Ao longo da história da música, o palco deixou de ser apenas o espaço onde os artistas se apresentam e passou a fazer parte do próprio espetáculo. Essa mudança aconteceu gradativamente e pode ser observada na evolução da cenografia e na grandiosidade das produções, que passaram a incorporar diferentes elementos e estratégias para aprimorar a experiência oferecida para o público.
Jimi Hendrix – Woodstock, 1969
Por volta das 9h da manhã do dia 18 de agosto de 1969, Jimi Hendrix subiu ao palco do Festival de Woodstock, um dos eventos musicais mais marcantes do século XX e símbolo da contracultura.
A estrutura era simples, inteiramente de madeira, e sem grandes elementos cenográficos como planos de fundo ou painéis decorativos. O palco contava apenas com uma plataforma rotativa, criada para agilizar a troca entre os artistas que se apresentavam, mas que acabou sendo pouco utilizada. Mesmo com uma infraestrutura limitada, o festival reuniu mais de 500 mil pessoas e se consolidou como um dos principais símbolos do movimento hippie.
Entre as apresentações dos três dias de evento, a de Hendrix ganhou destaque por sua interpretação dos Estados Unidos, “The Star-Spangled Banner”. A música foi apresentada de forma distorcida e psicodélica, dando-a novos significados em meio ao contexto político e social da época.
Pink Floyd (The Wall) – Los Angeles, 1980
A turnê The Wall, do Pink Floyd, marcou uma mudança significativa na importância da cenografia nos shows. Muito além de apresentar seu novo álbum, lançado em novembro de 1979, a banda transformou o palco em uma obra teatral para contar a história de Pink, personagem central da narrativa da ópera-rock da turnê, inspirado em experiências do próprio baixista e compositor Roger Waters.
Nesse espetáculo, a cenografia não funcionava apenas como decoração, mas sim como parte fundamental da narrativa. O elemento principal era um enorme muro, construído progressivamente ao longo da apresentação. Durante os primeiros atos, os blocos eram colocados entre a banda e o público, até que, já na metade do show os músicos já não podiam mais ser vistos. Esse muro representava o próprio isolamento social de Pink e as barreiras que ele construía entre si e o mundo, fazendo com que a transformação do palco acompanhasse a história do álbum.
Queen – Live Aid, Wembley, 1985
Em 13 de julho de 1985, a banda Queen subiu ao palco do Live Aid, evento beneficente transmitido mundialmente no Wembley Stadium, em Londres. Com apenas 20 minutos de apresentação, a banda condensou seu repertório em uma sequência de sucessos como Bohemian Rhapsody, Radio Gaga e We Are The Champions.
A cenografia era simples, não havia estruturas elaboradas ou grandes elementos móveis, e o espaço era composto principalmente pela iluminação, pelos instrumentos e pelos próprios artistas. Diante da simplicidade do palco, o que se destacou foi a performance da banda como um todo, mas principalmente de Freddie Mercury. O vocalista explorou a movimentação pelo espaço e a interação com o público, trazendo a plateia para dentro da apresentação e ampliando a dimensão do espaço.
U2 (Zoo TV Tour) – Sydney, 1993
Em novembro de 1993, a banda U2 levou à Sydney a Zoo TV Tour, que divulgava seu sétimo álbum de estúdio, o Achtung Baby (1991). A proposta visual se diferenciava completamente da estética tradicional dos shows de rock da época ao simular um ambiente de excesso de informação, inspirado pelo crescimento de elementos como a televisão, a publicidade e a mídia no cotidiano naquele período.
Um dos principais elementos era a quantidade de telas de vídeo espalhadas por todo o palco, que exibiam videoclipes, mensagens, transmissão e imagens distorcidas. Assim, o público era exposto a diversos canais de comunicação de uma só vez, criando uma sensação de sobrecarga visual, ao invés de ter uma única tela grande exibindo os integrantes da banda.
Outro detalhe eram os carros Trabant pendurados sobre o palco. Além de funcionarem como elementos de iluminação durante o espetáculo, a disposição dos automóveis naquela posição reforçava a ideia de “colagem visual” criada pela banda para a estética criada para aquele espetáculo.
Daft Punk – Coachella, 2006
Por trás das máscaras robóticas estavam Thomas Bangallter e Guy-Manauel de Homem-Christo, do Daft Punk, que subiram ao palco Sahara no Coachella 2006. A apresentação marcou a história dos shows de música eletrônica ao levar ao palco uma grande pirâmide de LED, que se tornou um dos elementos mais marcantes de performances da dupla.
O projeto, desenvolvido pelos próprios membros da banda em colaboração com outros designers e artistas, utilizava mais de 1.600 blocos de LED na pirâmide, estruturas luminosas triangulares nas laterais e um painel de LED ao fundo do palco.
Os artistas se apresentavam dentro da estrutura enquanto imagens e luzes eram programadas para acompanhar a música. A pirâmide, portanto, não funcionava apenas como cenário, mas sim como parte ativa da apresentação, transformando a cenografia em um dos elementos principais do espetáculo.
One Direction (Where We Are Tour) – Wembley Stadium, 2014
Com temática inspirada em pistas de skate, o palco da Where We Are Tour, terceira turnê mundial da One Direction, apresentou uma cenografia dinâmica, projetada para facilitar a circulação dos integrantes durante as apresentações e ampliar a visibilidade do público.
Como a turnê contou apenas com shows em estádios, o palco foi projetado em formato de grande arena. Seu design apresentava uma estrutura tridimensional com diferentes níveis, rampas e uma grande inclinação central, imitando estruturas de pistas de skate. Além da estrutura principal, que tinha aproximadamente 54 metros de largura por 21 metros de profundidade, a apresentação também contava com uma passarela de cerca de 34 metros que levava a um segundo palco (B-stage) localizado no meio do público. A estrutura então permitia que os cinco integrantes se aproximassem dos fãs, independente de sua localização no estádio.
Anitta – Coachella, 2022
Em 2022, Anitta levou ao Coachella, referências à cultura brasileira em uma apresentação marcada por elementos visuais inspirados no Rio de Janeiro, nos bailes funk e nas periferias do país. O palco, assinado pelo arquiteto Joe Rohde, conhecido por seu trabalho no Disney ‘s Animal Kingdom, foi planejado para que a cenografia incorporasse essas referências do Brasil.
O cenário combinava painéis de projeção com imagens de paisagens cariocas e elementos físicos, como um paredão de caixas de som, criando uma representação visual do ambiente urbano brasileiro. A cenografia também se integrava à performance desde o início, quando Anitta entrou no palco sobre uma motocicleta, em uma referência aos mototáxis, e o show contou ainda com uma apresentação de funk que reuniu mais de 40 dançarinos simultaneamente no palco.
Lady Gaga (The Chromatica Ball) – Dusseldorf, 2022
Lady Gaga subiu ao palco em Dusseldorf, na Alemanha, em 2022, para a primeira apresentação da The Chromatica Ball, sua primeira turnê mundial realizada apenas em estádios. Essa apresentação marcou a volta da cantora aos palcos após um período afastada dos grandes shows, e deu início a sua turnê que levou a estética de seu álbum Chromatica, de 2020, para grandes arenas ao redor do mundo.
Um dos grandes destaques do espetáculo era o palco, inspirado na arquitetura brutalista. Nele predominavam tons de cinza, linhas retas e poucos elementos decorativos, para que a estrutura representasse, de maneira abstrata, uma construção monumental e inacabada. A estética dialogava com os temas do show: o período vivido pela cantora e pelo mundo durante a pandemia de Covid-19.
“O palco foi inspirado na arquitetura brutalista, materiais, texturas, crueza, transparência. Um olhar realmente selvagem e duro para si mesmo e o que você passou”, afirmou Gaga em suas redes sociais sobre seu show.
Cenograficamente, a estrutura principal contava com cinco grandes telas de projeções, que auxiliavam na composição visual do cenário, além de duas passarelas e um segundo palco. Nesse espaço, Lady Gaga apresentava algumas músicas em versões mais intimistas, tocadas no piano, como Edge of Glory. Assim, a arquitetura do palco não era apenas um plano de fundo, mas criava diferentes ambientes para acompanhar as mudanças ao longo da apresentação.
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O artigo acima foi editado por Giovana Lazarin.
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