducionismo da balança”, destaca.

Em um cenário marcado pela valorização de resultados rápidos, especialistas defendem que o verdadeiro cuidado com o corpo não deve ser medido pela capacidade de suportar restrições, mas pela construção de hábitos que possam ser mantidos sem causar prejuízos físicos, emocionais ou sociais. Afinal, quando o sofrimento passa a ser visto como requisito para emagrecer, o objetivo deixa de ser saúde e passa a ser apenas a aparência.

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O artigo acima foi editado por Julia Galoro.  

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