Neste mês, campanhas de conscientização sobre câncer de mama ganham força. O laço rosa passa a aparecer em diferentes espaços, simbolizando uma mobilização que vai além da visibilidade: o incentivo à informação, ao diagnóstico precoce e ao cuidado com a saúde. A campanha também busca alertar a população sobre os sinais e os fatores de risco da doença, além de incentivar o acompanhamento da saúde ao longo do ano.
A doença corresponde a 30% dos casos novos de câncer estimados entre as mulheres brasileiras, excluindo os tumores de pele não melanoma. O câncer, de modo geral, também se aproxima das doenças cardiovasculares como uma das principais causas de morte no país. Segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar quase 79 mil novos casos de câncer de mama por ano no triênio de 2026 a 2028. Os números reforçam a importância da informação, da detecção precoce e do acesso oportuno aos serviços de saúde.
Conhecer para prevenir
A campanha do Outubro Rosa surgiu nos Estados Unidos e ganhou espaço no Brasil a partir de iniciativas de conscientização realizadas no início dos anos 2000. O Obelisco Mausoléu ao soldado Constitucionalista, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, foi o primeiro monumento iluminado com a cor rosa. A iniciativa contribuiu para ampliar a visibilidade do movimento no país, que passou a mobilizar instituições públicas e privadas.
Embora o tema exija atenção contínua ao longo de todo o ano, o mês de outubro se consolidou como um período das ações de conscientização.
Conhecer os sinais da doença é importante para reconhecer alterações suspeitas e buscar atendimento médico. O câncer de mama ocorre quando as células anormais da mama se multiplicam de forma desordenada e formam um tumor maligno, que pode invadir tecidos próximos e atingir outras partes do corpo.
O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres no mundo, mas também pode afetar homens. Conhecer o próprio corpo e procurar avaliação médica diante de alterações suspeitas são medidas importantes para a detecção precoce.
Entre os principais sinais e alterações que merecem atenção estão:
- Alterações no mamilo (inversão, vermelhidão e secreção).
- Alterações na pele da mama.
- Mudança no formato, tamanho ou inchaço.
- Sinais na axila ou acima da clavícula (presença de gânglios na axila ou acima da clavícula).
- Nódulo na mama ou axila: Geralmente é fixo, endurecido, indolor e com bordas irregulares (pode variar).
A atenção ao próprio corpo não substitui a avaliação médica nem os exames recomendados conforme a idade, o histórico e as condições, mas faz parte do autocuidado. Diante de qualquer alteração suspeita, é importante procurar atendimento médico. O diagnóstico precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento e melhorar o prognóstico.
O caminho até o diagnóstico
Embora a detecção precoce esteja associada a melhores perspectivas de tratamento, o caminho até a confirmação da doença ainda pode ser marcado por barreiras, como o medo do resultado, as dificuldades de acesso aos serviços de saúde ou até mesmo a demora na realização de exames.
O Brasil está longe das metas ideais de prevenção, segundo a OMS, para que o rastreamento por mamografia reduza significativamente os índices de mortes, é preciso examinar 70% da população-alvo para obter uma redução de 30% na mortalidade por câncer de mama. No entanto, hoje no Brasil a cobertura é limitada, sendo possível apenas 24%, ou seja, uma boa parcela da população afetada não é identificada, fazendo com que a maioria dos casos seja descoberta apenas após o aparecimento de sintomas, quando o tratamento se torna mais agressivo.
A demora entre a suspeita e a confirmação do diagnóstico pode estar relacionada a diferentes fatores, desde o receio de realizar exames até as dificuldades de acesso à assistência médica. De acordo com a mastologista Dra. Thamyse Dassie, formada em Medicina na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), algumas mulheres podem ter medo do diagnóstico ou da dor durante exames. A médica também chama para as dificuldades de acesso ao atendimento e à continuidade de investigação.
“Fazer a mamografia é o ponto inicial, mas um exame feito que fica na gaveta é um exame não feito. Descobriu que tem alguma coisa? Precisa de biópsia”, afirma.
A demora entre a suspeita e a confirmação também levanta questões sobre o cumprimento dos prazos legais para a investigação e o início do tratamento. A Lei nº 13.896/2019 estabelece o prazo de 30 dias para a realização dos exames necessários à elucidação diagnóstica, nos casos previstos na legislação e mediante solicitação médica fundamentada. Já a lei nº 12.732/2012 determina que o primeiro tratamento de pacientes com câncer confirmado seja iniciado no SUS em até 60 dias após o diagnóstico registrado em laudo patológico, ou antes, conforme a necessidade terapêutica.
Enfrentando o tratamento
O plano terapêutico para o câncer de mama é individualizado e definido de acordo com características do tumor, como seu tipo biológico e estágio da doença, além das condições clínicas da paciente. Dependendo do caso, o tratamento pode combinar diferentes abordagens.
Entre as modalidades de tratamento estão as terapias locais, como a cirurgia e a radioterapia, que atuam na região tratada, e as terapias sistêmicas, como a quimioterapia, a hormonioterapia, a terapia-alvo e a imunoterapia. A indicação de cada modalidade depende das características da doença e da avaliação da equipe médica.
No cotidiano, o tratamento pode trazer desafios físicos, com efeitos colaterais que variam de acordo com a terapia utilizada e as características de cada paciente. Entre as possíveis reações estão fadiga, náuseas e vômitos, embora nem todas as pessoas apresentem os mesmos sintomas.
Nesse período, o acompanhamento nutricional e a prática de atividade física adaptada às condições da paciente, quando recomendados pela equipe de saúde, podem contribuir para a manutenção da qualidade de vida e da capacidade funcional.
O enfrentamento do câncer de mama envolve mais do que medicamentos e procedimentos médicos. O equilíbrio emocional e a preservação da autoestima também podem contribuir para a qualidade de vida durante o tratamento.
Além dos efeitos físicos, o diagnóstico pode afetar a identidade e o equilíbrio emocional. Para muitas mulheres, a queda dos cabelos e as transformações corporais provocadas pela quimioterapia ou por determinados tratamentos podem impactar a autoestima, a autoimagem e o bem-estar.
Para a professora de inglês Marilene Arruda, de 62 anos, a experiência foi diferente. Em 2015 descobriu que estava com câncer de mama e, segundo seu relato, procurou manter a calma e seguir com a rotina. Ela conta que não deixou de se arrumar e buscou preservar seus cuidados como forma de preservação da autoestima.
“Eu me arrumava e passava maquiagem para ir à quimioterapia porque sabia que lá encontraria pessoas com o astral caído. Eu queria demonstrar que estava bem e enfrentando o processo”.
A experiência de Marilene mostra como os cuidados pessoais podem ganhar novos significados durante o tratamento. Além do suporte clínico e psicológico, iniciativas sociais também podem oferecer acolhimento e contribuir para o bem-estar das pacientes. A ONG “De Bem com Você” exemplifica esse impacto ao oferecer oficinas gratuitas de automaquiagem para mulheres em tratamento oncológico.
As oficinas ajudam as participantes a lidar com mudanças na aparência e podem contribuir para a valorização da auto imagem, aleḿ de promover espaços de convivência e apoio.
No caso de Marilene, o adiamento inesperado da cirurgia de reconstrução mamária contribuiu para um período de sofrimento emocional. Meses depois, ela enfrentou ansiedade, depressão e síndrome do pânico. A busca por acompanhamento, com psicoterapia e psiquiatria, fez parte do processo de recuperação emocional e reforçou a importância do cuidado com a saúde mental durante o tratamento.
Hoje Marilene relata que está curada do câncer e faz questão de acolher mulheres que enfrentam experiências semelhantes às que ela viveu.
“O câncer é como aquela visita desagradável que vem na sua casa, mas vai embora. A doença não é moradora do seu corpo, ela apenas passa. Não é fácil, mas a gente precisa encontrar forças e confiar de que o dia seguinte vai ser melhor”, relata.
A história de Marilene mostra que o enfrentamento do câncer de mama não termina em outubro, assim como a conscientização não deve se limitar a um mês. Informação, diagnóstico oportuno, acesso ao tratamento e acolhimento precisam fazer parte dessa mobilização durante todo o ano.
—————————————-
O artigo acima foi editado por Júlia Sofia Barreira.
Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!