Em meio aos bastidores, entrevistas, gírias, Reels e TikToks, um dos programas mais tradicionais da televisão brasileira, “Fantástico”, testa uma nova maneira de narrar histórias, procurando alcançar aqueles que já cresceram conectados à internet. Através das publicações do “Fant Dump”, o jornalismo formal torna-se mais palpável e próximo à Geração Z.
A tática usada pelo programa revela uma questão que vai muito além da sua reinvenção: até onde o jornalismo pode se adaptar, mudar de linguagem e formato, sem perder sua essência crível?
Durante décadas, o acesso às notícias esteve associado a rotina e horários específicos, rituais. O jornal chegava às bancas logo pela manhã, a televisão ou o rádio transmitiam seus programas em horário determinado, sem a possibilidade de participação imediata dos leitores. Era, assim, um fluxo linear de informação entre os veículos informativos e seus espectadores.
Entretanto, graças à internet, é possível acessar as informações em qualquer horário, de qualquer lugar. O que começou em sites e blogs, avança para as redes sociais.
O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, aponta que mais da metade dos brasileiros utilizam mídias, como Instagram e Tiktok, semanalmente para acessar notícias. Além disso, os resultados demonstram que 33% dos entrevistados afirmam consumir conteúdo de criadores ou influenciadores que se concentram principalmente em notícias. No mesmo levantamento, as redes sociais aparecem como fonte semanal de notícias à frente da televisão.
O dado não mostra que a TV deixou de ser relevante; ela apenas deixou de ser o único caminho de acesso à informação. Perceber isso, muda o direcionamento que muitos veículos precisam tomar. Não é mais sobre como convencer o jovem a assistir televisão, mas em como fazer que ele encontre o jornalismo verificado e confiável nas plataformas que já está habituado.
Diante desse cenário, os veículos tradicionais passaram a investir em vídeos verticais, cortes, bastidores e conteúdos para as redes, a fim de chamar a atenção dos jovens e fortalecer o consumo de notícias.
Um fantástico que cabe no feed
Um dos responsáveis por aproximar um dos programas de maior renome dentro do jornalismo brasileiro ao universo jovem é Juca Lino, 23 anos, estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que atua como produtor de reportagem dentro do Fantástico.
Através de suas redes sociais, o jovem bate papo com os jornalistas, compartilha suas reflexões e aprendizados, mostra bastidores, realiza entrevistas com pessoas famosas e participa de conteúdos que aproximam o público daquilo que normalmente fica “atrás das câmeras”.
Com muito humor e gírias jovens, Juca mostra – acima de tudo – o desenvolvimento de um jornalista da geração Z no meio do caos que é a vida dos “recém adultos”, ou como o jovem se apelidou, “semiadulto”.
Em julho de 2026, a TV Cultura entrevistou a apresentadora Poliana Abritta e Juca em uma edição do programa Vitrine dedicada às transformações provocadas pelos algoritmos no comportamento do público, na produção audiovisual e na própria linguagem jornalística. Os convidados afirmaram que o Fantástico se tornou um espaço de trocas entre gerações distintas, aproximando o público por meio do humor, das gírias e da linguagem das redes.
“O Fantástico sempre foi um programa onde cabe a brincadeira, a leveza. Então é muito natural que a gente possa fazer uma trend, uma brincadeira pra levar conteúdo.”
afirmou Abritta.
Mesmo que Juca não apresente o jornal, ele consegue ter uma função tão importante quanto: construir uma ponte entre o jornalismo que já existe e a audiência que consome informação em outra velocidade, muito mais rápida, com outras telas e diversas influências, às vezes não muito confiáveis.
Tal estratégia, apesar de ter se tornado famosa com o Juca, não é novidade dentro do Fantástico. Desde sua estreia, em 1973, o programa se joga em diferentes tipos de narrativas para informar os fatos, mesclando informação e entretenimento. O que mudou nessa década foi onde essa linguagem precisa funcionar, já que agora os algoritmos do feed determinam o ritmo de veiculação das notícias e são fatores determinantes na disputa por atenção do público.
tRADUZIR SEM DISTORCER: ENTRE A LINGUAGEM JOVEM E A ESSÊNCIA DA NOTÍCIA
Durante o 10ª Congresso Internacional de Jornalismo da Educação, na mesa sobre “Foco no Feed: como as redações de veículos escritos têm investido em vídeo e o que impacta o jornalismo?” as jornalistas Jéssica Nakamura (DW Brasil), Luiza Tenente (g1), Milena Teixeira (Metrópoles), Thais Borges (Jornal Correio/BA) e Larissa Burchard (Estadão) comentaram sobre como a humanização do jornalista pode ser uma estratégia essencial no mundo digital.
“A gente não tem que falar ‘jovem’, a gente tem que falar o mais natural possível, porque as pessoas vão se identificar mais com você. Os jovens, principalmente, da Geração Z e Alpha, não seguem instituições, seguem as pessoas, buscam mais essa identificação com as pessoas”
comentou Burchard
Se nas mídias tradicionais, o conteúdo é transmitido para todos de forma padronizada, nas redes, a construção de uma linguagem visual e o algoritmo influenciam na veiculação da notícia. Por isso, a fala direta do jornalista com o espectador fortalece o alcance da matéria.
O problema aparece quando a tentativa de simplificar acaba por transformar assuntos muito complexos e difíceis de informar, por exemplo, guerras, economia, ciência, política ou casos muito fortes, em conteúdos que ignoram informações principais ou descredibilizam sua gravidade. Um exemplo de perfil que consegue equilibrar o conteúdo, uma explicação fácil de entender, mas não deixa despercebida a gravidade do assunto é o jornalista Ygor Palopoli.
Como destacado pela jornalista Jéssica Nakamura durante o Jeduca, a “tradução” pode ser a solução para tornar o jornalismo “formal” mais entendível para o público das redes.
“É interessante isso, o quanto a gente consegue deixar mais divertido, um pouco mais palatável, esses assuntos que são muito duros. Nosso trabalho hoje em dia é muito menos noticiar, e muito mais traduzir essa informação de uma linguagem que é muito hermética para uma que a galera das redes vai entender.”
A definição de uma linguagem autêntica para as novas mídias depende menos da reprodução de gírias e estereótipos e mais da inclusão de profissionais que entendem os códigos e repertórios desse público nas redações.
No Fantástico, Juca Lino é um exemplo de como a presença de profissionais jovens nesses espaços oferece uma dimensão mais humana ao jornalismo. Ao “abrir as portas” para observar os bastidores do ‘fazer jornalístico’ ainda mais através de uma perspectiva jovem, o jornalismo formal torna-se mais humano e próximo a um público que, como apontado pelo estudo da Reuters Institute, tem as redes sociais como a principal fonte de informação.
jORNALISMO OU ENTRETENIMENTO?
Chamado de “infotainment“, o jornalismo que mistura informação com entretenimento ganha espaço dentro das redes sociais, já que a velocidade dessas mídias exige textos e vídeos que retém a atenção do espectador em um período de tempo curto.
Um insight de backstage pode aproximar; um meme pode explicar; um vídeo curto pode contextualizar. O jornalismo se une ao entretenimento mirando na atenção daquele que consome esse conteúdo.
No entanto, existe um paradoxo estrutural: para manter sua relevância e visibilidade nas redes sociais, o jornalista precisa compreender a lógica operacional das plataformas. Por isso, essa adaptação não pode ser constante, visto que alterações recorrentes nos algoritmos de recomendação afetam as redações e os critérios editoriais. Esse tipo de relação é analisada na obra acadêmica Beyond Journalism (2020), de Mark Deuze e Tamara Witschge. A obra dos jornalistas serve como referência ao tratar sobre o futuro da profissão, sendo uma fonte de investigação de como o jornalismo está se redefinindo diante dos avanços tecnológicos e econômicos das grandes plataformas.
o SEMIADULTO E O FUTURO DA NOTÍCIA
Juca Lino transita entre dois lugares distintos. Mesmo dentro de uma das estruturas mais consolidadas do jornalismo no Brasil, Lino não esconde sua identidade como jovem de uma geração “cronicamente online”. “O semiadulto do fant”, como é conhecido nas redes, é uma personalidade instigante no jornalismo contemporâneo que não representa uma substituição, mas, sim, uma negociação dessas duas maneiras diferentes de transmitir notícias.
O perfil do estudante da UFRJ exemplifica o início de uma transformação estrutural na comunicação contemporânea. A propagação da informação deixa de depender obrigatoriamente de canais principais, impondo que a profissão use estratégias de distribuição para alcançar o público em plataformas online.
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O artigo acima foi editado por Mariana Aires
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