O futebol brasileiro costuma ser visto como um espaço de união, paixão e igualdade, onde o talento seria o único requisito para alcançar o sucesso. No entanto, pesquisas de entidades especializadas mostram que a realidade é bem diferente. Os gramados também refletem preconceitos presentes na sociedade e se tornaram um dos principais cenários de discriminação no esporte.
Os números comprovam isso: cerca de 90% dos casos registrados no esporte brasileiro acontecem no futebol. Esse cenário também está ligado ao enorme espaço que a modalidade ocupa na mídia, concentrando aproximadamente 95% do tempo dedicado aos debates esportivos.
A evolução dos casos ao longo dos anos reforça a gravidade do problema. Em 2017, o esporte brasileiro registrou 77 episódios de discriminação, sendo 69 deles no futebol. Desses, 51 foram motivados por racismo e 10 por preconceito contra a população LGBTQIAPN+. Em 2023, o total saltou para 250 casos no esporte, dos quais 222 ocorreram no futebol, sendo 184 relacionados ao racismo e 38 à LGBTfobia.
Embora o racismo continue liderando as estatísticas, a homofobia se consolidou como a segunda principal forma de violência dentro dos estádios. O aumento das denúncias, por outro lado, mostra uma mudança de postura da sociedade. Torcedores, atletas e profissionais passaram a denunciar situações que antes eram tratadas apenas como parte da rivalidade esportiva.
Regionalmente, Rio Grande do Sul e São Paulo concentram o maior número de registros, principalmente porque possuem redes de monitoramento mais estruturadas. O problema, porém, não se limita ao Brasil. Casos envolvendo atletas brasileiros no exterior também cresceram, passando de oito ocorrências em 2017 para 28 em 2023.
O silêncio forçado nos vestiários
Para quem é homossexual no futebol masculino de alto rendimento, viver a própria identidade muitas vezes significa colocar a carreira em risco. O ambiente esportivo ainda é marcado por uma cultura de hipermasculinidade, que leva atletas e profissionais a esconderem sua orientação sexual por medo da rejeição, da violência e até do desemprego.
O relato do árbitro internacional Igor Junio Benevenuto evidencia essa realidade. Depois de mais de duas décadas de carreira, ele tornou pública sua orientação sexual e definiu o futebol como um lugar que foi, ao mesmo tempo, seu refúgio e sua prisão. Alvo de apelidos e deboches desde a infância, Benevenuto revelou que precisou construir uma imagem heterossexual para sobreviver no meio esportivo, afirmando que muitos profissionais ainda preferem permanecer em silêncio por medo das consequências.
Essa pressão também atingiu ex-jogadores de destaque, como o comentarista Richarlyson, que criticou a forma como parte da imprensa tratou sua vida pessoal, desviando o foco da discussão sobre o preconceito estrutural existente no futebol. As consequências vão além do ambiente esportivo e afetam diretamente a saúde mental. Levantamentos nacionais apontam que cerca de 62,5% da população LGBTQIAPN+ já pensou em suicídio em razão da violência psicológica e do isolamento social.
Ao mesmo tempo, o envolvimento dos clubes em campanhas de conscientização diminuiu nos últimos anos. Em muitos casos, as ações se tornaram superficiais por receio da reação das torcidas. Um exemplo aconteceu no Bahia, quando integrantes de uma torcida organizada atacaram a diretoria ao relacionar o desempenho esportivo do clube ao apoio dado às pautas de inclusão.
A intolerância também aparece em competições internacionais. Durante a Copa do Mundo do Catar, por exemplo, o jogador australiano Josh Cavallo demonstrou preocupação com a própria segurança, já que as autoridades locais não garantiam proteção a torcedores e atletas homossexuais.
Cultura de arquibancada e a resistência feminina
Grande parte dessa rejeição nasce ainda na infância, quando o futebol é apresentado como um símbolo de masculinidade. Pesquisas acadêmicas mostram que jogar e torcer acabam funcionando como um processo de aprendizado social no qual força e agressividade são valorizadas, enquanto comportamentos considerados femininos ou associados à homossexualidade são alvos de ridicularização.
Esse comportamento se mantém nas arquibancadas por meio de cantos, piadas e ofensas homofóbicas, frequentemente tratados como parte da cultura do futebol. Quem questiona essa conduta costuma ser ridicularizado, o que contribui para transformar muitos estádios em ambientes de intolerância.
Os estudos também indicam que esse preconceito aparece com mais intensidade entre pessoas com visões morais mais rígidas, enquanto indivíduos que compreendem a sexualidade como uma construção histórico-cultural tendem a demonstrar maior aceitação da diversidade.
Em contraste, o futebol feminino brasileiro tem se consolidado como um espaço mais acolhedor. Apesar da falta de investimentos, dos baixos repasses financeiros e do machismo ainda presente entre dirigentes, as atletas construíram uma comunidade de maior aceitação. A ex-jogadora Formiga, inclusive, já contou que ouviu de um presidente de clube que atletas homossexuais não teriam espaço em sua equipe.
Essa realidade faz com que muitas torcedoras lésbicas relatem sentir mais segurança nos jogos do futebol feminino, onde encontram um ambiente mais tranquilo e distante das agressões verbais frequentemente presentes nas partidas masculinas.
O labirinto das leis e o caminho para o futuro
Do ponto de vista jurídico, o Brasil avançou ao equiparar a homofobia ao crime de racismo e ao atualizar a Lei Geral do Esporte, que prevê punições para casos de discriminação nos estádios. O Código Brasileiro de Justiça Desportiva também estabelece multas, suspensões e até perda de pontos para clubes envolvidos em episódios dessa natureza.
Na prática, porém, a aplicação dessas normas ainda enfrenta obstáculos. Muitos árbitros interrompem as partidas diante de cantos homofóbicos, mas deixam de registrar oficialmente os episódios nas súmulas, dificultando a abertura de processos disciplinares.
Nos poucos casos que chegam aos tribunais, as punições têm sido mais rigorosas. O Corinthians disputou uma partida com portões fechados após manifestações homofóbicas de sua torcida em um clássico. O Vitória recebeu multa de R$100 mil e perdeu dois mandos de campo por ofensas coletivas contra o técnico Rogério Ceni, mesmo alegando que apenas uma pequena parcela dos torcedores participou das agressões. Flamengo e treinadores de competições regionais também já foram punidos por episódios semelhantes.
Apesar desses avanços, especialistas alertam que o combate à discriminação sofreu um retrocesso com a redução da transparência dos tribunais desportivos, os quais passaram a dificultar o acesso a informações públicas e ignorar solicitações feitas por entidades da sociedade civil.
Mesmo diante dessas dificuldades, levantamentos do Coletivo Canarinhos LGBTQ+ mostram que as denúncias formais cresceram 28,6% em 2024, passando de sete para nove registros.
Para que o futebol se torne realmente inclusivo, especialistas defendem medidas mais efetivas. Entre elas estão a aplicação rigorosa da perda de pontos para clubes envolvidos em casos de discriminação, punições mais severas para árbitros que deixam de registrar ofensas nas súmulas, a utilização de biometria para identificar e afastar torcedores reincidentes e a criação de programas permanentes de educação nas categorias de base. A mudança passa não apenas pela punição, mas também pela formação de uma nova cultura, capaz de romper com preconceitos que ainda fazem parte do cotidiano do futebol brasileiro.
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O artigo acima foi editado por Laís Hidalgo.
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