Na história contada à milênios, “A Odisseia”, acompanhamos a longa jornada de Ulisses, rei de Ítaca, que passa anos tentando voltar para casa depois da guerra de Tróia. No caminho, enfrenta monstros, guerras, deuses e inúmeros obstáculos que transformam sua viagem em uma das aventuras mais conhecidas da mitologia grega. Enquanto ele atravessa mares e enfrenta perigos para voltar à sua terra, sua esposa, Penélope, passa grande parte da sua vida na espera da volta de seu marido, permanecendo em Ítaca, cercada por pretendentes e tentando preservar aquilo que lhe pertencia. Sua inteligência e estratégia são fundamentais para a narrativa, mas, durante séculos, sua história ficou principalmente conhecida pela espera.
É justamente aí que surge uma questão que ultrapassa a mitologia grega: estar no centro de uma história significa necessariamente ser a protagonista dela? Penélope é uma personagem da Odisseia, mas sua identidade está historicamente ligada à de Ulisses. Ela é a esposa que espera pelo herói. A mulher que permanece enquanto ele parte. Sua trajetória parece existir em relação à trajetória masculina. Esse tipo de construção não permaneceu apenas às histórias antigas. Nos dias de hoje também aparece em situações cotidianas. Muitas vezes, de maneira tão naturalizada, que passa despercebida.
Mulheres ainda são apresentadas a partir dos homens que as cercam. Como a esposa de alguém, filha de alguém, namorada de alguém, mãe de alguém. Enquanto homens frequentemente são definidos por aquilo que fazem, pela profissão que exercem. Já as mulheres, são definidas pelas relações que possuem. Podem estar no centro de suas próprias trajetórias e, ainda assim, encontrar obstáculos para serem reconhecidas como protagonistas. Não necessariamente porque alguém as impede diretamente de falar ou agir, mas porque responsabilidades, expectativas e estruturas sociais ainda distribuem de maneira desigual o espaço ocupado por homens e mulheres.
O protagonismo que começa dentro de casa
Um dos exemplos mais cotidianos está justamente no lugar onde muitas histórias começam: dentro de casa. De acordo com o IBGE, em 2022, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Não é diferente para as mulheres empregadas, já que a dupla jornada continua fazendo parte da realidade de muitas brasileiras. É uma diferença que pode parecer banal quando observada em uma única tarefa, preparar uma refeição, lavar roupa, organizar a casa, cuidar dos filhos. O problema aparece quando essas pequenas tarefas se acumulam e se tornam responsabilidade única, e exclusiva, da mulher.
Enquanto o homem termina seu expediente e considera seu dia encerrado, muitas mulheres ainda precisam administrar aquilo que continua acontecendo dentro de casa. Não é apenas uma questão de quantidade de trabalho, mas de tempo disponível para si mesma. Tempo para estudar, descansar, construir uma carreira, desenvolver um projeto ou simplesmente não fazer nada. O protagonismo também depende disso: de ter tempo e liberdade para escolher o que fazer com a própria vida.
“Não se pode, com facilidade, inserir as mulheres numa estrutura que já está codificada como masculina, é preciso mudar a estrutura.”
Mary Beard, historiadora.
A mulher pode até ocupar uma sala de reunião, liderar uma equipe ou construir uma carreira. Mas, ao chegar em casa, ainda pode ser considerada a principal responsável por lembrar da consulta médica do filho, comprar o presente de aniversário, organizar a despensa ou perceber que o sabão em pó está acabando.
É uma espécie de protagonismo dividido: ela é protagonista no trabalho, mas continua sendo colocada como coadjuvante quando o assunto é decidir quanto de sua própria vida poderá dedicar a si mesma.
As histórias que aprendemos a contar
Livros e filmes também participam da construção dessa percepção. As narrativas que consumimos ajudam a determinar quais histórias consideramos interessantes, quais personagens merecem atenção e quem pode ocupar o centro da trama.
Por isso, quando uma mulher deixa de ser apenas o interesse amoroso, a mãe, a esposa, ou a motivação do protagonista, e passa a conduzir a própria narrativa, existe uma mudança que vai além da representação.
Em “Adoráveis Mulheres”, por exemplo, Jo March não é apresentada apenas a partir dos homens que ama. Seus conflitos também estão relacionados à escrita, à independência, à família, e ao desejo de construir uma vida que faça sentido para ela. Em “Jogos Vorazes”, Katniss não existe para completar a trajetória de um personagem masculino: suas escolhas e seus conflitos movimentam a história e a fazem crescer.
São narrativas em que a mulher não precisa abandonar sua feminilidade ou seus relacionamentos para serem protagonistas da própria história. Ela simplesmente possui uma história que não depende deles, somente dela. Por isso a importância de narrativas que tenham protagonistas fortes e que conduzem a própria vida, sem depender da aprovação da sociedade ou de um relacionamento amoroso.
Quando a mulher deixa de ser coadjuvante
O problema não está apenas em quantas mulheres aparecem nas histórias, mas em quais lugares elas ocupam dentro delas. Por muito tempo, ser esposa, mãe, musa, ou personagem secundária, pareceu suficiente para definir a importância de uma mulher. E, mesmo fora da ficção, ainda existem espaços em que sua presença é aceita, mas sua voz é constantemente interrompida, questionada ou colocada em segundo plano.
É nesse ponto que a história de Penélope deixa de ser apenas uma referência literária. Enquanto sua existência é tradicionalmente lembrada pela espera por Ulisses, pouco se fala sobre quem ela era para além dessa espera. A questão, portanto, não é simplesmente dar às mulheres mais espaço nas narrativas, mas permitir que elas sejam reconhecidas por aquilo que fazem, pensam e escolhem, e não apenas pela relação que possuem com um homem.
Na vida real, isso significa questionar por que ainda é necessário provar competência antes de receber crédito, por que determinadas ambições femininas são vistas como excessivas, e por que mulheres que ocupam espaços de liderança continuam sendo julgadas por características que dificilmente seriam usadas para avaliar um homem.
Talvez o verdadeiro protagonismo feminino começa quando a mulher deixa de ser apresentada como coadjuvante na história de alguém, e passa a ser reconhecida como protagonista da própria. Não porque os homens precisam desaparecer dessas narrativas, mas porque já passou da hora de as mulheres não precisarem existir à sombra deles.
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O artigo acima foi editado por Maryanna Arison.
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