Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Culture > News

Honestidade, democracia ou segurança: o que o eleitor realmente procura em um candidato?

Eloá Costa Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Ao digitar a sequência de números na urna eletrônica, o eleitor brasileiro se depara com um dilema que vai além de siglas partidárias ou promessas de campanha: o cenário eleitoral é marcado por diferentes demandas sociais, que podem influenciar na escolha de um candidato.

A cada quatro anos, o país revisita suas questões históricas sobre as características esperadas de quem pode ocupar o cargo de Presidente da República. No entanto, dizer o que se espera de um político é diferente de decidir em quem votar, já que a escolha nas urnas envolve diferentes fatores. 

A primeira vista do eleitorado

Segundo Túlio Lisboa, historiador especializado em ciência política pela UNA, um dos principais movimentos do eleitorado brasileiro é o voto de protesto, que pode se sobrepor a uma análise mais aprofundada sobre o candidato:

“O brasileiro comum ainda faz o voto de protesto, como ocorreu com a candidatura do Tiririca, no final dos anos 2000, onde tenho certeza de que quase ninguém olhou a vertente ideológica do partido dele.”

A fala também se relaciona ao chamado “personalismo político”, fenômeno em que o foco se concentra  na figura do candidato, que é construída através da campanha eleitoral, enquanto o papel do partido e de suas alianças pode receber menos atenção. “O eleitor por protesto vê uma boa pessoa, como um médico, e vota achando que ele vai cuidar do SUS, mas esquece de olhar se o partido é a favor do SUS, ou como funciona a união partidária nas votações. O brasileiro olha as pautas sem saber quem está por trás do candidato”. Esse personalismo, muitas vezes, leva a um voto cego e não realmente pensado por parte do eleitor. 

Por outro lado, é notável a dimensão da comunicação política ao enfatizar a figura individual de um candidato e  relembrar suas conquistas reais, que podem até mesmo diminuir a importância do partido político quando se trata da escolha de voto. “O Lula, hoje, é muito maior do que o PT. O Lula construiu o PT e, em vários momentos o partido sustentou ele. O partido foi a rocha para o Lula continuar na política. Agora, o PL, por exemplo, foi remodelado para servir ao bolsonarismo, diferentemente de seus períodos passados.” Afirma Sérgio Praça, jornalista pela Cásper Líbero e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).  

Quais pesos um voto carrega?

A campanha eleitoral não é a única peça importante na corrida pela conquista de votos. Historicamente, um dos principais fatores que influenciam a decisão do voto é a economia nacional, que, ao lado de outros aspectos socioeconômicos, pode influenciar na escolha do eleitor. Pesquisas recentes ajudam a contextualizar essa relação, ao mostrar como a percepção sobre a economia e o custo de vida aparece entre as preocupações dos eleitores:

“Para presidente, em toda eleição, o fator mais importante é a condução da economia e o estado da economia nos meses antecedentes […] O principal critério que os eleitores levam em conta nas eleições presidenciais é o estado da economia, a inflação e o preço dos alimentos”, comenta Praça, que acredita que aspectos como questões ideológicas e tom da campanha têm efeitos reduzidos quando se leva em conta determinados aspectos socioeconômicos.

Outro fator altamente considerado pela população é a honestidade dos candidatos. Mas esse senso de integridade não é um fator isolado e pode ser entendido de diferentes formas pelo eleitorado.

Túlio diz que a honestidade está intrinsecamente ligada a questões de valor moral, levando o conceito a um viés ideológico, no qual o eleitor vê como “honesta” e “confiável” a figura política que representa um tipo de pertencimento aos seus próprios valores, o que nem sempre está realmente atrelado a ações concretas.

Por outro lado, também se leva  em conta o histórico do candidato e suas ações idôneas do passado, diz Túlio, o que demonstra  que essa percepção não surge internamente, mas a partir de diversos episódios públicos das figuras eleitorais, do trabalho de suas campanhas e, principalmente, da livre interpretação política dos votantes. 

A segurança pública é um dos principais temas do debate eleitoral brasileiro e também aparece entre as questões consideradas pelos eleitores na decisão do voto. Tem crescido o discurso que defende o uso da violência como resposta aos problemas de segurança pública, especialmente em propostas que prometem respostas mais rígidas ao crime. Esse discurso aparece, por exemplo, na campanha de Renan Santos, do partido Missão, que utiliza o slogan “Prendeu, matou” como uma de suas principais mensagens na área de segurança pública.

A expressão sintetiza uma defesa de respostas mais rígidas ao crime e integra a comunicação da campanha sobre o combate à criminalidade. Também aparecem propostas de integrantes da família Bolsonaro voltadas à segurança pública. Para Sérgio Praça, os eleitores podem ter dificuldade para diferenciar políticas de segurança eficazes de discursos politicamente atraentes, mas de difícil execução. 

Honestidade e segurança também dizem muito a respeito do ideal de democracia do povo brasileiro que, em aspectos gerais, é difícil de definir com precisão, mas apresenta algumas características comuns, como explica Praça: “As pessoas entendem democracia como um regime justo e igualitário, onde os políticos são escolhidos livremente, com preservação das liberdades básicas. Na ciência política, define-se pela existência de competição política, liberdade e participação”. 

Portanto, de forma direta ou indireta, o eleitorado busca manter-se dentro de determinados princípios democráticos, ainda que algumas ideologias possam entrar em conflito com esse modelo de governo. 

Quando a emoção influencia no voto

Aspectos emocionais também influenciam a escolha de uma legenda nas urnas. Esses fatores podem estar relacionados tanto a identificações pessoais quanto a experiências vivenciadas, como exemplifica Túlio ao analisar de que maneira as experiências individuais se relacionam com os discursos das propostas:

“A experiência pessoal é um fator de escolha gigante, especialmente em segurança. Casos envolvendo filhos e jovens geram forte apelo emocional e pedidos por mais segurança. Raras pessoas analisam criticamente as causas do ocorrido. Exemplo disso é a defesa da redução da maioridade penal, onde se esquece que jovens de classe média ou alta que cometem atrocidades continuam muitas vezes impunes. A experiência pessoal faz a pessoa focar apenas no fato ocorrido.”

Lisboa também pontua a influência de sentimentos pessoais na escolha de um candidato. Segundo o historiador, na atual conjuntura brasileira, o apelo emocional em relação ao candidato pode ser determinante e fazer com que o eleitor deixe de considerar outros aspectos. Para ele, um dos principais exemplos disso é o bolsonarismo, que, em sua avaliação, contribui para uma baixa migração de votos em razão da consolidação de vínculos ideológicos e sentimentais.

No fim, a escolha de um candidato não passa por um único critério. Economia, segurança, honestidade, valores pessoais e a própria percepção sobre a democracia se cruzam na decisão tomada diante da urna.

———————————————————————————————————————————————————————————————————————

O artigo acima foi editado por Júlia Sofia Barreira.

Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!


Eloá Costa

Casper Libero '28

Eloá Costa is a stage actress, artist, journalism and language student. She enrolled in journalism at Cásper Líbero in 2025, and in language studies at USP in 2026. Eloá is highly interested in linguistics, politics, art and culture. In 2025, she became a Chapter Board Member at Her Campus Cásper Líbero.