No Brasil, 49.489 pessoas esperam por um órgão – dado que marca o mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos no país.
O número divulgado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT) não é o único a ganhar destaque em um momento no qual os holofotes recaem sobre o tema. Embora o Brasil tenha batido o recorde histórico de transplantes de órgãos e tecidos em 2025, cerca de 45% das famílias ainda não autorizam a doação.
Com isso, a campanha do Setembro Verde deste ano vai além de conscientizar sobre a importância desse gesto. Sobretudo, serve como um incentivo para que a população brasileira converse com seus familiares e manifeste em vida a vontade de ser doadora.
Quando a decisão está nas mãos da família
Em uma conversa com Glaci Salusse Borges, jornalista e produtora, responsável pela coordenação do Projeto Cultura Doadora da Fundação Ecarta, entendemos o funcionamento do processo de doação em território brasileiro.
“É um processo controlado pelo Sistema Nacional de Transplantes, com o Ministério da Saúde, envolvendo um número grande de profissionais de diversas áreas, com 90% dos procedimentos financiados pelo SUS“, ela explica.
Um hospital, ao dar entrada em um protocolo para confirmação de morte encefálica (ME) – a interrupção definitiva e irreversível das funções cerebrais –, é obrigado, por lei, a informar a Central de Transplantes do estado em que está localizado.
Com a confirmação da morte encefálica e a análise do histórico médico, que verifica a possibilidade de doação, o atestado de óbito é assinado e começa o processo de acolhimento da família diante do momento delicado de luto.
Durante esse processo, equipes qualificadas explicam a situação em detalhes e apresentam a possibilidade da doação. “No Brasil, a doação só acontece com a autorização do cônjuge ou de parentes até o segundo grau, independentemente do que a pessoa tenha registrado em vida”, diz a jornalista.
E aí que está a primeira barreira do processo: a falta de informação e de conversas com a pessoa falecida. Além de desconhecer o desejo do familiar, a desinformação aparece na própria compreensão sobre a morte encefálica e sobre o processo de doação.
Mesmo com suporte artificial, a morte encefálica é uma morte legal e irreversível – algo que pode ser dificilmente assimilado pelos familiares da pessoa falecida. Com o desligamento completo dos aparelhos, garantir que a família entenda o processo, ainda mais em um momento delicado de luto, é um grande desafio a ser enfrentado.
Os desafios para reduzir a fila de transplantes
Todavia, a diferença entre o número de pessoas no aguardo por um transplante de órgãos e a quantidade de doações realizadas é algo crônico no país. “O Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo, e mesmo assim, o número de pessoas na lista cresce continuamente e supera os transplantes realizados. Este é o motivo de seguirmos trabalhando”, reitera Glaci.
Ano passado, diversas medidas foram adotadas pelo Ministério da Saúde para salientar a doação de órgãos. Além do aumento de recursos para o SNT, houve ampliação da distribuição interestadual de órgãos e tecidos, estratégia que viabilizou mais de 1.300 transplantes em 2025.
Esse esforço também envolveu a logística necessária para que órgãos e equipes chegassem aos diferentes destinos do país. Com isso, em parceria com companhias aéreas e a Força Aérea Brasileira (FAB), foram realizados 4.808 voos para o transporte de órgãos e de equipes de captação e transplante no mesmo ano.
Ainda assim, milhares de pessoas esperam por órgãos no Brasil. Entre os órgãos mais aguardados, o rim concentra a maior parte da fila, com 45.236 pessoas. Na sequência, estão fígado e coração.
A conversa que pode mudar uma decisão
Entretanto, sem que haja o consentimento familiar, não há esforços adotados pelo Ministério que resolvam essa carência. A jornalista traz a doação como um ato de generosidade – e, para além disso, uma forma de lidar com o luto. “A decisão de doar os órgãos é um gesto de generosidade e entendimento de todo o processo, que faz a diferença tanto para quem doou, para quem o luto passa a ter outro significado ou sentido, quanto para quem recebeu”.
Ainda existe muita resistência em falar sobre a doação de órgãos, em grande parte por medo da morte. “Esquecemos que a vida é um intervalo entre o nascer e morrer, e esse intervalo pode ser muito valorizado do início ao fim, e depois”, ela comenta.
Por isso, dê atenção às campanhas de Setembro Verde. Entenda, pesquise e mantenha ativa uma corrente em sua família que seja a favor da doação. Além de relembrar a dificuldade enfrentada por aqueles necessitados, este mês pede dedicação a mudar o discurso e compreender a doação como oportunidade de vida a outras pessoas.
Querendo ou não, falar em doação de órgãos é falar na continuidade da vida. É sobre uma escolha que pode mudar – e salvar – a vida de muitas pessoas.
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O artigo acima foi editado por Catharina Gonçalves
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