A Semana do Cinema acontece entre os dias 10 e 16 de setembro, com ingressos a R$10 e R$12. Com preços reduzidos, a expectativa é de aumento de movimento das salas, mas o que faz o público escolher produções brasileiras entre tantas opções em cartaz?
Filmes como “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” e “O Fim da Rua” competem pela atenção do público. Entre os títulos nacionais em cartaz, Minha Melhor Amiga, de Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, também disputa espaço com os grandes lançamentos internacionais. O filme tinha previsão de lançamento para o primeiro semestre do ano, mas foi adiado para evitar concorrência com, “blockbusters”, grandes produções de alto orçamento e forte apelo comercial. Em entrevista concedida ao Diário de Cuiabá, a atriz Ingrid Guimarães criticou a forma como as produções nacionais são divulgadas e afirmou: “A gente divulga filmes como campanha política”.
Interesse do público ou falta de divulgação?
Enquanto nos Estados Unidos é comum que grandes produções destinem valores expressivos ao marketing, no Brasil esse cenário não é tão frequente. A diferença no investimento em divulgação também é apontada por profissionais do setor. Em entrevista à BBC News Brasil, o produtor Thiago Correia falou sobre os custos envolvidos na distribuição de filmes brasileiros. “A gente tem que fazer cópias do filme para distribuir em um país continental, imprimir cartazes e levar o elenco para viajar até as estreias.” Nesse cenário, o investimento em distribuição e divulgação pode influenciar a visibilidade dos filmes diante do público.
A presença estrangeira nos cinemas é predominante, deixando uma parcela menor na programação para as produções brasileiras.
Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2024, os filmes brasileiros representaram 15,7% das sessões realizadas no país, enquanto as produções estrangeiras ocuparam a maior parte da programação. A diferença também aparece na preferência do público: os filmes nacionais corresponderam a apenas 10,1% dos espectadores naquele ano. Os números mostram que, além de disputar a atenção do público, o cinema brasileiro enfrenta o desafio de conquistar espaço na programação diante da predominância das produções estrangeiras.
Ainda em entrevista para a BBC News Brasil, Thiago Correia também aborda a escolha de horários para a exibição de filmes brasileiros: “Não adianta querer público se seu filme entra em cartaz às 14h30 de uma quinta-feira. Nem eu, nem a maior parte da população pode ir ao cinema a esta hora. Aquele filme vai estrear e não vai sobreviver uma semana em cartaz, porque não vai ter ingressos vendidos, vai estrear outro título e vai virar um fracasso.”
Quem garante espaço ao cinema nacional?
Criada em 2001 e inicialmente instituída em caráter provisório, a Cota de Tela estabelece regras para a exibição de obras cinematográficas brasileiras nas salas de cinema de todo o país.
Em 2024, a política foi restabelecida de forma permanente por meio de uma nova legislação, que definiu critérios para a exibição de obras nacionais nas salas de cinema. A partir da mudança, o cumprimento da Cota de Tela passou a ser determinado pelo número de sessões cinematográficas, substituindo a antiga exigência baseada na quantidade de dias de exibição.
As novas regras também passaram a considerar os horários em que os filmes são exibidos. Sessões realizadas em períodos de maior procura pelo público têm peso maior para o cumprimento da cota, enquanto a permanência de obras nacionais em cartaz pode ser favorecida quando elas ocupam horários de maior movimento. A mudança busca evitar que a exigência seja cumprida apenas com sessões em horários de baixa procura, enquanto filmes internacionais ocupam o horário nobre do cinema.
Na prática, porém, o cumprimento da Cota de Tela também levanta questionamentos sobre a forma como as redes de cinema organizam suas sessões e sobre se a capacidade de um filme nacional, mesmo presente na programação, alcançar de fato o público.
Recentemente, segundo o jornal Hora do Povo, a rede Cinemark teria encontrado uma brecha para cumprir as exigências da Cota de Tela ao multiplicar as sessões vazias de “Zuzubalândia – O Filme”, que segundo a publicação, teriam sido realizadas sem público.
Questionada pelo mesmo jornal, a rede de exibição afirmou não comentar sobre a Cota de Tela e alegou que as exibições do filme ocorreram devido ao Projeto Escola, em que instituições de ensino podem reservar salas de cinema. Entretanto, a empresa não explicou qual seria a relação específica entre o filme e a ação, uma vez que o regulamento permite a participação de qualquer obra que tenha classificação indicativa adequada.
Quando o conhecimento vem de fora
Recentemente, o Brasil esteve em destaque no circuito internacional de premiações com os filmes “Ainda estou aqui” e “Agente secreto”. O sucesso das produções ampliou a visibilidade do cinema brasileiro e colocou os filmes em evidência também no país.
Esse tipo de reconhecimento, além de ampliar a visibilidade do cinema nacional, pode transformar essas produções em “filmes-evento”, gerando mobilização do público nas salas e repercussão em torno de uma produção brasileira.
Mas o contraste entre a repercussão alcançada por alguns filmes brasileiros e a participação das produções nacionais na programação das salas levanta uma questão: até que ponto o reconhecimento conquistado fora do país influencia o espaço e o interesse por esses filmes no mercado brasileiro?
A repercussão no exterior pode contribuir para levar espectadores às salas, porém não garante uma presença maior e contínua do cinema brasileiro na programação. O reconhecimento internacional pode funcionar como um impulso para determinados filmes, mas a permanência dessas produções nas salas também depende de fatores como distribuição, divulgação, horários de exibição e interesse do público.
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O artigo acima foi editado por Júlia Sofia Barreira.
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