Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Culture

Hygge: o jeito dinamarquês de encontrar felicidade nas pequenas coisas

Helena de Souza Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A Dinamarca aparece entre um dos países mais felizes do mundo, segundo o Relatório Mundial da Felicidade de 2026. Isso se dá principalmente pela forma particular como o país enxerga a felicidade e a importância que dá a ela. Entre os elementos que fazem parte da cultura dinamarquesa está o hygge, conceito que valoriza conforto, convivência e presença em momentos simples, para aumentar o bem-estar diário.

o que é o hygge?

O termo hygge, que não tem tradução literal para o português, dá nome a uma sensação de conforto e bem-estar emocional proporcionada por momentos simples e significativos. Eles podem ser vividos individualmente ou na companhia de outras pessoas, o que importa é estar presente e dedicar atenção total à experiência, sem pressa ou distrações, para que sejam intimamente reconfortantes. 

A prática surgiu na Dinamarca e está relacionada à maneira como os dinamarqueses aprenderam a lidar com os invernos rigorosos do país. Com baixas temperaturas, neve e poucas horas de luz durante o dia, passar mais tempo dentro de casa é uma necessidade na região. Nesse contexto, é preciso encontrar prazer e aconchego na simplicidade do cotidiano, por meio, por exemplo, de velas, bebidas quentes, refeições compartilhadas e da companhia de pessoas queridas.

O hygge, no entanto, não está relacionado ao luxo ou ao excesso. Ele está naquilo que desperta acolhimento e bem-estar: uma iluminação que torna o ambiente mais calmo, em um bolo acompanhado de café à tarde, na contemplação de um pôr do sol ou em uma conversa que se prolonga sem pressa. Mais do que em objetos ou atividades específicas, o conceito está na forma como esses pequenos momentos são vivenciados. 

Uma outra forma de enxergar a felicidade

A conhecida felicidade dinamarquesa não se resume apenas à prática do hygge. Esse conceito, porém, reflete uma cultura que valoriza a qualidade de vida e o prazer no cotidiano. Em um país marcado por altos níveis de confiança social e institucional e por uma ampla rede de proteção social, a população pode buscar o bem-estar na maneira como vivenciam o dia a dia e naquilo que torna suas rotinas mais prazerosas. 

Atualmente, é comum que rotinas sejam marcadas pela necessidade de produtividade e cobranças pessoais, fazendo com que o bem-estar seja tratado apenas como uma forma de recompensa às atividades concluídas. Em contrapartida, na cultura dinamarquesa, a felicidade não precisa estar necessariamente associada a realizações ou conquistas. O hygge propõe a satisfação em momentos comuns, vividos com calma e presença, sem a necessidade de que sejam extraordinários, tornando prazerosas mesmo as atividades realizadas diariamente. 

Essa perspectiva, de enxergar a felicidade no simples, ajuda a compreender porque a felicidade ocupa um lugar tão relevante na cultura da Dinamarca. Nos últimos anos, o país aparece entre os mais bem colocados no Relatório Mundial da Felicidade, levantamento que considera diferentes fatores para classificar países em relação ao bem-estar. Assim, o resultado não pode ser atribuído ao hygge isoladamente, mas sim a uma diferente maneira de olhar para o bem-estar social e levanta uma questão que ultrapassa as fronteiras do país: em meio a uma sociedade que necessita produzir e conquistar para se satisfazer, será que ainda sabemos  reconhecer a felicidade quando ela aparece nas coisas mais simples?

a vida acelerada

Em uma sociedade marcada pela hiperconectividade e excesso de estímulos digitais, em que a comparação nas redes sociais é diária, a sensação de estar sempre com pouco tempo tornou-se parte da rotina. Notificações constantes, redes sociais, necessidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo cada vez mais rapidamente fazem com que até os momentos de pausa sejam frequentemente interrompidos e vividos com pouca presença. Essa exposição excessiva às telas e redes sociais também pode afetar o bem-estar. Segundo a Fiocruz, cansaço mental e maior risco de sintomas de ansiedade e depressão são resultado do excesso de tempo diante das telas e estímulos.

Essa aceleração também está relacionada à atual lógica de produtividade, que, incentivada pelas redes sociais, estimula a ideia de que é preciso estar sempre produzindo, melhorando ou alcançando alguma coisa. Nesse contexto, é difícil aceitar a necessidade de pausas e descansos para a mente, já que até o lazer é associado a algum tipo de benefício ou resultado. 

Justamente nesse ponto, o hygge apresenta uma perspectiva diferente. Ao reconhecer que nem todos os momentos precisam gerar resultados ou cumprir funções, o conceito dinamarquês incentiva momentos simples vividos com presença para o bem-estar pessoal diário. 

do hábito dinamarquês à tendência global

A partir do final de 2016, o hygge começou a ganhar força fora da Dinamarca e despertar o interesse de outros países. Um dos principais responsáveis pela popularização internacional do conceito foi Meik Wiking, autor do livro Hygge: o segredo dinamarquês para viver bem, publicado em setembro do mesmo ano. A obra rapidamente se tornou um best-seller internacional e apresentou aos leitores a  forma dinamarquesa de buscar acolhimento e bem-estar no dia a dia.

A repercussão do termo foi tão grande que em 2016, a palavra “hygge” foi uma das finalistas da Palavra do Ano do Dicionário de Oxford, e ficou em segundo lugar no dicionário Collins do mesmo ano. Além disso, em 2017, ao se popularizar nos Estados Unidos, as buscas pelo tema aumentaram: o Pinterest Predicts registrou um crescimento de 285% nas buscas relacionadas ao hygge em sua plataforma, segundo o relatório de tendências daquele ano. 

Ao chegar em outros países, o hygge não precisa ser reproduzido exatamente como na Dinamarca. O conceito pode ser reinterpretado de acordo com a cultura de cada lugar, podendo ser adaptado a diferentes costumes, climas e rotinas. Se para os dinamarqueses, que têm hábitos ligados ao clima frio, uma casa aquecida por uma lareira pode favorecer uma experiência hygge, em países de clima quente, relaxar à sombra de uma árvore pode proporcionar a mesma ideia de presença e acolhimento. Mais do que reproduzir hábitos, a adaptação do conceito está na busca por momentos cotidianos que sejam acolhedores e  benéficos ao bem-estar pessoal. 

Com sua popularização internacional, a adaptação do hygge o transformou  em uma tendência de consumo. Elementos associados ao aconchego, como velas, mantas, bebidas quentes e objetos de decoração começaram a ser vendidos como uma forma de incorporar o estilo de vida dinamarquês  à sua própria rotina. Essa tendência acaba contradizendo a sua filosofia,  que valoriza a satisfação na simplicidade, quando a transforma em algo comprável. 

o hygge no brasil

E o Brasil? Será que precisamos importar o hygge para cá para encontrar prazer nas pequenas coisas? Algumas práticas comuns ao cotidiano brasileiro já se assemelham aos elementos valorizados pelo conceito dinamarquês. Tomar um café na companhia de alguém querido, almoçar com a família, reunir amigos em casa, contemplar o pôr do sol ou comer um bolo no café da tarde são momentos que, mesmo que não sejam chamados de hygge, promovem acolhimento, convivência e presença.

Nesse sentido, talvez a adaptação dessa cultura ao Brasil não esteja em importar práticas dinamarquesas, mas sim em reconhecer o valor de hábitos e experiências que já fazem parte do cotidiano do país, e vivê-los com mais presença e significado. 

———————————————————————————————————————————————-

O artigo acima foi editado por Maria Luiza Comitre. Gostou desse tipo de conteúdo?

Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!

Helena de Souza

Casper Libero '29

Journalism student who loves to talk about culture and the pop world💫