Se nunca tivemos tanto acesso à informação, por que agora parece que somos cada vez menos capazes de pensar com profundidade?
Isso acontece por causa de um fenômeno conhecido como “infoxicação”, que se trata da junção entre informação e intoxicação. O termo foi criado pelo sociólogo Alfons Cornellà, que descreve como a sobrecarga de informações pode ultrapassar o limite de processamento do cérebro humano. Assim, o excesso de conteúdo deixa de ampliar o entendimento e passa a comprometer a capacidade de compreensão.
O problema em si não é a grande quantidade de informação, mas o fato dela ser fragmentada e acelerada.
Estamos mais informados ou apenas mais expostos?
Estamos na chamada era da informação, e aquilo que, em teoria, representaria o auge do desenvolvimento humano, na prática expõe um certo regresso mental.
Pela primeira vez na história, o conhecimento deixou de estar concentrado em instituições fechadas, elites intelectuais ou centros específicos de poder. Hoje, graças à internet, eles circulam com velocidade, alcance e acessibilidade sem precedentes. Ou seja, chegou-se ao estágio de democratização do saber, em muito almejado pela sociedade.
O esperado era a formação de seres mais conscientes, críticos e preparados. Contudo, o excesso de informação a que a sociedade está exposta gerou mais confusão, dispersão e desgaste mental.
Cérebro saturado pelo excesso digital
Apesar de a internet possibilitar um acesso quase que ilimitado ao conhecimento, a maioria da população não consegue consumi-lo de forma consciente para fazer um bom uso daquilo que está sendo apresentado.
Os indivíduos têm perdido o controle do que consomem, especialmente a capacidade de buscar por aquilo que educa e edifica, pois os cérebros se condicionaram a assistir aquilo que lhes gera prazer, é o que afirma a psicóloga Raquel Marvila Lopes Alves, que lida diariamente com questões avaliações neuropsicológicas e problemas comportamentais, influenciados pela tecnologia na vida das pessoas:
“O nosso cérebro precisa de espaço, ele precisa de tempo e de organização para poder lidar com todas as informações. O cérebro não foi feito para você estar o tempo todo tendo acesso a essas informações”.
O que diz a neurologia?
Raquel explica que existe um neurotransmissor responsável por dar motivação para uma ação, a dopamina, também chamado erroneamente de “hormônio do prazer”. Ele está associado à expectativa de recompensa, ou seja, é liberado quando o cérebro antecipa algo interessante. A substância ajuda o órgão a identificar o que é relevante e a incentivar a repetição de certos comportamentos.
Cada vez que a tela é mexida, o cérebro entra em um estado de expectativa de que o próximo conteúdo possa ser mais interessante, o que gera uma curiosidade de permanecer por mais tempo nas plataformas. Com isso, ele fica preso em uma sequência de recompensas rápidas e fragmentadas, o que impossibilita uma saturação completa ou reflexão.
Isso é chamado de “doomscroling”, um termo em inglês que traduzido para o português significa “rolagem da perdição” — que foi eleito como uma das palavras do ano pela Oxford em 2020, devido à pandemia, quando as pessoas passavam horas nas redes sociais. Ele se refere ao ato de rolar a tela sem parar, o consumo de vídeos verticais de curta duração por um longo período de tempo, sem se dar conta de quanto tempo passou.
Nas redes sociais, como o TikTok e Instagram, os conteúdos não chegam de forma organizada, mas em fluxos constantes. Na maioria das vezes, os usuários não buscam um conteúdo específico, mas são expostos a uma sequência quase infinita de estímulos curtos, que competem entre si pela atenção.
“Se você não ganhar a atenção em 3 segundos, já era”
Existe uma estratégia utilizada entre criadores de conteúdo que se baseia no fato de que se os 3 primeiros segundos de um vídeo não chamarem a atenção do seguidor, ele provavelmente irá passar o seu vídeo. Então, os vídeos já são feitos para prender a atenção das pessoas, e isso cria uma dinâmica em que o importante não é aprofundar, mas reter.
Vídeos curtos, feitos em uma velocidade rápida, com vários cortes e cenas, utilizando um jogo de imagens e sons… Tudo é feito intencionalmente para o usuário se sentir entretido, sem ele mesmo perceber.
Com o tempo, o cérebro dessas pessoas passa a aceitar apenas esse tipo de produção dinâmica, e aquilo que é mais lento, longo e que exige um pouco mais de raciocínio crítico, passa a ser entediante e digno de ser ignorado.
A psicóloga ainda traz uma perspectiva profissional e estratégica acerca disso: “Quanto mais você se expõe a uma rota específica, o cérebro vai criando caminhos. Então as outras funções ficam prejudicadas, porque ele quer o retorno rápido; ele automatizou isso. Justamente por você estar buscando muito um estímulo único de três segundos, ele vai ficando “preguiçoso”, porque entende que aquilo te dá um certo prazer, que aquilo está te condicionando a um caminho que você está buscando”.
Na psicologia, isso se chama “neuroadaptação”, que é o que acontece quando você pega o celular e não consegue sair desse ciclo de exposição de vídeos curtos.
À longo prazo, são perceptíveis diversos problemas causados por isso, como a escassez de consciência crítica e pessoas viciadas em redes sociais. A depender dos níveis de exposição, podem ser desenvolvidos ansiedade, desgaste mental, cansaço constante e até depressão, em especial nos mais jovens que não percebem esses efeitos.
A profissional explica que esse acúmulo de informações traz uma sobrecarga para o cérebro, uma vez que ele não tem espaço para se organizar. “Isso também vai prejudicando a sua atenção, a sua capacidade de memorização”, completa a especialista.
Como recuperar o controle?
É necessário ter consciência de que existe uma disputa ativa pela nossa atenção. O controle vai além da força de vontade, visto que a problemática é observada desde o nível comportamental, até químico, como visto com a dopamina.
Dito isso, é preciso sair do consumo automático e ir em direção ao intencional. Muitas pessoas que passam o seu tempo no TikTok ou Instagram fazem isso sem uma decisão consciente, pensando ser só por um momento, mas quando menos percebem, já estão imersos.
Contudo, a psicóloga traz algumas recomendações para que o cérebro processe as informações de maneira mais eficaz: criar espaços de descanso mental, momentos de leitura e silêncio, além de questionar se determinado conteúdo contribui para a formação pessoal ou apenas ocupa o tempo de forma superficial.
“O seu cérebro precisa de espaço para se organizar. Ele é uma máquina perfeita, mas ele tem o tempo determinado para processar a informação”, conclui Raquel.
As recomendações vão além, como silenciar notificações, definir horários específicos para o uso, remover aplicativos da tela inicial, praticar o consumo consciente, criar rotinas fora da tela, entre outros. O exercício mental para se manter distante desse tipo de vício é progressivo, somente com o passar do tempo será possível entender e aplicar as estratégias que criou para não se permitir ser “infoxicado”.
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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.
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