Historicamente, governos criam leis, normas e infraestruturas na tentativa de moldar a sociedade para o seu presente e futuro. Mas, na realidade, o verdadeiro pontapé inicial para que as mudanças possam ser percebidas não está no Diário Oficial, e sim na cultura daquele povo.
Diante disso surge o debate: é possível transformar uma sociedade sem antes transformar a forma como ela vê o mundo?
O aprisionamento da mente humana frente a falsas realidades
Mais do que respostas certas ou erradas, esse debate gira em torno daquilo que aquela comunidade julga como urgente. A lógica por trás pode ser explicada pelo Mito da Caverna, do filósofo Platão. Em sua alegoria, prisioneiros estão acorrentados no fundo de uma caverna, enxergando apenas sombras projetadas na parede e acreditando que aquelas imagens são a única realidade existente.
Na vida real, uma sociedade que vive na ignorância, guiada por preconceitos, fake news ou ideologias dogmáticas, age de acordo com essas “sombras”. Platão argumenta que mudar as aparências de uma comunidade sem antes alterar sua visão de mundo equivale a apenas trocar as sombras projetadas na parede – os desenhos mudam, mas a estrutura da caverna continua a mesma.
Proibições sozinhas não mudam comportamentos
Caso a cultura e a educação daquela sociedade reforcem velhos hábitos, é inevitável que as mudanças estruturais sejam fracassadas, uma vez que forçam aquela comunidade a manter visão de mundo, sem dar-lhes a liberdade de enxergarem por conta própria. A proibição da venda, importação e propaganda dos Cigarros Eletrônicos (Vapes) é um exemplo disso. O que passou a ser proibido pela Anvisa passou a virar um hábito comum entre jovens. Isso prova que a norma institucional ignorou o forte apelo cultural e a dinâmica de consumo da era digital, resultando em uma regra que falha em moldar a realidade.
Para o filósofo e educador Michael Gonçalves da Silva, as transformações sociais e a forma como a sociedade enxerga o mundo são processos complexos e fragmentados, já que nós, enquanto sociedade, não possuímos uma consciência homogênea.
“Será que podem existir acontecimentos cujo os significados não estejam plenamente elaborados por aqueles que os vivem aos quais com o tempo novos sentidos vão sendo atribuídos?”, questiona o filósofo. Michael reflete que, talvez, uma das dificuldades de compreender as transformações seja o fato de estarmos inseridos nela enquanto elas acontecem.
Como educador, ele argumenta que devemos olhar para trás para perceber o caminho da mudança que a sociedade está traçando hoje. Experiências, boas aulas e boa convivência podem nos colocar diante de formas de ser e de pensar que talvez não encontrássemos sozinhos. Michel diz que isso não significa determinar qual sociedade surgirá diante dessas experiências, mas sim, ampliar nossa capacidade de escolher valores.
O poder dos algorítmos
Os meios de comunicação influenciam diretamente esse cenário, pois as redes sociais ajudam a formar a nossa opinião. Essa dinâmica atualiza o conceito de Indústria Cultural, na qual a informação se transforma em produto para gerar engajamento rápido. Isso revela como o debate público se transforma e o papel de curtidas e compartilhamentos passa a influenciar a cultura em que vivemos
Para transformar uma sociedade, antes de tudo é preciso entendê-la – uma vez que nenhuma mudança estrutural vai adiante sem que as pessoas compreendam o sentido da evolução. As estruturas sociais são reflexos da cultura, dos valores e da mentalidade de uma época. E, com a chegada das redes sociais, esses pilares fixos passaram a ser questionados.
Para entender o debate proposto, Michael diz que a verdadeira evolução social exige, antes de tudo, uma reformulação das lentes com as quais enxergamos o mundo ao nosso redor.
“Talvez transformar a maneira como vemos o mundo e transformar o próprio mundo sejam, afinal, movimentos muito menos separáveis do que a pergunta inicialmente nos faz supor”, reflete o psicólogo.
Não existe uma resposta ideal. O que existem são formas de se enxergar as transformações sociais.
———————————————————————————————————————————————————————————————————————
The article above was edited and translated by Ana Beatriz Carvalho Sapata.
Liked this type of content? Check Her Campus Cásper Líbero home page for more!