Laudelina de Campos Mello nasceu em Minas Gerais, na cidade de Poços de Caldas, em 12 de outubro de 1904, menos de 20 anos depois da abolição da escravatura no país, em 1888. Ela começou a trabalhar aos sete anos de idade, abandonou a escola para cuidar dos irmãos enquanto a mãe saía de casa para garantir o sustento da família e, aos 16 anos, passou a atuar em organizações sociais do movimento negro. Aos poucos, foi trilhando seu caminho ao desafiar o racismo estrutural e a invisibilidade social imposta às mulheres negras.
Memória, resistência e reconhecimento histórico
A atuação de Laudelina e outras mulheres pioneiras nos direitos das trabalhadoras domésticas e negras foi essencial, pois deu início à sindicalização e reforma no que diz respeito a novas leis que garantissem direitos e deveres às mulheres atuantes na área. Já que, segundo fontes do site da BBC, até então, as leis sanitárias associadas ao serviço doméstico visavam apenas proteger a sociedade contra as trabalhadoras domésticas, tidas como hostis para as potenciais famílias empregadoras.
Tal categoria só teve seus direitos assegurados, de fato, em 1972, com carteira assinada e previdência social, porém ainda com diversas outras restrições.
O legado de Laudelina para o Brasil atual
Seu legado é o alicerce para a profissionalização e valorização da classe doméstica. Ela desconstruiu a visão colonial que equiparava o trabalho do cuidado a um favor ou caridade. Ideia que segue sendo reforçada em debates políticos que visam, de maneira implícita, reduzir os benefícios sociais e regredir os avanços conquistados até então pela classe.
A luta de Laudelina preparou o terreno para a Emenda Constitucional n. 72, apelidada de PEC das domésticas, que, em 2013, garantiu às trabalhadoras domésticas benefícios semelhantes aos de outras categorias profissionais. Entre eles, a jornada de trabalho de 44 horas semanais, com limite de oito horas diárias, e o pagamento de hora-extra.
Em 2023, a mineira foi declarada Heroína da Pátria e passou a ganhar cada vez mais visibilidade em âmbito nacional. Prova disso são as exposições em sua homenagem, como: “Dignidade e Luta: Laudelina de Campos Mello”, aberto à visitação até outubro no Instituto Moreira Salles, que reforça o trabalho doméstico como uma profissão que exige direitos e, principalmente, respeito.
A interseccionalidade cunhada por Laudelina
Muito antes do termo “interseccionalidade” ser definido, Laudelina compreendia que a discriminação contra a mulher negra unia raça, gênero e classe. O termo seria cunhado pela jurista e teórica norte-americana Kimberlé Crenshaw, em 1989, no entanto, a mineira já sentia isso na pele desde 1930, através de sua vivência como ativista e líder sindical.
A relação entre raça, gênero e classe forma a base da estrutura social e das desigualdades. A importância do reconhecimento de tal interseccionalidade está diretamente ligada aos privilégios ou às vulnerabilidades que um indivíduo ou grupo vivencia na sociedade.
O conceito sintetiza que a opressão de uma mulher negra e periférica não é resultado da soma de ser mulher e negra e pobre. Mas uma experiência única onde esses três fatores se fundem e criam formas específicas de discriminação e exclusão, diferenciando as vivências de uma mulher branca de classe média à de uma mulher negra e operária.
Por que Laudelina continua sendo referência
Seu nome segue sendo perpetuado por combater a herança escravocrata, o racismo estrutural e a desvalorização do trabalho de cuidado. Laudelina atuou fortemente na Frente Negra Brasileira e, mesmo após sofrer diversas perseguições políticas e prisões durante a Ditadura Militar, manteve sua articulação e seguiu trabalhando em projetos que protegem a classe doméstica até os dias atuais.
“A situação da empregada doméstica era muito ruim. A maioria daquelas antigas trabalharam 23 anos e morriam na rua pedindo esmola. Lá em Santos, a gente andou cuidando, tratou delas até a morte. Era um resíduo da escravidão, porque era tudo descendente de escravo”, disse Laudelina em entrevista à educadora Elisabete Pinto. A fala da líder sindical simboliza a violência estrutural sofrida por mulheres negras logo após a abolição e minimizada graças à sua luta.
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O artigo acima foi editado por Marcele Dias.
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