Do inglês folklore, em que folk significa “povo” e lore equivale a “conhecimento”, o folclore é uma herança cultural: histórias, músicas, danças, tradições e até saberes da culinária que são passados entre as gerações, de pai para filho. É o saber de um povo, a forma como ele lida com a realidade e as expressões artísticas que isso gera. O folclore nasce na oralidade, e vai muito além da visão de mitos e histórias inventadas que muitos têm sobre eles; as lendas folclóricas são um retrato de vivências, pensamentos, crenças — fazem parte da construção histórica da identidade brasileira, seja esta indígena, africana ou imigrante.
O impacto da cultura folclórica no Brasil
A ancestralidade é o epicentro da nossa cultura, e são tão diversas as raízes históricas do Brasil que fica difícil fazer uma definição concreta do que é o folclore — mas, essencialmente, esta não é uma forma de arte feita com o objetivo de ser conservada. Segundo o maior folclorista do Brasil, Câmara Cascudo, o folclore “é a cultura do popular tornada normativa pela tradição”. O saber transmitido pela fala se separa da “cultura oficial” e erudita de uma região, e se aproxima muito mais de uma expressão de saberes e práticas sociais, que eventualmente podem se concretizar na cultura de um povo através dessa difusão e repetição entre as pessoas.
Há mais de 100 anos, na época do movimento Modernista no Brasil, o folclore começou a ser consolidado como um símbolo da cultura nacional. Em um momento de epifania na construção de uma arte puramente brasileira, os modernistas entenderam que a valorização das raízes históricas era a parte mais importante: ao rejeitar os modelos europeus e eurocêntricos, se cria uma compreensão maior sobre o que significa ser brasileiro e quais as reverberações dos nossos antepassados no presente. Um dos grandes nomes desse período, o poeta Mário de Andrade, também foi um dos grandes estudiosos e pesquisadores da cultura popular no Brasil, ao passo em que via o folclore como uma base viva da identidade nacional.
Qual a visão dos brasileiros sobre o folclore?
Mesmo assim, a marginalização da cultura folclórica ainda é muito forte: pouco se fala sobre o que ela de fato significa, e acaba-se por reduzir e simplificar as suas narrativas de forma caricata. Para o filósofo italiano Antonio Gramsci, o folclore não deve ser imaginado “como uma extravagância, uma raridade ou um elemento pitoresco, mas como uma coisa séria que deve ser levada a sério”.
O entendimento do folclore no Brasil é, muitas vezes, limitado às lendas em sua maioria de origem indígena contadas na escola, sem muito aprofundamento nas suas reverberações sociais. Mais do que histórias, os contos folclóricos possuem em sua essência uma marca cultural do povo que a idealizou, e podem ser usados, inclusive, para entender os costumes e hábitos de pedaços do povo brasileiro nos dias contemporâneos. As superstições e os ditados populares, por exemplo, estão ligadas à narrativas folclóricas de todo tipo de origem, especialmente portuguesa.
Ao tratar as narrativas folclóricas como algo distante e inventado, se desvaloriza ainda mais a sua origem e importância: chamar o Curupira, a Iara e o Saci-Pererê de “personagens do folclore” não só tira sua bagagem histórica de contexto, mas também desconsidera o fato de todos esses serem entidades sagradas em diversas religiões pelo país. Muitas pessoas, inclusive, nem consideram tais seres como folclóricos, já que eles fazem parte de seu cotidiano e não são vistos como simples lendas. As versões de cada ação que eles realizam na natureza e na vida das populações são inúmeras, tamanha a diversidade que o Brasil possui, principalmente de comunidades e etnias.
Folclore é cultura — cultura é ser brasileiro
Mais do que transmitir a cultura folclórica, entender suas origens e sua importância na contemporaneidade é preservar o patrimônio cultural e histórico do Brasil. Respeitar as crenças e os saberes daqueles que moldaram a identidade nacional — e entender a grande mistura de culturas que se juntam em um só país — é o que de fato nos torna brasileiros.
Afinal, o que seria do Brasil sem a cultura do seu povo?
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The article above was edited and translated by Ana Beatriz Carvalho Sapata.
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