As fazendas de bots são redes físicas ou virtuais, estruturadas para gerar engajamento artificial com curtidas, visualizações, seguidores, comentários, compartilhamentos, downloads e cliques em grande escala, dentro das plataformas digitais, como o Instagram e o TikTok.
Essas estruturas podem ser físicas, em galpões ou salas equipadas com milhares de celulares que operam vários perfis nas redes; ou virtuais, operadas por infraestruturas na nuvem ou redes de computadores infectados (zombies) operados por scripts de automação ou modelos avançados de inteligência artificial para imitar comportamentos humanos de navegação. Como o tráfego é originado em celulares reais, ele burla os filtros de fraude e é contabilizado como interação genuína.
As fraudes mais comuns
Inflação de métricas: a prática mais comum é a compra de seguidores inexistentes por poucos reais, o que engana o algoritmo de recomendação e gera uma ilusão de relevância para criadores e marcas. Há também a compra sistemática de curtidas e comentários;
Fraude de publicidade digital: as marcas pagam por anúncios digitais, enquanto bots simulam a navegação humana nas redes, clicando e consumando conteúdos e propagandas para gerar um alcance inexistente;
Manipulação política: cria a falsa impressão de apoio ou rejeição espontânea a um determinado político ou pauta, amplificando a desinformação e aumentando a manipulação do debate público;
Fraude em streaming musical: perfis automatizados escutam em loop contínuo faixas nas plataformas como Spotify e Apple Music, manipulando os royalties (pagamentos feitos aos detentores dos direitos autorais a cada reprodução) da indústria musical.
A ilusão de influência
Todos os anos, anunciantes investem milhões de dólares no engajamento gerado por esses bots. Estudos da CHEQ e Juniper Research estimam que a fraude em anúncios digitais por tráfego falso custe às empresas mundiais mais de US$80 bilhões. Além disso, o relatório anual Imperva Bad Bot Report aponta que quase 50% do tráfego total da internet global é gerado por bots, sendo que os chamados “bad bots” (voltados a fraudes e golpes) representam cerca de 30% do tráfego mundial.
O investimento em fazendas de bots não é acidental: é consequência direta do modelo de negócios fundado na Economia da Atenção. As próprias plataformas digitais funcionam sob uma lógica que recompensa a velocidade e a densidade de métricas: ao entregar engajamento artificial nos primeiros minutos de uma publicação, a fazenda de bots “engana” o algoritmo para que este passe a distribuir o conteúdo organicamente para usuários reais.
Comprar pacotes de seguidores e engajamento criou o fenômeno dos “influenciadores de fachada”. Perfis com milhares de seguidores, curtidas e comentários automáticos construídos sobre redes de bots para que a taxa de engajamento pareça proporcional à audiência, capazes de enganar marcas e agências.
O Caso Devumi
Um dos casos mais emblemáticos de fazendas de bots é o Caso Devumi (ou The Follower Factory), que aconteceu em 2018 e foi revelado a partir da investigação jornalística do The New York Times.
A empresa americana Devumi, com sede na Flórida, vendia – por centavos de dólar cada – mais de 200 milhões de seguidores falsos no Twitter, Youtube, Linkedin e SoundCloud para mais de 200 mil celebridades, atores, políticos e atletas que buscavam aumentar sua popularidade e relevância digital. A empresa contava com pelo menos 3,5 milhões de contas automatizadas, das quais cerca de 55 mil delas utilizavam identidades roubadas de pessoas reais, incluindo nomes, fotos, profissão e localização.
O caso gerou um grande escândalo midiático e provocou forte reação de órgãos reguladores dos Estados Unidos. A empresa fechou as portas no mesmo ano após pressão das investigações e declínio nas vendas, além de receber uma penalidade financeira de US$2,5 milhões. A Procuradoria-Geral de Nova York estabeleceu que a venda de seguidores e curtidas falsas utilizando identidades roubadas constitui fraude e publicidade enganosa ilegal.
Mas e aí, como combater a fraude?
Esse sistema sofreu uma transição geracional a partir dos avanços tecnológicos. Inicialmente, operavam bots simples que apenas curtiam ou seguiam perfis sem foto e sem postagens, fáceis de identificar e banir por filtros algorítmicos. Atualmente, são criados perfis que geram biografias plausíveis, fotos hiper-realistas geradas por IA, capazes de comentar em matérias de forma contextualizada e humana, tornando-os muito mais difíceis de detectar. Com isso, a transparência deixa de ser uma escolha ética das marcas e criadores de conteúdo e passa a ser a única estratégia viável de manter relevância na economia digital.
Por conta disso, o mercado criou ferramentas para identificação de fraude: pico abrupto no gráfico de crescimento do perfil, discrepância geográfica entre o criador e o público, padrão de comentários e proporção irregular entre seguidores e visualizações de stories. Além de, periodicamente, a Meta (Facebook e Instagram) publicar seus relatórios Community Standards Enforcement, confirmando a remoção de mais de 1 bilhão de contas falsas a cada trimestre globalmente.
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O artigo acima foi editado por Giovana Lazarin.
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