No dia 4 de outubro, os brasileiros irão às urnas para o primeiro turno das eleições gerais de 2026. Neste pleito, os cidadãos decidirão quem serão seus próximos representantes a nível federal e estadual pelos próximos, no mínimo, quatro anos. Porém, as mulheres, público mais disputado na corrida deste ano, precisarão considerar a atual onda reacionária, as tentativas de anular os seus direitos e a sub-representatividade feminina na política para escolher em quem depositar os seus votos.
Nunca antes se matou tantas mulheres no Brasil pelo único e simples fato de elas serem mulheres. Desde a implementação do voto feminino em 1932, esse direito não é tão ameaçado. As brasileiras correspondem a mais de 52% do eleitorado. Porém, elas ocupam menos de 20% do parlamento, seja na Câmara ou no Senado Federal. Pela primeira vez no século, a corrida presidencial não conta com uma única candidata mulher competitiva ao cargo.
Diante disso tudo, as campanhas eleitorais disputam o voto feminino, já que é ele que deve, mais uma vez, decidir o próximo Presidente da República. Entre a sub-representatividade, a desigualdade de gênero e a ameaça aos direitos básicos, como o sufrágio e a possibilidade de existir, as mulheres são atrizes principais no tabuleiro das Eleições 2026.
ONDA REACIONÁRIA
Nos últimos anos, após a crise financeira de 2008, o mundo tem passado por uma guinada ao conservadorismo. Líderes de extrema direita como Donald Trump, nos Estados Unidos, Javier Milei, na Argentina, Viktor Orbán, na Hungria, Nayib Bukele, em El Salvador, Marine Le Pen, na França, e até a Família Bolsonaro, no Brasil, têm se tornado cada vez mais populares e, junto a eles, as suas ideias reacionárias também têm se introduzido no cotidiano de grande parte da população.
Com o aumento deste movimento, as mulheres, que vinham em um ritmo de ascensão de direitos e espaço na vida pública, passaram a ser cada vez mais atacadas. Seja pelos movimentos de extrema direita, seja por aqueles que se ressentem de seus problemas de ordem social e econômica e encontraram no corpo feminino o culpado por suas frustrações.
Mas a verdade é que atualmente, independentemente de onde tenha nascido o sentimento de aversão às mulheres, discursos misóginos estão cada vez mais em alta. Os Estados Unidos, por exemplo, já pregam a possibilidade de instituir o voto por família, tendo a figura do homem como representante dela. Já no Brasil, discursos que visam a anulação do direito constitucional que as mulheres têm ao sufrágio ficam cada vez mais comuns, sob o pretexto de que elas supostamente não saberiam votar porque tendem a se posicionar mais a favor do campo progressivo do que os homens.
Mas a onda de ataque aos direitos femininos não se restringe ao voto. Nos últimos quatro anos, o Congresso Federal, majoritariamente formado por homens, tem pautado uma série de leis que interferem diretamente na vida das mulheres, principalmente em seus direitos reprodutivos. Prova disso foi a proposta que tentou equiparar a pena de aborto à de um assassinato, que acabou sendo derrotada, e a anulação da norma que facilitava o acesso ao aborto legal para crianças e adolescente vítimas de violência sexual, que foi aprovada.
Para além do campo político, em 2026, a sociedade brasileira vive um dos anos mais violentos contra as mulheres. Entre janeiro e junho, o Brasil registrou 741 feminicídios, o que equivale ao assassinato de pouco mais de quatro mulheres por dia. Apenas no primeiro semestre do ano, foram feitas quase 100 mil denúncias de violência à mulher no país, o que representa uma alta de 14,7% em comparação com o mesmo período de 2025.
PROJETO POLÍTICO
As mulheres que, por décadas, foram esquecidas dos projetos políticos, sobretudo naquilo que previa a maior inserção de corpos femininos nos cargos, tentam, paulatinamente, reparar a discrepância entre a população feminina do país e a sua representação política. O Brasil fez leis que visavam impulsionar a entrada de mulheres no meio. As principais são as cotas, que representam tanto um percentual mínimo que um partido deve destinar às candidaturas femininas quanto uma reserva de cadeiras no legislativo destinadas a elas.
Em 2026, as candidaturas femininas representam cerca de 35% do total de aspirantes, um recorde. Porém, a maioria se concentra em cargos do legislativo. Para o Poder Executivo Federal, a Presidência da República, por exemplo, apenas duas mulheres submeteram seus nomes ao Supremo Tribunal Eleitoral (TSE). Trata-se de Samara Martins (UP) e Clariana Barão (DC), que sequer representam inscrições competitivas. O que faz deste pleito o primeiro sem uma mulher com candidatura viável à presidência no século.
A expectativa é de que as mulheres formem a maior bancada feminina da história. Entretanto, o campo progressista teme que as mulheres que vencerem as eleições de outubro representem, majoritariamente, ideias reacionárias. Isso porque, para além das discordâncias políticas, este campo prega pela diminuição dos direitos femininos.
O QUE AS MULHERES BUSCAM?
Diante de todo o cenário histórico de sub-representatividade e do recorte atual em que as mulheres lutam pela garantia e permanência de seus direitos, elas, que representam a maioria do eleitorado, são peças fundamentais para as corridas eleitorais deste ano. Sobretudo na disputa pela presidência, em que as duas principais campanhas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que atualmente eletronicamente já figuram nos cenários de segundo turno, voltam-se a tecer acenos a fim de cativar este setor da população.
Seja com mulheres em seus palanques, mas não em suas chapas, seja com promessas que visem à diminuição da desigualdade de gênero e aumento da autonomia feminina; independentemente da forma como aconteça, eles querem capturar essas eleitoras.
De acordo com pesquisas de intenção de voto feitas por diferentes institutos, neste momento, a maioria das mulheres brasileiras pretende escolher Lula em vez de Flávio Bolsonaro. Pelo menos foi o que apontou pesquisa da Atlas/Bloomberg divulgada na última segunda-feira, 31, na qual 48,4% delas diz que votará no candidato progressista, enquanto 31,9% pretende escolher o rival dele.
A diferença pode ser explicada por uma pesquisa realizada pela Cambridge University Press (2025), que indicou que este eleitorado costuma se alinhar mais a candidatos que tenham mais propostas e relações com políticas ligadas ao campo social. Já que elas prezam pela seguridade de bem-estar social e também de igualdade entre os cidadãos.
O artigo acima foi editado por Maria Eduarda Goulart.
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