Há 50 anos, o Brasil perdia uma de suas figuras políticas mais marcantes. Em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitschek de Oliveira morreu aos 73 anos em um acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, próximo a Resende, no Rio de Janeiro. No mesmo veículo estava seu motorista, Geraldo Ribeiro, que também morreu na colisão.
A versão oficial durante décadas foi a de um acidente de trânsito. O Chevrolet Opala em que JK viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro teria sido atingido por um ônibus, perdido o controle, atravessado o canteiro central da rodovia e colidido de frente com uma carreta que vinha no sentido contrário.
Mas, em meio à ditadura militar, a morte de um ex-presidente que havia sido cassado pelo regime e que ainda possuía grande relevância política levantou dúvidas. A partir daí, uma pergunta passou a acompanhar a memória de JK: teria sido realmente um acidente ou o resultado de um atentado político?
morte cercada de dúvidas
Presidente do Brasil entre 1956 e 1961, Juscelino Kubitschek marcou a história do país com o projeto desenvolvimentista que prometia fazer o Brasil avançar “50 anos em 5”. Seu governo foi marcado pela expansão industrial, por grandes investimentos em infraestrutura e, principalmente, pela construção de Brasília, inaugurada em 1960 como símbolo de modernização nacional.
Após o golpe militar de 1964, JK teve seu mandato de senador cassado e seus direitos políticos suspensos. Anos depois, em 22 de agosto de 1976, morreu em um acidente na Via Dutra, quando o Opala em que viajava colidiu com uma carreta. A explicação, entretanto, nunca foi suficiente para encerrar as suspeitas.
Entre os pontos questionados ao longo dos anos estavam as circunstâncias da colisão, depoimentos de testemunhas e interpretações diferentes sobre as evidências encontradas no veículo. A hipótese de que o carro poderia ter sido atingido ou interferido de maneira intencional alimentou a possibilidade de um atentado.
Por que surgiu a hipótese de assassinato?
A suspeita de assassinato não pode ser separada do contexto político daquele momento. O Brasil vivia uma ditadura militar e o JK havia sido um dos principais nomes da política nacional antes do golpe, chegando a integrar a Frente Ampla, articulação que reunia diferentes setores da oposição ao regime.
Além disso, outras mortes de figuras políticas latino-americanas durante as décadas de 1970 e 1980 passaram a ser associadas posteriormente à chamada Operação Condor, articulação de cooperação entre regimes militares da América do Sul para perseguir opositores.
Foi nesse cenário que a possibilidade de JK ter sido eliminado por razões políticas ganhou força entre pesquisadores, familiares, políticos e setores da sociedade.
As investigações que mantiveram a dúvida viva
A controvérsia não terminou com a investigação realizada na época do acidente. Em 1996, o corpo de Juscelino Kubitschek foi exumado na tentativa de esclarecer as circunstâncias de sua morte. De acordo com registros do Senado, a exumação não encontrou elementos capazes de modificar a explicação baseada no acidente automobilístico.
Anos mais tarde, novas comissões voltaram a analisar o caso. Em 2013, por exemplo, a Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo defendeu a tese de que JK teria sido vítima de um atentado. O grupo afirmou ter analisado dezenas de elementos e chegou a uma conclusão diferente daquela posteriormente apresentada pela Comissão Nacional da Verdade.
O Grupo de Trabalho Juscelino Kubitschek, ligado às Faculdades de Direito da USP e do Mackenzie, também reuniu documentos, testemunhos e análises sobre o episódio e apresentou um relatório em 2014 que questionava aspectos da investigação oficial.
O que concluiu a Comissão Nacional da Verdade?
A Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada em 2011 para investigar graves violações de direitos humanos ocorridas no período entre 1946 e 1988, também analisou o caso.
Em seu relatório final, publicado em 2014, a CNV chegou a uma conclusão diferente daquela defendida pela Comissão da Verdade de São Paulo.
Depois de analisar documentos, fotografias, laudos, depoimentos e processos judiciais, a comissão afirmou não ter encontrado elemento material que indicasse que JK e seu motorista tivessem sido vítimas de homicídio doloso. A perícia realizada pela CNV concluiu que os dois morreram em decorrência das lesões provocadas pela colisão do Opala.
A conclusão, portanto, foi de que não havia evidências suficientes para afirmar que Juscelino Kubitschek havia sido assassinado pela ditadura.
por que a discussão continua?
A existência de conclusões diferentes é justamente uma das razões pelas quais o caso permanece tão presente na memória brasileira.
De um lado, existem investigações oficiais e análises periciais que apontam para um acidente. De outro, pesquisadores e comissões levantaram questionamentos sobre as circunstâncias da colisão e defenderam a hipótese de um atentado.
É importante, porém, diferenciar hipótese histórica de fato comprovado. Até hoje, não existe consenso documental que permita afirmar de forma definitiva que JK foi assassinado. A conclusão da Comissão Nacional da Verdade, baseada no conjunto de provas que analisou, foi de que não havia evidências materiais suficientes para sustentar essa afirmação.
Ao mesmo tempo, a controvérsia não deixa de ser relevante: ela revela como a memória sobre o período da ditadura brasileira ainda é atravessada por perguntas, documentos incompletos, testemunhos conflitantes e diferentes interpretações históricas.
___________
O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.
Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!