O novo longa-metragem do diretor Na Hong-jin estreou nos cinemas brasileiros no dia 8 de outubro. Após a passagem pelo Festival de Cannes e a conquista da maior abertura de um filme sul-coreano nos Estados Unidos, Hope – O Primeiro Impacto chegou às telonas brasileiras com distribuição da Imagem Filmes em parceria com a MUBI.
Sua trama se inicia de forma relativamente contida, quando um animal aparece brutalmente mutilado em Hope, uma vila remota localizada próxima à Zona Desmilitarizada, faixa que separa as duas Coreias desde 1953. Por ser uma península onde a natureza cresceu sem muita interferência humana, o folclore de predadores que ainda circulam naquele local é muito grande, fazendo com que o grupo que encontrou o animal relate ao delegado, Bum-seok (Hwang Jung-min), que poderia ter sido um animal das montanhas.
A partir desse acontecimento, Bum-seok começa a investigar o que pode ter realizado tal ato, enquanto os moradores da vila já começam a perceber que há algo que não pertence àquele local. É interessante a forma como o diretor apresenta esses fatos no começo da trama, pois ele não demonstra a verdadeira natureza da ameaça, causando um clima de suspense cativante. Em vez de depender de um monstro concreto logo no início, o longa utiliza efeitos sonoros, como ruídos, e a fotografia percorrendo as ruas da vila, fazendo com que o espectador fique na esperança da descoberta, tal qual os personagens.
A caracterização e comédia
Durante o filme observamos um humor não convencional, aparecendo em momentos de violência e tensão. Os atores fazem um ótimo papel alternando entre a comicidade e o terror, principalmente Hoyeon, que interpreta o papel da policial novata, Sung-ae, que auxilia Bum-seok a apurar o caso.
A personagem vai ganhando espaço e visibilidade ao longo da trama. Ela carrega a função de trazer uma presença feminina à obra, tentando fugir minimamente dos papéis tradicionais em que o homem sempre deve ser o “herói” em filmes de ação. A trama não esclarece que essa é a função da personagem, mas a maneira como ela é inserida na narrativa influencia a essa afirmação.
O excesso de ação
Diferente do suspense presente nos primeiros 30 minutos de filme, o resto do longa é tomado por uma exceção dramática de tiroteios, perseguições e explosões. De um momento para o outro, o filme deixa de ser um suspense e se torna uma ação constante, aumentando drasticamente a escala da história em um curto período. O longa-metragem tem 2 horas e 40 minutos de filme, então, a partir do momento em que sua segunda metade tem um ritmo mais pesado, a sensação de exagero cresce juntamente.
É aí que nasce o maior problema da obra.
Quanto mais conflitos e monstros o filme adiciona, menos aquilo se torna interessante para o espectador. No decorrer dessa trama crescente, o filme vai necessitando cada vez mais de efeitos digitais e cenas de ação, fazendo com que a qualidade desses efeitos vá decaindo em diversas cenas. Quando a forma da criatura que estava ameaçando a vila era desconhecida, ela aparentava ser mais assustadora e profunda do que quando se torna uma figura completamente exposta por efeitos especiais e tecnologia.
A reflexão inicial do diretor está presente na obra?
Para Na Hong-jin, “Todas as tragédias do mundo nascem do mal-entendido, Hope avança para contar essa história de um jeito envolvente, sem cair na tragédia. Embora o público possa sentir que está assistindo a uma obra empolgante de ação ou ficção científica, ele certamente sairá com algo para refletir: a gravidade da situação torna impossível encará-la como puro entretenimento.” A obra tenta demonstrar que o problema inicial parte de um mal entendido do porque o monstro invadiu a vila, mas em algumas partes peca em tentar trazer esse fato a tona.
Muito do significado das criaturas no filme vem do medo que sentimos diante do que não compreendemos, do desconhecido, mas, ao mesmo tempo, a segunda parte do longa sente a necessidade de querer explicar e deixar claro o que no início funcionava de maneira mais coerente como um mistério. A ambiguidade que foi inserida no início da trama perde todo o seu poder e vai ficando extremamente raso até a conclusão do filme. O título “Hope” pode trazer um significado maior do que apenas a esperança de sobrevivência dos personagens, mas sim, a necessidade humana de acreditar que a algo profundo e que faça sentido por trás do desconhecido
Hope: O Primeiro Impacto é um filme que funciona melhor nos momentos de mistério e confusão, quando tenta deixar claro o que está acontecendo, perde muita força que havia conquistado no início, porém, o longa-metragem não deixa de ser um filme cativante e significativo que merece ser aclamado pelo público.
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O artigo acima foi editado por Larissa Olm.
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