Foi em Auschwitz, um dos campos de concentração da Alemanha nazista, que Claudia Andujar perdeu metade de sua família aos 13 anos. O ano era 1945 e a Segunda Guerra Mundial havia acabado, mas a batalha de sua vida estava apenas começando. Hoje, aos 95 anos, a fotógrafa mostra que transformou essa história em luta, arte e legado.
O PASSADO CONDENou OU CONSTRUIU FUTURO?
Você com certeza já ouviu o dito popular: “seu passado te condena”. Para quem acredita nisso, o passado raramente respeita seu tempo de ficar para trás. Em diferentes momentos da vida, ele reaparece na forma de lembranças e escolhas, ditando os caminhos que serão percorridos dali em diante. Para alguns, pode representar uma condenação. Para outros, pode ser a base sobre a qual novos futuros serão construídos. No caso de Claudia Andujar, o passado construiu seu futuro e ajudou a definir não apenas sua trajetória pessoal, mas também seu olhar para o mundo. Ainda assim, o caminho até esse momento foi longo e marcado por desafios. Com a perda de sua família, Claudia passou a viver como refugiada. Morou na Hungria, na Suíça e nos Estados Unidos, até chegar ao Brasil, em 1955, onde teve seu primeiro contato com uma câmera.
Embora sua jornada tenha perpassado, desde então, por vários registros e pautas diferentes, uma mesma característica manteve-se presente em todas elas: o propósito de dar visibilidade para a marginalização social. Fotografou prostitutas, registrou cirurgias espíritas, documentou a realidade da comunidade LGBTQIA+ em São Paulo e no Rio de Janeiro e acompanhou a vida de usuários de drogas. “Foi um trauma enorme na minha vida. Isso me levou a querer trabalhar com populações em perigo e discriminadas”, afirmou a fotógrafa em entrevista à TV Cultura, ao recordar a perda de sua família durante a guerra.
Após alguns anos de trabalho no Brasil, a ativista já era reconhecida como um dos grandes nomes da fotografia. Passou por publicações nacionais e internacionais até ser contratada pela revista Realidade, onde produziu um dos trabalhos mais importantes de sua vida: a edição especial Amazônia. Em 1971, Claudia realizou a viagem que não apenas a levaria a fotografar os Yanomami pela primeira vez, mas também a reconstruir o significado de família. “Eu estava à procura de uma família, e eu encontrei”, disse Andujar em entrevista.
A FOTOGRAFIA como TESTEMUNHO
Durante a ditadura militar, o governo brasileiro, com o objetivo de promover a integração nacional, abriu mais uma estrada na região: a rodovia Perimetral Norte. A construção atravessava territórios de diversos povos indígenas, entre eles Yanomami e Ye’kwana. Para os Yanomami, porém, a obra representou o início de um processo de etnocídio. Os impactos da Perimetral Norte revelaram-se diversos, provocando desde uma crise sanitária de sarampo à 12 epidemias e inúmeras mortes: os indígenas estavam vivenciando um dos seus primeiros contatos com o povo da cidade. Eles não tinham anticorpos suficientes para lidar com as doenças trazidas pelos funcionários da empreiteira, que agora estavam inseridos no seu território.
“Houve uma mudança radical. Era o primeiro contato que eles sofreram e era um contato agressivo que atingiu toda a área sul do território tradicional yanomami e no qual morreram muitos índios”, relatou Claudia ao canal. Foi ali, em meio ao contexto de catástrofe humanitária vivenciada pelos povos originários, onde ela encontrou uma maneira de transformar o registro fotográfico em um instrumento documental de resistência e auxílio. Dentre a série de fotografias mais simbólicas capturadas no período, está um encadeamento de retratos, que consistia em apresentar indígenas Yanomami com uma placa enumerada ao redor do pescoço, criando, desse modo, uma espécie de catálogo para que os médicos pudessem acompanhar e controlar o avanço da epidemia de sarampo.
Essas fotos, mais tarde, virariam símbolo e começariam a mostrar para o mundo quem eram os Yanomami. Com a fotografia, não dava mais para invisibilizar algo que já estava bem visível. Eles tinham rosto, expressão e nome. Para Marcos Wesley, indigenista, o trabalho de Claudia Andujar foi fundamental: “Foi muito importante para que a história dos Yanomami fosse menos trágica”.
LUZ, CÂMERA E CONTRASTE: REVELANDO UM POVO
Além de usar sua fotografia como suporte a várias causas indígenas, a fotógrafa também tinha uma visão afiada e sabia exatamente como transformar técnica em mensagem. Claudia usava a luz, o contraste e a composição das imagens para dar visibilidade às crenças, aos ideais e à forma como o povo Yanomami enxergava o mundo. De forma bastante abstrata, por exemplo, Claudia produziu uma imagem que faz uma criança yanomami se assemelhar aos xapiri. No xamanismo Yanomami, os xapiri são os espíritos guardiões da floresta, considerados manifestações xamânicas dos ancestrais e das entidades da natureza.
Além disso, Claudia conta que, durante os anos em que viveu entre os Yanomami, passou a se sentir parte da família. Conheceu a cultura, aprendeu a língua e criou laços profundos com a comunidade. A Amazônia trouxe para a fotógrafa a reconstrução de uma família que havia sido tirada dela tão cedo. Essa relação transformou também seu trabalho, que ultrapassou o registro fotográfico para incorporar um olhar atento aos costumes, crenças e formas de vida do povo Yanomami. Mais do que registrar uma comunidade, Claudia buscou compreendê-la a partir da convivência. ´´A minha intenção principal era de conhecê-los como povo, e depois através da fotografia, que é parte do meu trabalho, apresentá-los para o mundo´´.
A LUTA NÃO TERMINOU
Claudia passou décadas representando resistência e justiça ao lado desse povo. Fundou uma ONG e foi desde gabinetes em Brasília até a convenção das Nações Unidas, defendendo seus direitos. A história do sarampo na década de 70 não é um caso isolado e voltou a se repetir durante a pandemia de Covid-19. Desde a chegada de invasores europeus em terras brasileiras, os Yanomami enfrentam desafios como a invasão de garimpeiros, a poluição dos rios e os impactos na própria saúde. Além dos danos ao território, esses invasores também levam doenças que colocam em risco comunidades que historicamente tiveram pouco contato com a população não indígena.
E a luta persiste. Ao longo das últimas décadas, o trabalho de Claudia Andujar ao lado dos Yanomami ganhou reconhecimento em alguns dos mais importantes espaços culturais do Brasil e do mundo. Suas fotografias já foram expostas em instituições como o Itaú Cultural, o Museu de Inhotim e o Instituto Moreira Salles, que nesse contexto, por sua vez, realizaram uma grande curadoria que percorreu cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Milão e Londres. Ao fazer de seus registros uma ferramenta de denúncia, Claudia ajudou a projetar a resistência Yanomami e deixou um legado que segue viajando o mundo. “Na questão da sobrevivência desses povos, eu acho que é uma questão de justiça e que foi meu caminho falar sobre isso. Se isso acontece através da câmera ou se isso acontece através de uma campanha humanitária, tanto faz. É a mesma coisa”, afirmou Claudia Andujar em entrevista à TV Cultura.
Hoje em dia, a fotógrafa mora em São Paulo e não atua mais ativamente. Porém, segue sendo referência na luta pelo direito de povos marginalizados, sobretudo dos indígenas. Além disso, mesmo vivendo em territórios diferentes, o coração segue nutrindo os mesmos sentimentos e a fotógrafa demonstra profunda união e lealdade à sua história com os Yanomami. “Vou deixar um recado com alguém de confiança. Depois que eu morrer, que meu corpo seja levado lá nos Yanomami e que eles façam os rituais mortuários para mim”. Foi uma vida inteira juntos e Claudia deixa um legado muito claro, mostrando que essa luta é de todos: “Eu gostaria de pedir ao grande público que tome conhecimento da causa e se manifeste”, afirmou a fotógrafa em entrevista.
O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.
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